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Resumo

  • Apesar da clareza dos dados e da gravidade histórica, Israel continua a negar a existência de fome, atribuindo responsabilidades ao Hamas e bloqueando acusações de que utiliza a privação alimentar como método de guerra.
  • Segundo o relatório da Classificação Integrada de Fases de Segurança Alimentar (IPC), pelo menos 30% das crianças de Gaza sofrem de desnutrição aguda e a taxa de mortalidade já ultrapassa os limiares que definem a fome .
  • A resposta pode residir numa mistura de fadiga internacional perante a guerra em Gaza, pressão diplomática israelense e, sobretudo, a eficácia da narrativa que reduz toda a catástrofe a uma consequência do Hamas.

O relatório da ONU confirmou esta semana aquilo que organizações humanitárias denunciavam há meses: Gaza entrou oficialmente em Fase 5 do IPC — Fome. É a primeira vez que essa classificação atinge o Médio Oriente. Mais de 640 mil pessoas vivem em condições catastróficas, enquanto 2,1 milhões de habitantes enfrentam níveis de insegurança alimentar de crise ou pior . Apesar da clareza dos dados e da gravidade histórica, Israel continua a negar a existência de fome, atribuindo responsabilidades ao Hamas e bloqueando acusações de que utiliza a privação alimentar como método de guerra.

A evidência da ONU e o desastre “criado pelo homem”

Segundo o relatório da Classificação Integrada de Fases de Segurança Alimentar (IPC), pelo menos 30% das crianças de Gaza sofrem de desnutrição aguda e a taxa de mortalidade já ultrapassa os limiares que definem a fome . O colapso da infraestrutura civil — 98% das terras agrícolas destruídas, água imprópria e hospitais sem medicamentos — agrava o cenário. O Secretário-Geral da ONU, António Guterres, classificou a tragédia como “um desastre criado pelo homem”, lamentando que pudesse ter sido evitada se não houvesse “obstrução sistemática” à entrada de ajuda humanitária.

Israel, no entanto, insiste em afirmar que o Hamas desvia alimentos, justificando as restrições impostas às fronteiras. A ONU descreve esses episódios não como pilhagem, mas como “autodistribuição” de bens por parte de uma população desesperada. A diferença semântica revela o conflito de narrativas: de um lado, a evidência empírica do colapso; do outro, a retórica de segurança.

Negação política e cumplicidade internacional

A recusa israelense em reconhecer a fome não se limita a um discurso defensivo. É sustentada por uma rede diplomática e política que blinda o país de responsabilizações imediatas. O Tribunal Penal Internacional (TPI) emitiu mandados de prisão contra líderes de Israel e do Hamas por crimes de guerra, incluindo o uso da fome como arma . A resposta de Washington foi imediata: sanções contra magistrados da Corte, descritas pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, como proteção da soberania americana e de Israel.

Esse gesto dos Estados Unidos não apenas enfraqueceu a autoridade do TPI, como criou um racha transatlântico. A União Europeia, pelo contrário, reforçou apoio ao Tribunal e chegou a ponderar a ativação do seu Estatuto de Bloqueio, instrumento jurídico usado contra sanções extraterritoriais. O contraste expõe uma fissura profunda no Ocidente: até que ponto a política externa pode continuar a relativizar o sofrimento humano em nome de alianças estratégicas?

O silêncio moral e os custos humanos

A indiferença internacional é tão devastadora quanto o bloqueio material. O reconhecimento formal de uma fome deveria desencadear uma mobilização global imediata. No entanto, a resposta tem sido tímida, marcada por condenações verbais sem efeito prático. Enquanto isso, em Gaza, um em cada cinco bebés nasce prematuro ou abaixo do peso, e milhares de crianças enfrentam risco iminente de morte por desnutrição .

Como explicar que a primeira fome reconhecida no Médio Oriente — um marco de gravidade histórica — seja recebida com tal normalização? A resposta pode residir numa mistura de fadiga internacional perante a guerra em Gaza, pressão diplomática israelense e, sobretudo, a eficácia da narrativa que reduz toda a catástrofe a uma consequência do Hamas. Mas pode a política justificar a negação da evidência? Pode o mundo assistir a uma fome documentada e, mesmo assim, deixar que continue?

Um dilema ético e jurídico

A fome em Gaza não é resultado de seca, colheitas perdidas ou crise económica isolada. É uma estratégia política identificada por múltiplos organismos internacionais. O chefe de direitos humanos da ONU, Volker Türk, chegou a declarar que as restrições israelenses “podem equivaler ao crime de guerra de usar a fome como método de guerra”. Negar esse quadro não é apenas uma manobra retórica: é uma ruptura com os princípios mais elementares do direito internacional humanitário.

Se em crises anteriores, como na Somália (2011) ou no Sudão do Sul (2017), a fome foi revertida por uma resposta humanitária robusta, Gaza enfrenta uma barreira política inédita: a ajuda está disponível, mas não chega em quantidade suficiente porque é deliberadamente travada . Esta singularidade — uma fome inteiramente fabricada — expõe um dilema ético: aceitar a negação israelense equivale a legitimar a instrumentalização da fome como arma.

Conclusão: A urgência da responsabilidade

A fome em Gaza não é apenas uma tragédia humanitária; é uma acusação moral ao sistema internacional. Israel sustenta a sua negação com apoio político dos Estados Unidos, divisões diplomáticas e uma narrativa de segurança que encontra eco em parte da opinião pública. Mas o custo é brutal: vidas perdidas, crianças condenadas, um território reduzido a escombros e miséria.

A questão central permanece: como é possível negar uma fome que já cumpre todos os critérios oficiais da ONU? A resposta a essa pergunta não dirá apenas algo sobre Israel, mas também sobre nós, enquanto comunidade internacional. Porque cada dia de silêncio é um dia a mais de fome evitável. E cada justificativa é uma sombra que recai sobre a consciência coletiva.

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