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Resumo

  • Lisboa, 28 de Julho de 2025A sala de aula, outrora refúgio de aprendizagem e partilha, começa a espelhar a dureza do debate político e social que marca o Portugal contemporâneo.
  • O Sindicato dos Professores da Região Centro (SPRC) apresentou este mês uma proposta para tornar obrigatória a formação em mediação intercultural e combate ao discurso de ódio para todos os docentes do ensino básico.
  • Na Escola Secundária de Viseu, um grupo de alunos criou o clube “Diálogos”, onde semanalmente se debate, com moderação de professores, temas como racismo, desigualdade de género e direitos humanos.

Lisboa, 28 de Julho de 2025
A sala de aula, outrora refúgio de aprendizagem e partilha, começa a espelhar a dureza do debate político e social que marca o Portugal contemporâneo. Professores e educadores alertam para um aumento de comportamentos xenófobos, racistas e sexistas entre os alunos, especialmente desde a ascensão do discurso extremista protagonizado pelo Chega.

“Tenho alunos de 12 anos que já falam em deportações e fronteiras como se fossem especialistas em política migratória”, desabafa Marta Duarte, professora numa escola do concelho da Amadora. “O problema não é apenas a linguagem: é a convicção com que o dizem, como se fosse um facto óbvio e inquestionável.”

A transformação do ambiente escolar tornou-se uma realidade inquietante para centenas de docentes. Os insultos com base na cor da pele, nacionalidade ou religião estão a tornar-se mais frequentes. E, em vez de recuarem perante a intervenção de adultos, muitos alunos enfrentam-na com orgulho, invocando “liberdade de expressão” ou citando líderes políticos como inspiração.

O efeito cascata do discurso político
Especialistas em desenvolvimento infantil são unânimes: as crianças absorvem as referências dominantes do seu meio social — incluindo as que vêm dos políticos. A repetição mediática de frases como “os ciganos são um problema” ou “os imigrantes vivem à custa do Estado” influencia a forma como os mais novos percebem o mundo.

“A infância é uma fase em que se constrói o sentido de justiça, pertença e alteridade. Quando esse processo é contaminado por ideias de exclusão, estamos a comprometer a saúde democrática futura do país”, afirma a psicóloga educacional Sandra Matos.

O impacto emocional também é profundo. Crianças racializadas relatam um crescente sentimento de insegurança e vergonha. Pais de origem africana ou sul-americana dizem ter notado mudanças no comportamento dos filhos, desde crises de ansiedade até recusa em falar a sua língua materna na escola.

Casos reais e estatísticas preocupantes
Um estudo do Instituto de Apoio à Criança, divulgado em Maio de 2025, revelou que 36% dos alunos com ascendência migrante afirmam ter sido vítimas de comentários discriminatórios no último ano letivo. Entre os alunos ciganos, esse número sobe para 53%.

Em Odivelas, uma professora do 5.º ano relata um episódio perturbador: “Durante uma discussão sobre História, um aluno disse, perante toda a turma, que os ‘pretos deviam voltar para África’. Quando o confrontei, respondeu com firmeza: ‘Foi o Ventura que disse, e ele é deputado’.”

Situações semelhantes multiplicam-se em escolas de norte a sul do país. Em muitos casos, os educadores sentem-se desamparados — sem formação, apoio institucional ou estratégias eficazes para responder.

“Não basta fazer uma palestra sobre diversidade uma vez por ano”, critica Jorge Gama, diretor de uma escola básica em Vila Nova de Gaia. “Estamos perante uma emergência social que exige recursos, formação contínua e um posicionamento claro por parte do Ministério da Educação.”

A resposta (tímida) das instituições
O Ministério da Educação tem promovido, nos últimos dois anos, o Plano Nacional para a Cidadania e os Direitos Humanos nas Escolas. No entanto, muitos professores consideram a iniciativa insuficiente — quer pelo carácter opcional dos módulos, quer pela escassez de acompanhamento técnico.

O Sindicato dos Professores da Região Centro (SPRC) apresentou este mês uma proposta para tornar obrigatória a formação em mediação intercultural e combate ao discurso de ódio para todos os docentes do ensino básico. A medida está em análise.

“Estamos a reagir tarde e com pouca força”, afirma Leonor Bento, investigadora em sociologia da educação. “O extremismo já entrou pela porta das escolas e está a recrutar novos crentes. É preciso dizer com clareza que o racismo e a intolerância não têm lugar na educação pública.”

Sinais de resistência
Nem tudo é derrota. Algumas escolas estão a responder com criatividade e coragem. Na Escola Secundária de Viseu, um grupo de alunos criou o clube “Diálogos”, onde semanalmente se debate, com moderação de professores, temas como racismo, desigualdade de género e direitos humanos.

Em Loures, um projeto-piloto coordenado por ONGs locais tem levado jovens ativistas a partilhar testemunhos pessoais em sessões abertas, promovendo empatia e desafiando estereótipos.

“Os miúdos precisam de ver exemplos reais de resistência e de humanidade”, defende Carla Nogueira, coordenadora do projecto. “Precisam de perceber que ser solidário é mais corajoso do que repetir insultos atrás de um telemóvel.”

Educar é um acto político
No fundo, o que está em causa é mais do que disciplina ou pedagogia. É uma escolha de modelo de sociedade. A escola pode ser um espaço de reprodução da intolerância ou um bastião da cidadania crítica. Mas, para isso, precisa de recursos, apoio político e, sobretudo, uma cultura de coragem moral.

“Estamos a formar os eleitores, os líderes e os cidadãos de amanhã”, conclui Sandra Matos. “Se não estivermos à altura do desafio hoje, pagaremos o preço por gerações.”

Palavras-Chave: escola, racismo infantil, xenofobia, Chega, discurso político, cidadania, educação

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