Resumo
- Es identificaram mais de 400 campanhas coordenadas por redes de contas pró‑governamentais, tanto de Israel como de aliados do Hamas, com o objectivo de modelar a opinião pública, polarizar o debate e dificultar qualquer solução negociada.
- A HateLab registou um aumento superior a 300 % no discurso de ódio online após os bombardeamentos de Khan Younis, com posts racistas e slogans como “morte a todos os muçulmanos” ou “os judeus controlam tudo” a alcançar milhões de visualizações antes de serem moderados.
- A Meta e a Google não divulgam critérios de moderação e organizações como a Access Now denunciam listas negras de palavras‑chave como “Gaza” ou “genocídio”.
Enquanto Gaza arde e as negociações fracassam, uma batalha invisível decorre em paralelo — travada em ecrãs, algoritmos e hashtags. A “guerra das narrativas” transformou a informação em arma. Desde Outubro de 2023, o volume de conteúdos falsos, manipulados ou descontextualizados nas redes sociais aumentou mais de 780%, de acordo com o Observatório de Cibersegurança da Universidade do Minho. Estudos da EUvsDisinfo e da ONG Maldita.es identificaram mais de 400 campanhas coordenadas por redes de contas pró‑governamentais, tanto de Israel como de aliados do Hamas, com o objectivo de modelar a opinião pública, polarizar o debate e dificultar qualquer solução negociada.
As grandes narrativas repetem‑se: que o Hamas usa crianças como escudo humano; que Israel bombardeia hospitais porque são bases terroristas; que os palestinianos encenam mortes; ou que todos os judeus apoiam Israel e todos os muçulmanos apoiam o Hamas. Estas afirmações simplificadoras carecem de provas verificadas e reduzem comunidades plurais a caricaturas. Em paralelo, as redes tornaram‑se terreno fértil para antissemitismo, islamofobia e apologia da violência. A HateLab registou um aumento superior a 300 % no discurso de ódio online após os bombardeamentos de Khan Younis, com posts racistas e slogans como “morte a todos os muçulmanos” ou “os judeus controlam tudo” a alcançar milhões de visualizações antes de serem moderados. Algoritmos que privilegiam conteúdo polarizante amplificam a indignação independentemente da veracidade.
A censura é o outro lado da moeda. Entre Novembro de 2023 e Maio de 2025, mais de 800 contas pró‑palestinianas foram suspensas ou limitadas no Instagram, X e Facebook, incluindo as de jornalistas no terreno. Activistas pró‑israelitas denunciam bloqueios arbitrários dos seus conteúdos; a Meta e a Google não divulgam critérios de moderação e organizações como a Access Now denunciam listas negras de palavras‑chave como “Gaza” ou “genocídio”. Para a jornalista palestiniana Yara El‑Najjar, publicar a partir de Rafah “é como gritar debaixo de água: ninguém nos ouve, ou ouvem só o que querem”.
As agências de verificação de factos, da Bellingcat à AFP Factuel, lutam para acompanhar a maré de vídeos manipulados, bots e denúncias falsas. Fact‑checkers israelitas são ameaçados de processos por denunciarem desinformação oficial; jornalistas palestinianos são alvo de difamações. A directora do Observatório Europeu para as Plataformas Digitais, Giulia Sgambato, avisa que a guerra da informação é tão estratégica e destrutiva como o armamento real.
Que fazer? Especialistas propõem medidas urgentes: maior transparência algorítmica e divulgação de critérios de amplificação e moderação; protecção de jornalistas e activistas digitais; educação para a literacia mediática nas escolas; e criação de consórcios civis para monitorizar desinformação durante conflitos. Afinal, a guerra israelo‑palestiniana não se trava apenas em Gaza ou Telavive; também se combate no TikTok, nos algoritmos, nos memes e nas denúncias falsas. O dano não é apenas reputacional — é estrutural. Onde o ódio substitui o diálogo e a mentira mascara o luto, nenhum futuro se constrói. Lutar pela verdade é tão urgente como alimentar, curar ou proteger. A paz começa pela palavra e pela coragem de separar factos da propaganda.