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Resumo

  • Segundo o Security Council Report, think tank independente que acompanha o funcionamento do Conselho, o “uso reiterado e isolado do veto por parte dos EUA em assuntos palestinianos compromete a eficácia e legitimidade do Conselho de Segurança”.
  • Alastra à Assembleia Geral, onde os EUA têm sido frequentemente derrotados em votações simbólicas, incluindo sobre o reconhecimento do estatuto da Palestina, o fim do bloqueio a Gaza, ou a condenação da expansão dos colonatos israelitas.
  • Embora o Reino Unido tenha hesitado nalguns momentos, também acabou por se alinhar com a maioria em votações como a de Outubro de 2023, que exigia uma pausa humanitária em Gaza.

Nova Iorque, 27 de Julho de 2025 – A imagem repete‑se com inquietante regularidade: uma sala austera, bandeiras ao fundo, quinze placas de países sobre a mesa. Ao centro, o martelo do presidente do Conselho de Segurança da ONU. E, mais uma vez, a votação termina com o resultado já antecipado: 14 votos a favor, 1 contra. O veto americano. A resolução cai. Gaza continua a arder.

Nos últimos vinte anos, este padrão votativo tornou‑se quase uma caricatura da diplomacia multilateral. A esmagadora maioria dos membros do Conselho de Segurança aprova resoluções destinadas a conter a violência ou a defender os civis palestinianos. Mas os Estados Unidos bloqueiam, sozinhos, decisões que poderiam alterar o curso da história – ou pelo menos, mitigar o sofrimento humano.

O veto solitário
Entre 2005 e 2025, os EUA exerceram o seu direito de veto mais de 30 vezes em resoluções ligadas ao conflito israelo‑palestiniano. Em 22 dessas ocasiões, o placar foi de 14‑1. França, Reino Unido, China, Rússia – cada qual com as suas agendas e rivalidades – votaram lado a lado. Os membros não‑permanentes também. Mas Washington ficou isolado.

Este isolamento diplomático crescente não se verifica noutros dossiês internacionais, como a guerra na Síria ou as tensões no mar da China Meridional, onde os vetos são mais partilhados entre potências. Só no caso de Israel e da Palestina é que os EUA votam de forma tão sistematicamente divergente.

O embaixador da África do Sul na ONU foi directo numa sessão recente: “Como é possível que 14 países, de continentes, religiões e sistemas políticos distintos, estejam errados… e apenas um, certo?”

As razões do veto
A retórica americana não mudou substancialmente, de Bush a Biden. As resoluções são consideradas “desequilibradas”, “hostis a Israel” ou “insuficientes na condenação do terrorismo”. As sucessivas administrações alegam que o Conselho de Segurança “não é o fórum adequado” ou que “interferem nas negociações bilaterais”.

Por vezes, são feitas alterações cosméticas às resoluções para tentar acomodar as exigências americanas – mas sem sucesso. Em Janeiro de 2024, uma proposta de cessar‑fogo incluía uma cláusula explícita de condenação ao Hamas e ao lançamento de foguetes contra civis israelitas. Ainda assim, os EUA vetaram.

Veto e credibilidade
Este comportamento tem um preço. Diplomatas de várias regiões denunciam a crescente erosão da credibilidade dos Estados Unidos como potência promotora dos direitos humanos e da ordem internacional. “Não podem invocar os princípios do direito internacional em Kiev ou Taipé, e ignorá‑los em Gaza”, declarou recentemente a representante do Brasil.

Segundo o Security Council Report, think tank independente que acompanha o funcionamento do Conselho, o “uso reiterado e isolado do veto por parte dos EUA em assuntos palestinianos compromete a eficácia e legitimidade do Conselho de Segurança”.

A fractura global
Este isolamento não se resume à sala do Conselho. Alastra à Assembleia Geral, onde os EUA têm sido frequentemente derrotados em votações simbólicas, incluindo sobre o reconhecimento do estatuto da Palestina, o fim do bloqueio a Gaza, ou a condenação da expansão dos colonatos israelitas.

Em 2022, 187 países votaram a favor de uma resolução pedindo o fim da ocupação de territórios palestinianos. Apenas EUA, Israel e um pequeno número de ilhas do Pacífico votaram contra.

Esta tendência levou o historiador Rashid Khalidi, da Universidade de Columbia, a afirmar: “Os EUA estão cada vez mais sozinhos – não porque o mundo mudou, mas porque recusam mudar”.

A posição da Europa
Curiosamente, os principais aliados transatlânticos dos Estados Unidos têm vindo a distanciar‑se. França, Alemanha, Irlanda, Noruega e Portugal têm adoptado uma postura mais crítica, apoiando resoluções que denunciam excessos militares israelitas e exigem acções humanitárias urgentes.

Embora o Reino Unido tenha hesitado nalguns momentos, também acabou por se alinhar com a maioria em votações como a de Outubro de 2023, que exigia uma pausa humanitária em Gaza. Washington vetou. Londres votou a favor.

Um antigo diplomata europeu, que preferiu manter o anonimato, resumiu o desconforto: “Estamos a assistir ao colapso do consenso ocidental sobre o Médio Oriente”.

Implicações geopolíticas
Este isolamento dos EUA está a ser explorado por outras potências. China e Rússia, cada qual com os seus próprios abusos de direitos humanos, têm tentado capitalizar a moralidade selectiva americana para se apresentarem como defensores dos povos oprimidos. Um jogo cínico, mas eficaz na arena diplomática.

Nos países do Sul Global, a imagem dos EUA enquanto garantes da justiça internacional perdeu brilho. Na América Latina, em África e no Sudeste Asiático, cresce a percepção de que Washington protege os seus aliados independentemente do custo humano.

O veto como fardo
Internamente, cresce a contestação. No Congresso, congressistas como Alexandria Ocasio‑Cortez e Jamaal Bowman exigem uma reavaliação da política de vetos automáticos. Nos media progressistas, o New York Times e a MSNBC publicaram editoriais críticos. Até antigos diplomatas americanos, como Thomas Pickering, sugerem que os EUA se abstenham em vez de vetar, em casos humanitários.

Mas a Casa Branca continua firme. Em Fevereiro de 2025, a porta‑voz do Departamento de Estado reiterou: “Os Estados Unidos não apoiarão qualquer resolução que comprometa o direito de Israel à autodefesa”.

Conclusão
A regra das maiorias no Conselho de Segurança está longe de ser vinculativa, mas a regra moral que sustenta o multilateralismo é clara: 14 contra 1 não é um erro de cálculo. É um sintoma de desconexão diplomática.

Enquanto o veto americano continuar a sobrepor‑se ao consenso global, o Conselho de Segurança permanece refém de uma só vontade. E, com isso, a esperança de que o direito internacional prevaleça sobre os interesses nacionais continuará a definhar.

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