Resumo
- Especialistas do Center on International Cooperation da NYU propõem a criação de uma missão internacional para reconstrução e governação temporária de Gaza, com mandato de três anos renovável, dirigida conjuntamente pela ONU, pela Autoridade Palestiniana, pelos países doadores e pela sociedade civil, priorizando habitação, saneamento, saúde primária e educação.
- A proposta recebe apoio do Sul Global e de vários países europeus, mas enfrenta resistência de Washington e de Telavive, que a consideram ingerência.
- A criação de uma força internacional de observação ou de protecção, como em Timor‑Leste ou no Kosovo, tem sido discutida, mas exige a aceitação de Israel, do Hamas ou das entidades que venham a substituí‑los.
A guerra ainda não acabou mas as ruínas de Gaza já suscitam as mesmas perguntas de sempre: quem irá reconstruir? Com que dinheiro? Sob que autoridade? E como quebrar o ciclo de destruição e reconstrução que se repetiu em 2009 e 2014?
Segundo o Banco Mundial, entre outubro de 2023 e julho de 2025 mais de 70 % das infraestruturas civis de Gaza foram destruídas ou severamente danificadas: cerca de 290 mil habitações desapareceram, 14 hospitais e 360 escolas ficaram inoperacionais e 90 % da rede de água e esgotos foi inutilizada. O custo directo da reparação ultrapassa 19 milhões de dólares, podendo chegar a 25‑30 mil milhões em dez anos, e a ONU estima que, mesmo com um cessar‑fogo imediato, seriam necessários pelo menos quinze anos para reconstruir. Perante a destruição continuada e a chegada gota a gota de ajuda, a questão “reconstruir o quê?” torna‑se inevitável.
O financiamento é o primeiro obstáculo. Um fundo fiduciário multi‑doadores administrado pela ONU ou pelo Banco Mundial é defendido pela OCDE, mas depende de consenso político e de auditoria independente. Os financiadores bilaterais da União Europeia, do Golfo e da Ásia divergem sobre o controlo político do processo. Propostas como contribuições obrigatórias decididas pela Assembleia‑Geral ou a utilização de activos israelitas congelados enfrentam forte oposição de Israel e dos EUA e implicam riscos legais e retaliações.
O segundo obstáculo é a governação. A Autoridade Palestiniana reivindica legitimidade, mas tem autoridade limitada em Gaza e pouca confiança popular. O Hamas perdeu capacidade territorial mas não desapareceu; Israel rejeita qualquer papel do movimento na reconstrução e recusa reconhecer responsabilidade legal pela faixa. Entre os cenários discutidos estão uma tutela internacional temporária supervisionada pela ONU com tecnocratas palestinianos e parceiros árabes; uma coordenação descentralizada, em que cada doador financia directamente agências como a UNRWA ou o PNUD; ou um regresso gradual da Autoridade Palestiniana apoiado por uma força multinacional de paz. Qualquer modelo exige consenso regional, transparência e uma força de supervisão aceite por todas as partes.
A ONU poderá desempenhar um papel central. Especialistas do Center on International Cooperation da NYU propõem a criação de uma missão internacional para reconstrução e governação temporária de Gaza, com mandato de três anos renovável, dirigida conjuntamente pela ONU, pela Autoridade Palestiniana, pelos países doadores e pela sociedade civil, priorizando habitação, saneamento, saúde primária e educação. A proposta recebe apoio do Sul Global e de vários países europeus, mas enfrenta resistência de Washington e de Telavive, que a consideram ingerência.
A experiência das últimas reconstruções mostra que promessas vazias, dispersão de esforços e falta de coordenação deixam ruínas à mercê da próxima ofensiva. Economistas da OCDE sublinham que a previsibilidade e a durabilidade dos fundos importam mais do que o volume inicial: sem cessar‑fogo permanente e garantias de não‑repetição da destruição, os doadores hesitam e os habitantes perdem esperança. Além disso, sem garantir segurança tanto para israelitas como para palestinianos, nenhuma reconstrução será sustentável. A criação de uma força internacional de observação ou de protecção, como em Timor‑Leste ou no Kosovo, tem sido discutida, mas exige a aceitação de Israel, do Hamas ou das entidades que venham a substituí‑los.
Reconstruir Gaza não se resume a repor tijolos e cabos eléctricos; é uma oportunidade para redesenhar uma estrutura de governação legítima, inclusiva e resiliente. Mas enquanto faltar um acordo político mínimo e justiça para as vítimas, toda a reconstrução corre o risco de ser ruína adiada. Quantas vezes se pode reconstruir um território antes de reconhecer que sem justiça e autodeterminação, o ciclo da destruição se repete?