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Resumo

  • ” A frase, dita com voz firme por Marta Oliveira, catequista há mais de 20 anos na Paróquia de São Vítor, em Braga, resume o espírito de um movimento silencioso e persistente que está a crescer por todo o país.
  • O antídoto contra o medo e o ressentimento não vem de grandes cúpulas eclesiais, mas de um labor discreto e capilar, onde a fé se traduz em gestos concretos de inclusão.
  • Num tempo em que o medo é usado como ferramenta de mobilização política, as comunidades católicas que resistem à maré tóxica do ódio fazem-no com as armas da fé, da escuta e da presença.

Movimentos paroquiais, catequistas e grupos de jovens levam o Evangelho às periferias do medo, formando cidadãos que dizem não ao racismo e à intolerância.

Porto, 13 de Junho de 2025 — “Jesus não nos ensinou a ter medo, mas a amar.” A frase, dita com voz firme por Marta Oliveira, catequista há mais de 20 anos na Paróquia de São Vítor, em Braga, resume o espírito de um movimento silencioso e persistente que está a crescer por todo o país: comunidades católicas que, no quotidiano das suas acções, educam contra o ódio e formam consciências para a cidadania inclusiva.

Enquanto os discursos da extrema-direita semeiam suspeitas e estigmas, nas sacristias e salas de catequese ensina-se outra linguagem: a do acolhimento, da dignidade humana, da solidariedade activa. O antídoto contra o medo e o ressentimento não vem de grandes cúpulas eclesiais, mas de um labor discreto e capilar, onde a fé se traduz em gestos concretos de inclusão.

Catequese com sentido social

Na aldeia de Alvito, no Alentejo, a catequese de adolescentes inclui sessões sobre diversidade cultural, migração e justiça social. “Usamos passagens bíblicas como base para debates”, explica o pároco, padre João Castanheira. “A história da fuga para o Egipto é um ponto de partida excelente para falarmos de refugiados hoje.”

Os jovens são incentivados a escrever cartas de boas-vindas a famílias migrantes acolhidas pela Cáritas local. Em algumas celebrações, os próprios migrantes são convidados a partilhar a sua experiência durante a homilia. “Queremos que os nossos adolescentes conheçam o rosto do outro — e deixem de o temer.”

Juventude que diz não ao ódio

Em Lisboa, o grupo de jovens “Sal da Terra”, ligado à Paróquia de São Sebastião da Pedreira, desenvolveu um programa de formação cívica com o título “Fé e Direitos Humanos”. A iniciativa surgiu após uma série de comentários racistas num grupo de WhatsApp escolar. “Sentimos que precisávamos de responder, não com moralismo, mas com formação sólida”, conta Miguel Ribeiro, animador do grupo.

Ao longo de cinco encontros, os jovens estudaram o Compêndio da Doutrina Social da Igreja, viram documentários sobre migração e participaram numa visita ao centro de acolhimento da Cáritas de Lisboa. “Não basta rezar — temos de agir”, resume Inês Martins, de 17 anos. “A nossa fé pede justiça.”

Paróquias que acolhem

No bairro social do Cerco, no Porto, a paróquia de Nossa Senhora do Calvário acolhe uma comunidade católica cabo-verdiana e organiza, em parceria com escolas e associações locais, encontros interculturais. “Percebemos que o medo nasce da ignorância”, diz a irmã Paula Gomes, missionária do Verbo Divino. “Quando se conhecem, os jovens deixam de ver o outro como ameaça.”

A paróquia disponibiliza apoio jurídico e aulas de português a migrantes recém-chegados, muitas vezes com o apoio de voluntários da própria comunidade. Nas missas dominicais, é habitual ouvir cânticos em crioulo ou ler leituras em várias línguas. “É uma liturgia viva, onde todos se reconhecem”, diz o padre Armando Duarte.

A resposta de base à desinformação

Em tempos de redes sociais contaminadas por desinformação e teorias da conspiração, a Igreja local tem um papel formativo essencial. “Fazemos sessões para pais e catequistas sobre como desmontar discursos de ódio e notícias falsas”, afirma Rosa Silveira, da Cáritas Diocesana de Santarém. “A fé precisa de ser crítica — não pode ser ingénua nem cúmplice.”

Estes encontros usam vídeos, testemunhos e textos bíblicos para reforçar a ideia de que o cristianismo é incompatível com racismo, xenofobia ou supremacismo. “Não se pode adorar o crucificado e ao mesmo tempo crucificar o migrante”, diz Rosa.

Fé contra o medo, comunidade contra o isolamento

Num tempo em que o medo é usado como ferramenta de mobilização política, as comunidades católicas que resistem à maré tóxica do ódio fazem-no com as armas da fé, da escuta e da presença. “A Igreja é o corpo de Cristo, e o corpo sente quando um dos seus membros sofre”, afirma o padre João Castanheira.

Essas acções de base, multiplicadas por todo o território — urbanas e rurais, discretas e constantes — são o verdadeiro baluarte contra a manipulação populista. Não há slogans nem comícios, mas há evangelho vivido, pão partilhado e portas abertas.

E isso, como bem sabem os que trabalham no terreno, é a forma mais sólida de vacinar um país contra o ódio.

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