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Resumo

  • Com a ultrapassagem do Partido Socialista após a contagem dos círculos da emigração, o Chega assume agora o estatuto de principal partido da oposição, pondo termo a meio século de bipartidarismo PS-PSD.
  • Luís Montenegro, líder da coligação vencedora – a Aliança Democrática (PPD/PSD-CDS-PP) – formou governo sem recorrer ao apoio do Chega, reiterando a recusa de qualquer entendimento com aquele que continua a ser descrito como um partido “anti-establishment”, nacionalista e contrário à imigração.
  • Em 2025, partidos da direita radical e extrema-direita lideram governos na Itália e nos Países Baixos, cresceram na Alemanha, Suécia e França, e influenciam o poder político em Estados-membros do Leste Europeu.

Lisboa, 5 de Junho de 2025 – O resultado das eleições legislativas portuguesas de Maio de 2025 assinalou um momento de viragem no xadrez político nacional: o partido Chega, liderado por André Ventura, alcançou 22,76% dos votos, elegendo 60 deputados e tornando-se, pela primeira vez, a segunda força política no Parlamento. Com a ultrapassagem do Partido Socialista após a contagem dos círculos da emigração, o Chega assume agora o estatuto de principal partido da oposição, pondo termo a meio século de bipartidarismo PS-PSD.

Uma nova oposição em tempos incertos

Luís Montenegro, líder da coligação vencedora – a Aliança Democrática (PPD/PSD-CDS-PP) – formou governo sem recorrer ao apoio do Chega, reiterando a recusa de qualquer entendimento com aquele que continua a ser descrito como um partido “anti-establishment”, nacionalista e contrário à imigração. O isolamento institucional do Chega, contudo, não travou a sua ascensão meteórica: de apenas um deputado em 2019 para uma bancada com peso real na Assembleia da República em 2025.

Portugal deixa de ser excepção

Durante décadas, Portugal foi apontado como uma exceção europeia pela ausência de uma extrema-direita representativa. Esse tempo terminou. Os 22,76% obtidos pelo Chega colocam Portugal na 9.ª posição entre os países da UE com maior representação parlamentar da direita radical – superando inclusive o Alternativa para a Alemanha (AfD) e o espanhol Vox.

André Ventura rejeita o rótulo de extrema-direita, mas exibe sem reservas a sua ligação a líderes como Marine Le Pen, Santiago Abascal e Geert Wilders. Na noite eleitoral, os cumprimentos dos seus aliados europeus não se fizeram esperar. “As forças patrióticas e conservadoras crescem em todas as nações da Europa”, declarou Abascal, refletindo a consolidação de uma rede transnacional populista que inclui o Chega.

A nova face da extrema-direita portuguesa

Embora o Chega domine o campo da extrema-direita em Portugal, outros actores subsistem nas margens do espectro político. Entre eles, o Ergue-te (antigo PNR), que continua a defender um programa ultranacionalista, islamofóbico e anti-NATO, sem representação parlamentar. Mais à direita ainda, a Nova Ordem Social, de Mário Machado, suspendeu a sua actividade em 2019, mas marcou presença pública em eventos de culto salazarista e encontros com formações neofascistas europeias.

Estes agrupamentos partilham uma matriz ideológica comum com o Chega, embora este último tenha alcançado um grau de institucionalização e aceitação popular sem precedentes.

Uma Europa em mutação

O caso português insere-se numa vaga mais ampla. Em 2025, partidos da direita radical e extrema-direita lideram governos na Itália e nos Países Baixos, cresceram na Alemanha, Suécia e França, e influenciam o poder político em Estados-membros do Leste Europeu. Só quatro países da UE permanecem sem representação parlamentar da extrema-direita.

A vitória de Karol Nawrocki na Polónia, apoiado por forças ultraconservadoras, e a derrota do populista George Simion na Roménia, mostram uma Europa polarizada e em disputa. Em simultâneo, o colapso da centro-esquerda é evidente: o PS português perdeu 20 deputados; na Polónia, a esquerda foi excluída do segundo turno presidencial; e na Roménia, o centro liberal venceu sem alianças à esquerda.

Democracia sob tensão

O crescimento destes partidos levanta questões fundamentais sobre o futuro da democracia liberal. O discurso securitário, anti-imigração e anti-institucional atrai sectores sociais descontentes com as elites, a globalização e os efeitos das crises económicas e sanitárias. Como alertou o politólogo Jean-Michel De Waele, “as zonas onde a esquerda era forte estão a ser devoradas pela extrema-direita”.

Num Parlamento onde a direita e centro-direita somam dois terços, abre-se em Portugal a possibilidade de rever a Constituição – cenário até há pouco impensável. O Chega já anunciou que pretende limitar os direitos das minorias, aumentar o controlo sobre o sistema judicial e reforçar a autoridade do Estado. Os sinais não podiam ser mais claros.

Resistência ou resignação?

Portugal junta-se assim ao concerto de nações europeias onde o populismo autoritário deixou de ser marginal. O impacto é profundo e coloca os democratas perante um dilema: resistir e reorganizar as forças progressistas ou assistir, com passividade cúmplice, à erosão do regime saído de Abril.

A história ensina que a democracia não se dissolve num dia. E, como demonstrou a Roménia com a vitória de Nicusor Dan, há sempre espaço para reverter a maré. Mas para tal é preciso uma alternativa. E essa, por agora, ainda não se avista com nitidez no horizonte português.

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