Resumo
- O número vem da própria contabilidade israelita citada por Nicholas Kristof, colunista do New York Times e detentor de dois Pulitzers, numa investigação publicada a 11 de maio de 2026 e baseada em catorze testemunhos diretos recolhidos na Cisjordânia.
- A B'Tselem, organização israelita de direitos humanos com mais de três décadas de trabalho, tem documentado o mesmo padrão a partir do interior do próprio sistema judicial israelita.
- O caso mais documentado — um prisioneiro de Gaza hospitalizado em julho de 2024 com fratura de costelas, punção pulmonar e lesão rectal — terminou em março de 2026 com o arquivamento da última acusação contra os nove reservistas inicialmente detidos.
Três organizações independentes — ONU, Euro-Med, B'Tselem — documentam um padrão sistémico de abusos sexuais em prisões e operações militares israelitas. O New York Times tornou-o capa. A imprensa portuguesa ainda não.
Mais de 9.000 palestinianos continuam detidos em prisões israelitas sem acusação formal, muitos deles sob denúncias de tortura sexual que três relatórios independentes classificam como prática institucional — e não como excessos isolados.
O número vem da própria contabilidade israelita citada por Nicholas Kristof, colunista do New York Times e detentor de dois Pulitzers, numa investigação publicada a 11 de maio de 2026 e baseada em catorze testemunhos diretos recolhidos na Cisjordânia.
A peça atravessou o ciclo noticioso anglófono em pouco mais de uma semana. Em Portugal, mal se ouviu.
Três relatórios, três autores, uma conclusão
Em 2024, uma comissão de inquérito das Nações Unidas concluiu que os abusos sexuais a detidos palestinianos faziam parte daquilo que descreveu como procedimentos operacionais correntes do aparelho prisional israelita. O documento tem 49 páginas. Está disponível no site da própria ONU.
Em abril de 2026, o Euro-Med Human Rights Monitor — organização sediada em Genebra, com historial crítico tanto de Israel como do Hamas — foi mais longe. Classificou os abusos como política de Estado organizada e sistemática.
A B'Tselem, organização israelita de direitos humanos com mais de três décadas de trabalho, tem documentado o mesmo padrão a partir do interior do próprio sistema judicial israelita. Tortura, escreve a organização, normalizou-se.
A coerência entre três fontes independentes — uma multilateral, uma internacional, uma israelita — é, por si só, um sinal jornalístico.
Os testemunhos
Kristof entrevistou catorze pessoas. Entre elas, um jornalista freelancer chamado Sami al-Sai, detido em 2024, descreve uma agressão coletiva à entrada da cela. Os guardas, segundo o seu relato, alternaram instrumentos. Riam-se. Fumavam pausas.
Há também o relato anónimo de um agricultor da Cisjordânia, libertado no início de 2026 após meses de detenção administrativa sem acusação. Tentou apresentar queixa interna. Por essa tentativa, descreveu nova ronda de violência. Pediu, depois da entrevista, que o nome fosse retirado. A Shin Bet, agência de segurança interna israelita, tinha-o visitado entretanto.
Outros testemunhos foram recolhidos junto de uma mulher palestiniana detida nos dias seguintes ao ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023 e junto de um jornalista de Gaza. Em ambos os casos, os relatos descrevem violência sexual praticada com câmaras presentes, instrumentalização de animais e ameaças explícitas a familiares.
A pergunta óbvia é se estes testemunhos podem ter sido fabricados. Kristof aborda-a diretamente: as pessoas que entrevistou não o procuraram, não se conheciam entre si, e várias resistiram ao registo dos seus nomes. Save the Children, num inquérito a menores palestinianos entre os 12 e os 17 anos detidos em Israel, encontrou mais de metade a relatar terem testemunhado ou sofrido violência sexual. O Committee to Protect Journalists, em inquérito a 59 jornalistas palestinianos libertados, registou 3% de denúncias de violação e 29% de outras formas de violência sexual.
A resposta oficial
O governo israelita rejeita o quadro. O Serviço Prisional, citado por Kristof através de um porta-voz que não quis ser identificado, afirma que as alegações são examinadas pelas autoridades competentes. O mesmo porta-voz recusou-se a confirmar se algum guarda alguma vez foi despedido ou processado por agressão sexual.
O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu tem rejeitado publicamente o que descreve como acusações infundadas. O ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, declinou comentar, através de uma porta-voz.
O caso mais documentado — um prisioneiro de Gaza hospitalizado em julho de 2024 com fratura de costelas, punção pulmonar e lesão rectal — terminou em março de 2026 com o arquivamento da última acusação contra os nove reservistas inicialmente detidos. O exército israelita autorizou o seu regresso ao serviço ativo no mês seguinte.
A pergunta que falta fazer
Ehud Olmert foi primeiro-ministro de Israel entre 2006 e 2009. Confrontado por Kristof com os relatos, disse acreditar que aconteciam. Acrescentou que crimes de guerra são cometidos diariamente nos territórios ocupados.
A frase saiu da boca de quem chefiou o governo do país durante três anos.
Resta saber o que faz a comunidade internacional. E o que faz Portugal. Essa pergunta tem resposta — e merece artigo próprio.
Esta peça baseia-se na investigação publicada por Nicholas Kristof no The New York Times a 11 de maio de 2026, no relatório da ONU de 2024 sobre tortura sexualizada de palestinianos, no relatório do Euro-Med Human Rights Monitor de abril de 2026 e em documentação pública da B'Tselem, Save the Children e Committee to Protect Journalists.