Resumo
- Empresário, piloto e médico de formação, Mirpuri fundou a Air Luxor em 1988 e, depois da insolvência desta, a Hi Fly em 2006 — a companhia de aluguer de aviões com tripulação que chegou a operar o maior avião do mundo.
- reforçam a via privada, levam a ação das praias até ao fim e tentam consolidar a propriedade que o pai começou a defender.
- A delimitação do domínio público hídrico naquela zona — o ato administrativo que diria, de uma vez por todas, onde acaba o público e começa o privado — arrasta-se desde 1989.
Paulo Mirpuri morreu a 2 de maio. O ativo mais contestado do seu grupo — 600 hectares de Arrábida e cinco praias — fica agora nas mãos de quem ninguém conhece.
A morte de Paulo Mirpuri, a 2 de maio de 2026, entregou aos herdeiros o dossiê mais espinhoso do grupo familiar: a Herdade da Comenda, em plena Serra da Arrábida, onde se trava há anos uma guerra pelo acesso às praias.
Empresário, piloto e médico de formação, Mirpuri fundou a Air Luxor em 1988 e, depois da insolvência desta, a Hi Fly em 2006 — a companhia de aluguer de aviões com tripulação que chegou a operar o maior avião do mundo. Liderava um grupo com interesses na aviação, na agricultura, na floresta e no imobiliário, e dava cara à Fundação Mirpuri, dedicada a causas ambientais. Morreu num sábado. No domingo seguinte, a empresa anunciou a perda.
Um ativo que vale mais do que metros quadrados
Em 2019, a Seven Properties, sociedade ligada à família, comprou a Comenda por cerca de 16 milhões de euros. Seiscentos hectares, com parcelas descontínuas, todas dentro do Parque Natural da Arrábida. Um palácio classificado. Uma frente de água sobre o Sado. À data, o grupo garantiu à Câmara que nunca haveria exploração turística no território.
A garantia não chegou para acalmar ninguém. O que se seguiu foi o contrário do sossego prometido: vedações, embargos a obras no palácio, um processo de classificação arqueológica contestado, tribunais. A Comenda deixou de ser uma quinta para passar a ser um símbolo — do lado dos donos, de um direito de propriedade; do lado dos setubalenses, de uma linha vermelha.
O que a morte abre
A sucessão num grupo familiar não é uma formalidade. É um ponto de decisão. Enquanto Paulo Mirpuri esteve à frente do grupo, a estratégia para a Comenda tinha um rosto e uma assinatura. A partir de agora, tem uma incógnita.
Três caminhos ficam em aberto, e nenhum está traçado. O primeiro: os herdeiros recuam, abrem o território ao uso público e fecham um conflito que só dá má imprensa. O segundo: reforçam a via privada, levam a ação das praias até ao fim e tentam consolidar a propriedade que o pai começou a defender. O terceiro, o mais provável a curto prazo: o impasse continua, porque uma herança grande demora a arrumar e ninguém toma decisões de fundo no meio de um inventário.
Qual deles vinga depende de gente cujos nomes ainda não estão em cima da mesa. E é esse o ponto desconfortável: o acesso de milhares de pessoas a cinco praias está, na prática, dependente da estratégia interna de uma família em luto.
A delimitação que o Estado nunca fez
Há um ausente permanente nesta história, e não é a família. É o Estado. A delimitação do domínio público hídrico naquela zona — o ato administrativo que diria, de uma vez por todas, onde acaba o público e começa o privado — arrasta-se desde 1989. Trinta e sete anos.
Sem essa fronteira desenhada, cada mudança de proprietário reabre a ferida, e cada novo dono herda um terreno juridicamente cinzento que convida ao litígio. A indefinição do Estado é o que transforma uma sucessão privada num problema público. Se a linha estivesse traçada, a morte de Mirpuri seria uma notícia de economia. Por não estar, é uma notícia de cidadania.
O timing, sem teorias
Convém dizer o que é leitura e o que é facto. A ação judicial é de 2025, anterior à morte. A petição do Bloco e a ação de rua em Albarquel surgem em finais de maio de 2026, semanas depois do funeral. Ligar as duas coisas como manobra calculada seria especular. Ignorar que a pressão pública aterra exatamente no momento de maior fragilidade decisória do grupo seria ingénuo.
Os movimentos cívicos sabem ler calendários. Não é preciso atribuir-lhes más intenções para reconhecer que escolheram bem a janela.
O que falta saber
Quem assume agora a liderança do grupo Mirpuri. Que relação societária liga a Seven Properties à entidade que figura no processo das praias. Se os herdeiros mantêm, ou não, a ação 4833/25.7T8STB. E, do outro lado, se o Estado tenciona finalmente concluir uma delimitação que já viu nascer e morrer presidentes de câmara, governos e, agora, o próprio comprador da herdade.
Uma quinta secular muda de mãos. A pergunta de Setúbal continua a mesma desde 2021, à espera de resposta de gente nova: a praia é de quem lá vai, ou de quem tem o título mais antigo?
Fontes consultadas
- Correio da Manhã: BE denuncia alegada tentativa de privatização das praias de Setúbal
- Jornal de Negócios: Morreu Paulo Mirpuri, fundador da Hi Fly
- Lei n.º 54/2005, de 15 de novembro, artigo 15.º
- Agência Portuguesa do Ambiente: Domínio Hídrico
- APA: Guia de apoio sobre a titularidade dos recursos hídricos