Resumo
- Entre 7 de abril e 7 de maio, três organismos das Nações Unidas — a OCHA, a UNRWA e a UN Women — publicaram dados consolidados sobre as operações militares israelitas em Gaza e na Cisjordânia.
- A UN Women reportou em abril de 2026 que mais de 38 mil mulheres e raparigas foram mortas em Gaza entre outubro de 2023 e dezembro de 2025.
- A 9 de abril, no Vale do Jordão, cinco famílias beduínas — 35 pessoas, entre elas 26 crianças, cinco mulheres e um homem com deficiência — desmantelaram as próprias casas e mudaram-se para outra parte de Al ‘Auja.
Os dados da ONU sobre abril e início de maio de 2026 mostram um padrão constante: mortos, deslocações, escolas atingidas e violência de colonos em níveis sem precedentes. Mulheres e crianças são a maioria das vítimas civis.
A 29 de abril, uma criança palestiniana foi morta a tiro pelas forças israelitas durante uma operação de busca em Hebron. Era a 15.ª criança morta na Cisjordânia em 2026. Quatro meses de calendário, quinze crianças.
O número está num relatório de rotina da UNRWA, publicado a 7 de maio. Não fez manchete em quase nenhum jornal europeu.
O que dizem os relatórios de abril
Entre 7 de abril e 7 de maio, três organismos das Nações Unidas — a OCHA, a UNRWA e a UN Women — publicaram dados consolidados sobre as operações militares israelitas em Gaza e na Cisjordânia. O retrato que sai desses documentos é o de uma intensificação, não de uma desescalada.
Em Gaza, segundo os números do Ministério da Saúde de Gaza reportados pela OCHA, o total de mortos desde 7 de outubro de 2023 chegou a 72.599 a 29 de abril. A 22 de abril, eram 72.562. Sete dias, 37 mortos contabilizados — e a contabilidade está hoje admitidamente subestimada por colapso da capacidade hospitalar. A UNRWA registou 391 funcionários e apoiantes mortos desde o início da guerra.
A 25 de abril, ao meio-dia e quarenta, uma escola da UNRWA em Jabalia foi atingida por várias balas disparadas pelas forças israelitas a operar na zona. Não houve vítimas. Quatro dias depois, outra escola da UNRWA na mesma localidade foi atingida — desta vez com dois deslocados feridos no interior. Os relatórios usam o mesmo verbo: “atingida”. O contexto repete-se.
Cisjordânia: o ano mais violento desde 2013
Na Cisjordânia, os dados da OCHA contam outra história, mas paralela. Entre 7 de outubro de 2023 e 23 de abril de 2026, foram mortos 1.088 palestinianos no território ocupado e em Jerusalém Oriental. Pelo menos 238 eram crianças. Quarenta e dois desses mortos ocorreram apenas nos primeiros quatro meses de 2026.
A escalada concentra-se na violência de colonos. Em março, a OCHA documentou cerca de 170 palestinianos feridos por colonos num único mês — o número mais alto desde que a documentação sistemática começou, em 2006. Em 2026, oito palestinianos já foram mortos por colonos: a contagem do ano cruzou em quatro meses o total de qualquer ano completo desde 2023.
A 11 de abril, em Deir Jarir, junto a Ramallah, colonos vestidos com fardamento militar mataram um palestiniano a tiro. A sobreposição visual entre civil armado e soldado é, para os investigadores da OCHA, um padrão recorrente. Numa quinta-feira, 17 de abril, em Halhul, dezenas de colonos atacaram agricultores palestinianos na sua própria terra. Quando as forças israelitas chegaram, declararam o local zona militar fechada e detiveram cerca de 120 palestinianos. Os colonos não foram detidos.
As mulheres e as crianças
A UN Women reportou em abril de 2026 que mais de 38 mil mulheres e raparigas foram mortas em Gaza entre outubro de 2023 e dezembro de 2025: pelo menos 22 mil mulheres e 16 mil raparigas. A média indicada pela agência é de pelo menos 47 mulheres e raparigas mortas por dia.
A UNRWA, por seu lado, prestou desde o início da guerra serviços a 4.265 sobreviventes de violência baseada no género e 7.340 crianças, das quais 3.215 desacompanhadas. Nos relatórios mais recentes, a agência sinaliza um aumento triplicado de casos de escabiose entre janeiro e março, com focos na zona de Mawasi e Khan Younis. Metade dos locais de deslocados em Gaza estão afectados por doenças de pele. Em 80%, há roedores.
A 9 de abril, no Vale do Jordão, cinco famílias beduínas — 35 pessoas, entre elas 26 crianças, cinco mulheres e um homem com deficiência — desmantelaram as próprias casas e mudaram-se para outra parte de Al ‘Auja. Os colonos do posto avançado vizinho tinham começado a entrar nas habitações, a intimidar mulheres, a apascentar gado em terra privada. Levaram alguns pertences durante a mudança.
O bloco humanitário e os números que faltam
Desde março de 2025, as autoridades israelitas impedem a UNRWA de levar pessoal e ajuda directamente à Faixa de Gaza. A agência tem comida, farinha e abrigos para centenas de milhares de pessoas pré-posicionados fora do território. Não consegue entrá-los.
A pergunta óbvia é se Israel cumpre as suas obrigações de potência ocupante. A Human Rights Watch documentou desde fevereiro de 2024 que o número médio diário de camiões com ajuda a entrar em Gaza caiu para um terço do que era antes da escalada. Israel responde que o problema é logístico, não político. A agência israelita Gisha, do lado oposto, contesta essa explicação com dados próprios.
O Governo israelita enquadra estas operações como autodefesa legítima após o ataque do Hamas a 7 de outubro de 2023, no qual cerca de 1.200 pessoas foram mortas e 240 feitas reféns. Mantém que o Hamas usa civis como escudos humanos, infiltra escolas, hospitais e instalações da UNRWA. O presidente Isaac Herzog e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu rejeitam categoricamente a tese de intenção genocida.
Os dados não decidem por si essa controvérsia jurídica — que está em mãos da Comissão Independente de Inquérito da ONU, do Tribunal Internacional de Justiça e do Tribunal Penal Internacional. Mas estabelecem o terreno sobre o qual essa decisão será tomada.
A 3 de maio, em Nablus, uma operação israelita de larga escala fez um morto e quatro feridos por fogo real. Várias dezenas de casos de inalação de gás lacrimogéneo. A UNRWA classificou-o como “incidente significativo”. Naquela semana, em Lisboa, não houve declaração oficial portuguesa sobre o assunto.
Sem contraditório formal documentado à data de publicação. A SociedadeCivil.pt actualizará esta peça se receber resposta formal da Embaixada de Israel ou de outras entidades citadas.