Resumo
- É uma porta diferente daquela que o Supremo Tribunal dos EUA fechou em Fevereiro, ao declarar parcialmente ilegal o uso da IEEPA — a lei de emergência económica em que Trump tinha assentado a maioria das tarifas do primeiro semestre.
- Para Portugal, isto significa que o vinho, a cortiça, o calçado, o têxtil, as conservas e os medicamentos — os principais produtos exportados para o mercado americano — continuam, por agora, no mesmo patamar tarifário em que estavam.
- A pressão sobre o vinho do Douro, sobre as rolhas do Alentejo, sobre os ténis de São João da Madeira ou sobre as malhas de Guimarães vem sendo aplicada há mais de um ano, e mantém-se.
Os 25% anunciados na sexta-feira atingem apenas automóveis e camiões. Vinho, cortiça, têxtil e calçado continuam sob a tarifa de 15%. A diferença é mais do que técnica.
Os números andaram aos saltos no fim-de-semana. "Tarifas de 25% à Europa", leu-se em vários títulos. O que Donald Trump escreveu na sexta-feira à tarde no Truth Social, contudo, é mais estreito — e mais cirúrgico — do que a leitura imediata sugere.
O presidente norte-americano anunciou o agravamento das tarifas sobre automóveis e camiões importados da União Europeia, que passarão de 15% para 25% "na próxima semana". A justificação, escrita em maiúsculas pontuadas pelo costume, é a de que a UE "não está a cumprir" o acordo comercial fechado em Turnberry, na Escócia, em Julho de 2025. Não foi apresentada qualquer prova desse incumprimento. A Comissão Europeia rejeitou a alegação no mesmo dia.
A base legal invocada é a Section 232 do Trade Expansion Act de 1962, que permite ao executivo americano impor direitos aduaneiros por motivos de segurança nacional. É uma porta diferente daquela que o Supremo Tribunal dos EUA fechou em Fevereiro, ao declarar parcialmente ilegal o uso da IEEPA — a lei de emergência económica em que Trump tinha assentado a maioria das tarifas do primeiro semestre.
A distinção interessa, e muito, a quem produz em Portugal.
A tarifa horizontal sobre as exportações da UE para os EUA mantém-se em 15%, com um tecto de 10% imposto pelo Supremo enquanto a IEEPA estiver em causa. Os 25% de sexta-feira aplicam-se exclusivamente ao setor automóvel — o alvo confesso é a indústria alemã. Mercedes, BMW e Volkswagen importam para os EUA uma fatia significativa dos veículos que aí vendem, e foi com Friedrich Merz que Trump trocou farpas na quinta-feira, antes do anúncio. Espanha e Itália foram, na mesma ocasião, classificadas pelo presidente como "absolutamente horríveis" pela recusa em apoiar a campanha americana contra o Irão. O contexto é geopolítico antes de ser comercial.
Para Portugal, isto significa que o vinho, a cortiça, o calçado, o têxtil, as conservas e os medicamentos — os principais produtos exportados para o mercado americano — continuam, por agora, no mesmo patamar tarifário em que estavam. Patamar esse que já tinha provocado, em 2025, uma quebra de cerca de 20% nas exportações de vinho português para os EUA, segundo dados da ViniPortugal. Não é, portanto, uma boa notícia. É a continuação da má notícia anterior, sem agravamento adicional para estes setores.
A exposição direta de Portugal à nova tarifa de 25% é, em valor absoluto, marginal — o país não exporta automóveis acabados em volume relevante para o mercado norte-americano. Mas há uma exposição indirecta que merece atenção e que ainda ninguém quantificou em público: os componentes automóveis fabricados em Portugal, sobretudo no Norte, vendem 88,5% para a Europa, com a Alemanha como principal cliente. Se a indústria alemã sofre, o cluster português sente — pela cadeia ascendente, com atraso de três a seis meses, e sem manchete.
Há também o que o anúncio diz por baixo da letra. Scott Lincicome, do Cato Institute, resumiu-o sem rodeios: estes acordos comerciais com Trump são "vapourware", construídos em apertos de mão e na esperança de que o presidente não se zangue com qualquer coisa. Em Bruxelas, a fórmula "a deal is a deal" começa a soar a mantra de quem não tem alternativa imediata.
Para o leitor que tenha lido na sexta-feira que "Trump aumentou as tarifas à Europa para 25%" e tenha ficado com a ideia de que tudo, e em todos os setores, ficou mais caro, fica a precisão: ainda não. A pressão sobre o vinho do Douro, sobre as rolhas do Alentejo, sobre os ténis de São João da Madeira ou sobre as malhas de Guimarães vem sendo aplicada há mais de um ano, e mantém-se. O que é novo é o sinal — Trump está disposto a partir o acordo de Turnberry quando lhe convier — e o alvo: por agora, foram os alemães.
A pergunta seguinte não é se Portugal está exposto. É como, e por onde.