Resumo
- Quando Donald Trump tomou posse a 20 de Janeiro de 2025, as exportações portuguesas para os Estados Unidos valiam cerca de 9,4 mil milhões de euros e respondiam por 6,8% das exportações totais de bens.
- Quinze meses depois, com a tarifa horizontal de 15% em vigor desde o acordo de Turnberry e o setor automóvel agora apontado pelos 25%, o panorama setorial é tudo menos uniforme.
- A ViniPortugal projecta que o consumidor americano possa vir a pagar até mais 30% pela mesma garrafa, se a tarifa de 15% se mantiver e os importadores deixarem de absorver o choque.
Os números setoriais de 2025 contam uma história mais matizada do que o discurso geral sugere. Há setores em queda livre, há setores em resistência, e há um efeito-dominó que ainda agora começa.
Quando Donald Trump tomou posse a 20 de Janeiro de 2025, as exportações portuguesas para os Estados Unidos valiam cerca de 9,4 mil milhões de euros e respondiam por 6,8% das exportações totais de bens. Os EUA eram, e continuam a ser, o quarto maior cliente da economia portuguesa, atrás de Espanha, França e Alemanha. Quinze meses depois, com a tarifa horizontal de 15% em vigor desde o acordo de Turnberry e o setor automóvel agora apontado pelos 25%, o panorama setorial é tudo menos uniforme.
Há quem esteja a sangrar. Há quem esteja a aguentar. E há quem, surpreendentemente, esteja a ganhar terreno.
Vinho: o setor que mais sofreu
Os números são duros. Até Novembro de 2025, as exportações de vinho português para os EUA caíram 20% face ao período homólogo, segundo a ViniPortugal. O mercado americano valia 102 milhões de euros em 2024 e era o segundo maior destino do vinho nacional, atrás de França. Nos primeiros nove meses de 2025, a perda acumulada chegou aos 9,3 milhões de euros — só na conta directa.
Frederico Falcão, presidente da ViniPortugal, descreveu o efeito como "atípico" e atribuiu-o, mais do que à tarifa em si, à imprevisibilidade que a antecedeu. Entre Janeiro e Julho, a queda em valor (8,6%) foi quase três vezes superior à queda em volume (2,9%) — o que significa, em linguagem clara, que os produtores estão a comprimir margens para não perder presença nas prateleiras. Estão a vender quase a mesma quantidade, a perder dinheiro em cada garrafa.
Paulo Amorim, presidente da ANCEVE, foi mais cru: o acordo de Turnberry foi "péssimo" e a Europa cometeu um "erro estratégico" ao não retaliar. A vindima de 2025, na sua leitura, será "ainda pior do que a de 2024 em termos de dramatismo".
A geografia agrava. Chile, Argentina e Austrália — concorrentes diretos no segmento de gama baixa, que é onde Portugal vende mais nos EUA — enfrentam tarifas de 10%. Cinco pontos percentuais a menos, num mercado onde a sensibilidade ao preço é máxima. A ViniPortugal projecta que o consumidor americano possa vir a pagar até mais 30% pela mesma garrafa, se a tarifa de 15% se mantiver e os importadores deixarem de absorver o choque.
Cortiça: o efeito-dominó que ainda agora começa
A cortiça portuguesa é uma história de sucesso silencioso: 1.232 milhões de euros em exportações em 2023, recorde absoluto, e os EUA a ultrapassarem pela primeira vez a barreira dos 200 milhões — 214 milhões, mais precisamente — consolidando-se como segundo maior cliente, atrás da França. As rolhas representam o grosso do valor.
O problema da cortiça é estrutural e indirecto. Não é tarifada da mesma forma que o vinho, mas vive do vinho. Cada garrafa europeia que deixa de ser vendida nos EUA é uma rolha portuguesa que deixa de ser comprada. A APCOR, presidida por João Rui Ferreira, mantém o discurso oficial de optimismo — "credenciais técnicas e ambientais", "liderança mundial" —, mas a aritmética do efeito-dominó é simples: se as exportações de vinho da UE para os EUA caem 20%, a procura de rolhas cai com elas, com seis a doze meses de atraso. O ano de 2026 dirá quanto.
Calçado: resistência relativa, mas com instabilidade
O calçado português fechou 2025 em alta marginal: 1.718 milhões de euros em exportações, mais 0,8% em valor, mais 1,8% em volume. A APICCAPS atribuiu o resultado ao "esforço para mitigar os efeitos da instabilidade verificada no mercado norte-americano" e ao crescimento de 3,3% nos mercados europeus.
A leitura interessante é a comparativa. Enquanto Portugal subia 0,8%, a Itália caía 1%, Espanha 3%, Turquia 13%, China 11%, Brasil 2%. Isto é, o setor português está a perder menos que os concorrentes. A Associação reconhece que, "se o desempenho [nos EUA] tivesse correspondido" às expectativas, o crescimento global teria sido maior. Mas o caso é, em termos relativos, de resiliência.
A vulnerabilidade do calçado é geográfica. As empresas estão concentradas no Norte — Felgueiras, Guimarães, São João da Madeira, Santa Maria da Feira — e dependem fortemente da capacidade de exportar. Marcas como Lemon Jelly, Toworkfor ou MLV têm respondido com diversificação para a Ásia e para o Médio Oriente, e com a aposta em segmentos de maior valor acrescentado.
Têxtil: praticamente imune
O setor têxtil é o caso mais surpreendente. Até Junho de 2025, as exportações totais caíram apenas 0,1% em termos homólogos — uma derrapagem inferior a 4,2 milhões de euros num universo de 3,3 mil milhões. O peso do mercado americano no têxtil nacional é de apenas 13%, o que limita a exposição direta.
Ricardo Silva, novo presidente da ATP e CEO da Tintex, sublinhou que a queda actual está "a níveis inferiores a 1%", e que a concorrência está muito mais castigada: as exportações chinesas no segmento baixo caíram 25%, as italianas no premium caíram igualmente cerca de 25%. Portugal está a manter posição relativa precisamente porque, ao longo dos últimos anos, abandonou o segmento mais baixo — onde a concorrência asiática é esmagadora — e migrou para o valor acrescentado.
Conservas e agroalimentar: dados opacos, exposição moderada
O setor das conservas é menos transparente em dados públicos. Está integrado no agroalimentar, que valeu mais de cinco mil milhões de euros em exportações para os EUA em 2023 — sobretudo carne, peixe e bebidas alcoólicas. As conservas têm um peso menor e uma exposição mais moderada, embora as marcas premium (Briosa, La Gondola, Pinhais) tenham apostado nos EUA como mercado de crescimento. Aqui faltam números actualizados — matéria para apuramento futuro.
O que estes números dizem em conjunto
Olhando para o quadro completo, não há uma "exportação portuguesa para os EUA". Há cinco ou seis realidades muito diferentes, cada uma com a sua margem, a sua geografia, a sua sensibilidade ao preço e o seu modo de absorver o choque tarifário.
O vinho está a sangrar. A cortiça vai sentir o golpe com atraso. O calçado aguenta-se melhor que os concorrentes. O têxtil quase não sente. As conservas estão num limbo de dados.
A questão política seguinte — porque há uma — é a de saber até que ponto as medidas do programa Reforçar, os 10 mil milhões de euros aprovados pelo Governo em Abril de 2025, estão efetivamente a chegar a quem mais precisa. A própria ViniPortugal queixou-se do "excesso de burocracia". Em Bruxelas, "a deal is a deal" mantém-se como posição oficial. Em Washington, na sexta-feira, o presidente americano lembrou que pode quebrar o acordo quando quiser.
E em Portugal, no Norte sobretudo, há produtores a fazer contas que a manchete geral não conta.