A democracia portuguesa depois do choque Ventura - Sociedade Civil
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Resumo

  • Portugal elegeu em Fevereiro de 2026 o Presidente com maior número absoluto de votos de sempre — António José Seguro, apoiado pelo PS, com 66,83% e cerca de 3,5 milhões de votos na segunda volta — mas fê-lo derrotando um candidato da direita radical que somou 1,73 milhões de votos, mais do que o Chega alguma vez conquistou em legislativas.
  • A AD (PSD/CDS) venceu com 32,10% e 91 deputados, o PS colapsou para 23,38% e 58 deputados — pior resultado desde 1987 — e o Chega obteve 22,76% e 60 deputados, tornando-se pela primeira vez a segunda força política com mais mandatos, apesar de o PS ter 4.
  • A IL manteve-se com 9 deputados, o Livre subiu a 6, a CDU caiu a 3, o Bloco de Esquerda foi dizimado a 1 e o JPP estreou-se com 1 deputado pela Madeira.

Observação preliminar: a sua mensagem chegou sem conteúdo textual, pelo que assumi, pelo contexto noticioso dominante de Abril de 2026, que pretenderia um balanço rigoroso do estado da democracia portuguesa à luz das presidenciais de 18 de Janeiro e 8 de Fevereiro de 2026. Se a sua questão era outra, basta reenviá-la.


Portugal elegeu em Fevereiro de 2026 o Presidente com maior número absoluto de votos de sempre — António José Seguro, apoiado pelo PS, com 66,83% e cerca de 3,5 milhões de votos na segunda volta — mas fê-lo derrotando um candidato da direita radical que somou 1,73 milhões de votos, mais do que o Chega alguma vez conquistou em legislativas. A leitura imediata é ambivalente: a democracia portuguesa funcionou, mobilizou-se e isolou André Ventura, mas simultaneamente normalizou uma segunda volta sem PSD, replicando o cenário de 1986 com os papéis ideológicos invertidos. O que antes era apresentado como “excepção portuguesa” à onda populista europeia tornou-se um caso clássico de reconfiguração do sistema partidário, com um PS historicamente fragilizado, um PSD entalado e um Chega que em seis anos passou de um deputado a principal partido da oposição. Este relatório reconstrói o que mudou, o que resistiu e o que está em causa.

O resultado que redefine o mapa político

A primeira volta de 18 de Janeiro teve 11 candidatos — número recorde — e terminou com Seguro em 31,11% e Ventura em 23,52%, seguidos por João Cotrim Figueiredo (IL), Henrique Gouveia e Melo e Luís Marques Mendes (PSD). A exclusão do candidato apoiado oficialmente pelo PSD foi o acontecimento sísmico: pela primeira vez em 40 anos, a segunda volta opôs um socialista a um candidato da direita radical, sem o centro-direita tradicional. A segunda volta de 8 de Fevereiro, condicionada pelo mau tempo (várias freguesias adiaram a votação para 15 de Fevereiro), deu a Seguro 66,83% contra 33,17% de Ventura. O líder do Chega venceu apenas em dois concelhos (Elvas e São Vicente, na Madeira) e em 137 freguesias, mas ganhou nos consulados com 50,85%, uma vitória simbólica no eleitorado emigrante.

O padrão histórico do voto de Ventura é o dado mais importante para compreender o momento. Em cada acto eleitoral consecutivo, a sua base expandiu-se sem excepção: 1,3% em 2019, 11,9% nas presidenciais de 2021, 7,2% nas legislativas de 2022, 18,1% em 2024, 22,8% em 2025 e 33,2% em 2026. Cada tecto revelou-se um patamar. Esta trajectória não tem paralelo na democracia portuguesa e aproxima o Chega das curvas do Vox espanhol, do Rassemblement National francês ou dos Fratelli d’Italia — embora, como sublinha o historiador Riccardo Marchi (ISCTE), o Chega se distinga por não ter “uma base ideológica tão grande” nem raízes profundas no radicalismo histórico português, operando antes como partido “flexível” vocacionado para agregar o descontentamento difuso.

O novo equilíbrio parlamentar e governativo

As legislativas antecipadas de 18 de Maio de 2025, provocadas pela queda do primeiro Governo Montenegro sobre o caso Spinumviva, produziram o quadro parlamentar que Seguro herda. A AD (PSD/CDS) venceu com 32,10% e 91 deputados, o PS colapsou para 23,38% e 58 deputados — pior resultado desde 1987 — e o Chega obteve 22,76% e 60 deputados, tornando-se pela primeira vez a segunda força política com mais mandatos, apesar de o PS ter 4.000 votos a mais. A IL manteve-se com 9 deputados, o Livre subiu a 6, a CDU caiu a 3, o Bloco de Esquerda foi dizimado a 1 e o JPP estreou-se com 1 deputado pela Madeira. Do XXV Governo Constitucional, minoritário, nasceu a legislatura actual, marcada pela dependência táctica do Executivo face aos votos do Chega ou da IL.

EleiçãoAD/PSDPSChegaOutros relevantes
Legislativas 201927,8% (79 dep.)36,3% (108)1,3% (1)BE 19, CDU 12
Legislativas 202227,8% (77)41,4% (120, maioria)7,2% (12)IL 8
Legislativas 202428,8% (80)28,0% (78)18,1% (50)IL 8, Livre 4
Legislativas 202532,1% (91)23,4% (58)22,8% (60)IL 9, Livre 6
Presidenciais 2026 (1.ª volta)31,1% (Seguro)23,5% (Ventura)Cotrim 3.º, Gouveia e Melo 4.º

A fotografia revela um eleitorado tripartidário, em que nenhum dos três grandes consegue sozinho maioria absoluta e em que as transferências de voto, historicamente bloqueadas pelo “cordão sanitário”, passaram a ser bidireccionais. Marchi documenta pela primeira vez em 2025 uma transferência significativa do PS e da CDU para o Chega, particularmente no Alentejo, que rompe a tese de que o voto de Ventura só vinha da abstenção e do centro-direita desiludido.

A batalha judicial sobre os limites do discurso

A campanha presidencial de 2026 teve como episódio mais denso a condenação judicial de Ventura por cartazes com a mensagem “os ciganos têm de cumprir a lei”. O Tribunal Local Cível de Lisboa ordenou em Dezembro de 2025 a retirada dos cartazes em 24 horas, com multa de 2.500 euros diários por cada cartaz mantido, proibindo Ventura de “determinar ou promover, directa ou indirectamente, a afixação de cartazes de teor idêntico”. A juíza Ana Barão considerou a frase “discriminatória”, notando que Ventura admitiu em tribunal saber “que existem ciganos que cumprem a lei, mas reiterar a sua convicção de que nenhum o faz”. A Relação de Lisboa confirmou a sentença em Março de 2026 e Ventura prometeu recurso ao Tribunal Constitucional.

É a terceira condenação judicial significativa do líder do Chega por declarações públicas, num padrão reconhecível: 438 euros de multa da CICDR em 2020 por discriminação de ciganos no Facebook; condenação transitada em julgado no caso do Bairro da Jamaica em 2021 por chamar “bandidos” a uma família retratada com Marcelo Rebelo de Sousa, com o Supremo a confirmar “vertente discriminatória em função da cor da pele e da situação socioeconómica”; e mais 3.370 euros de multa CICDR em 2023. A jurisprudência portuguesa fixou assim uma linha clara: a liberdade de expressão de figuras políticas é ampla, mas cede perante a dignidade humana e a proibição de discriminação racial, invocando a Convenção Europeia dos Direitos Humanos.

Indicadores democráticos contraditórios

Os índices internacionais continuam a classificar Portugal como democracia plena e funcional, com tendência de melhoria no último ciclo. A Economist Intelligence Unit devolveu Portugal, no Democracy Index 2024, ao estatuto de “democracia plena” (23.ª posição mundial, 8,08 pontos), depois de quatro anos como “democracia com falhas”. A Freedom House mantém Portugal na categoria Free, destacando “regulares transferências de poder entre partidos rivais” e “protecção geral das liberdades civis”, embora sinalize preocupações persistentes com “corrupção, certas restrições legais ao jornalismo, condições prisionais, e os efeitos da discriminação racial e xenofobia”. O Eurobarómetro de Outono de 2025 coloca Portugal no topo da UE em confiança nas instituições europeias (71%) e em satisfação com o funcionamento da democracia (66% face à média europeia de 54%), com 49% de confiança no Governo nacional contra os 33% da média UE-27.

Mas olhando para dentro, os sinais são menos tranquilizadores. A Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância (CECRI) publicou em Junho de 2025 um relatório declarando-se “profundamente preocupada com os casos de violência racista, motivada pelo ódio, em Portugal”, destacando “investigações selectivas” por parte das polícias, “baixa taxa de sanções por crimes racistas” e o “aumento acentuado do discurso de ódio” incluindo por partidos como o Chega. O RASI 2025 regista 449 crimes de ódio, um aumento de 6,7% face a 2024 e 2.236% face a 2015 — de 19 para 449 ocorrências numa década, com um terço concentrado na Área Metropolitana de Lisboa. Num dado particularmente preocupante, o relatório assinala “o aumento da presença de utilizadores portugueses, sobretudo menores e jovens adultos, em grupos online de matriz aceleracionista e neonazi”.

A Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial (CICDR), que deveria ser o braço administrativo-sancionatório do Estado nesta matéria, está paralisada: desde a sua transferência para a tutela da Assembleia da República em 2024, não foi regulamentada, pelo que a presidente Isabel Almeida Rodrigues não pode contratar pessoal nem instruir processos, apesar de uma dotação orçamental de 780 mil euros. Entre a tomada de posse em Dezembro de 2024 e Outubro de 2025, as cerca de 30 queixas acumuladas ficaram sem tramitação, num paradoxo institucional que a presidente classifica como “muito frustrante”.

A questão da excepção portuguesa revisitada

A tese académica dominante até 2019 — defendida por investigadores como Marchi e pelo círculo do ICS — era a da “excepção portuguesa”: a democracia lusa seria resistente à vaga populista europeia devido à memória recente do Estado Novo, à estrutura bipartidária PS/PSD e ao facto de o PSD ocupar um espaço ideologicamente amplo que absorvia eleitores nacional-conservadores. Essa tese caiu. A pergunta hoje, que atravessa a literatura mais recente (Marchi 2024, João Carvalho 2024 na Routledge, Zúquete & Marchi 2023) é como classificar o Chega e qual o seu potencial de governo.

Duas leituras competem. Marchi argumenta que o Chega é “nova direita radical populista” e não “extrema-direita” no sentido histórico: “mais de 70% dos eleitores destes partidos não são anti-democráticos” e o partido “aceita as regras do jogo democrático”. O seu percurso biográfico reforça esta tese — Ventura cresceu no PSD, não passou pelo movimento skinhead, pelos bloqueios nacionalistas nem pelo identitarismo dos anos 2000. João Carvalho (CIES-IUL) e subscritores do manifesto crítico a Marchi no Público discordam: a “xenofobia cultural” do Chega, propostas como a eliminação do cargo de primeiro-ministro, a redução do parlamento de 230 para 100 deputados, a castração química, a perpétua e o trabalho forçado para reclusos, e o padrão reiterado de ataques a ciganos, negros e imigrantes configuram, na sua leitura, extrema-direita com verniz constitucional.

Os factos judiciais dos últimos cinco anos — três condenações por discriminação, decisões de tribunais superiores a afirmar explicitamente o “carácter discriminatório” do discurso — inclinam o fiel para a segunda leitura, pelo menos quanto a práticas. A arquitectura institucional portuguesa tem resistido: os tribunais condenam, a CNE fiscaliza, o Presidente da República manteve posições exigentes, e o sistema eleitoral proporcional com método de Hondt tem produzido governos minoritários que forçam negociação em vez de rupturas. Mas o Chega está no grupo Patriots for Europe no Parlamento Europeu, liderado por Jordan Bardella e integrando o Fidesz de Orbán, a AfD parcialmente, a Lega e o Rassemblement National — a mesma família política que, em Budapeste e outrora em Varsóvia, produziu os casos mais graves de backsliding democrático que levaram à activação do Artigo 7.º do TUE.

O que está em jogo na legislatura

O risco central para a democracia portuguesa nos próximos quatro anos não é um colapso abrupto — o sistema tem camadas de resiliência robustas — mas erosão lenta por três vias simultâneas. Primeiro, a normalização discursiva: o que em 2019 era considerado inaceitável (insultos xenófobos, criminalização étnica) está hoje presente no debate parlamentar, e cada condenação judicial é enquadrada por Ventura como “perseguição política” e combustível mediático. Segundo, a fragilidade institucional: a CICDR sem regulamentação, a baixa taxa de acusações em crimes de ódio (14 acusações em 792 inquéritos entre 2020-2023, segundo a PGR), a formação insuficiente de polícias reportada pela CECRI, constituem pontos de falha que uma maioria hostil poderia aprofundar. Terceiro, a política europeia: o alinhamento do Chega com o eixo Orbán-Le Pen-Meloni significa que, se o partido entrar no Governo, Portugal poderá deslocar-se do núcleo europeísta — precisamente quando o Eurobarómetro mostra que os portugueses têm os níveis mais altos de confiança na UE de todos os 27.

Seguro chega a Belém com um capital simbólico inédito — três milhões e meio de votos, invocando o precedente Soares-Freitas de 1986 — mas com um parlamento hostil e um PS em reconstrução sob nova liderança após a demissão de Pedro Nuno Santos. Montenegro, ao recusar candidato próprio e apoiar Marques Mendes numa estratégia que falhou, entregou a oposição informal a Ventura e deixou o PSD “entalado entre um Presidente socialista e um Chega mais forte do que nunca”, na leitura publicada no Observador. O silêncio de Pedro Passos Coelho durante a campanha — e a persistente percepção de que é “a única figura verdadeiramente unificadora à direita” — paira sobre a legislatura como variável não resolvida.

Conclusão

A democracia portuguesa não se partiu, mas mudou de natureza. Deixou de ser bipartidária, deixou de ser a excepção ao populismo europeu e deixou de poder contar com um “cordão sanitário” natural à direita radical. As salvaguardas institucionais — tribunais, Presidência, proporcionalidade eleitoral, adesão europeia — seguram o edifício e produziram em 2026 uma vitória inequívoca do campo democrático-constitucional. Mas os indicadores de médio prazo são divergentes: os índices internacionais melhoram enquanto os dados internos sobre crimes de ódio, discriminação e radicalização juvenil online agravam-se. O próximo teste real não será uma eleição, mas a capacidade do Estado de regulamentar a CICDR, processar crimes de ódio com taxas de acusação próximas dos padrões europeus, e responder institucionalmente ao discurso discriminatório antes de este se converter em norma. A lição das últimas décadas em Budapeste é que as democracias não caem por golpe, caem por atrofia lenta das instituições que as distinguem de regimes autoritários. Portugal ainda não está nesse caminho. Está na bifurcação.

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