Resumo
- Na semana em que se assinalaram os 50 anos da Constituição, André Ventura escolheu um palco carregado de simbolismo — a sessão solene em São Bento — para lançar a frase que sabia que ia circular.
- No pós-25 de Abril houve abusos e há documentação sobre isso — incluindo o relatório conhecido como “Relatório das Sevícias”, produzido por uma comissão de averiguação nomeada em 1976 e com relatório datado de julho desse ano.
- A RTP, num conteúdo pedagógico sobre o tema, refere que passaram pelas prisões portuguesas, por razões políticas, mais de 30 mil pessoas durante a ditadura e o Estado Novo.
Na semana em que se assinalaram os 50 anos da Constituição, André Ventura escolheu um palco carregado de simbolismo — a sessão solene em São Bento — para lançar a frase que sabia que ia circular: “pouco tempo depois do 25 de Abril havia mais presos políticos do que antes do 25 de Abril”. O efeito foi imediato: protestos no hemiciclo, manchetes, clipes e um novo terreno de combate.
José Pacheco Pereira respondeu como quem reconhece a armadilha e, ainda assim, decide entrar: desafiou-o para um debate “baseado em factos e documentos”, com regras explícitas e obrigação de fundamentar cada afirmação. A questão, para lá do duelo, é esta: o formato televisivo consegue servir a verdade histórica quando um dos intervenientes vive de distorcer escala, contexto e linguagem?
O estúdio não é um arquivo — e isso interessa ao populismo
A televisão tende a premiar três coisas: velocidade, choque e emoção. Um arquivo premia o oposto: método, tempo e paciência. Ventura sabe onde está a jogar. Não precisa de “provar” no sentido académico; precisa de deixar uma marca que pareça plausível a quem vê metade do segmento enquanto faz zapping.
O mecanismo é conhecido: compressão temporal (“pouco tempo”), troca de escalas (metrópole/colónias), e uma palavra-míssil — “presos políticos” — que encolhe e cresce conforme o minuto. A história vira arena. E, na arena, o objectivo não é clarificar: é confundir o suficiente para que a equivalência pareça razoável.
Daquela manobra, resulta uma coisa perigosa: a ideia de que a democracia nasceu tão suja quanto a ditadura foi. Não é um erro inocente. É uma estratégia.
Antifascismo é recusar a falsa equivalência
Poderiam argumentar que “tortura é tortura” e que, portanto, qualquer distinção é conversa de elite para desculpar a violência “do seu lado”. A resposta tem de ser frontal: tortura é sempre um crime. Mas nem toda a violência tem o mesmo estatuto político e institucional.
No pós-25 de Abril houve abusos e há documentação sobre isso — incluindo o relatório conhecido como “Relatório das Sevícias”, produzido por uma comissão de averiguação nomeada em 1976 e com relatório datado de julho desse ano. Esse detalhe importa: a existência de escrutínio e registo institucional num processo de transição diz-nos algo sobre o tipo de regime que se procurava construir.
Já o Estado Novo não foi uma sucessão de “excessos”. Foi um sistema. Um país sem liberdade de imprensa, sem partidos legais, com polícia política e com prisão política como ferramenta de governo. A RTP, num conteúdo pedagógico sobre o tema, refere que passaram pelas prisões portuguesas, por razões políticas, mais de 30 mil pessoas durante a ditadura e o Estado Novo.
A frase curta que ajuda a separar as águas: numa ditadura, o abuso é norma; numa democracia, o abuso é uma falha que pode ser denunciada.
A descolonização: o atalho emocional que alimenta o autoritarismo
Há ainda um segundo motor no espetáculo: a descolonização. A extrema-direita usa-a como cola narrativa para juntar retornados, antigos combatentes, guerra colonial, “abandono” e imigração actual num único enredo de “traição nacional”. É eficaz porque mexe com medo e luto. Mas é também uma fraude política: converte um processo histórico global (o fim dos impérios europeus) numa história simples de culpados internos.
A perspectiva anti-colonialista não exige desprezo por quem sofreu. Exige rigor: o império não era uma extensão inocente do país; era um sistema de dominação, com hierarquias raciais, violência e negação de autodeterminação. Quando o debate televisivo transforma isto num concurso de indignações, a história colonial vira apenas combustível identitário — e os povos colonizados desaparecem da narrativa, como se fossem ruído.
E isso é um traço clássico do pensamento autoritário: fala-se da “pátria”, apaga-se a humanidade do outro.
Então, deve haver debate? Sim — mas não assim
A concessão honesta: silenciar Ventura não resolve nada. O problema é fingir que um frente-a-frente em prime time é o habitat natural da verificação histórica. Não é. Se a regra for “quem interrompe melhor” ou “quem choca mais”, a mentira tem vantagem competitiva.
Se o jornalismo quer servir a democracia, tem de alterar a engenharia do formato. Menos ringue, mais verificação:
— compromisso prévio com fontes documentais exibidas em ecrã;
— definição explícita de termos (“preso político” não é um saco sem fundo);
— cronologia com escala (48 anos não se comparam a meses por mera vontade retórica);
— e, acima de tudo, a recusa de tratar como simétrico o que não é simétrico.
Porque, no fim, a pergunta não é “quem ganhou o debate”. É outra, mais incômoda: quem ganha quando o país desaprende a distinguir ditadura de democracia?