Ciclovias de Lisboa: 88 km anunciados, 13,9 km construídos no mandato - Sociedade Civil
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Resumo

  • A diferença entre o reivindicado e o documentado é de 74,1 km.
  • O número de 88 km inclui infraestrutura herdada do mandato anterior, vias temporárias não convertidas em permanentes e quilómetros de projetos aprovados mas ainda não executados.
  • A investigação do 24Horas, publicada em março de 2026, revelou que os 8 km anunciados para 2026 correspondem integralmente a obras aprovadas no mandato de Medina.

Em 2025, o Instagram de Carlos Moedas publicou: “Expandimos a rede ciclável em mais de 88 km.” A frase é curta, redonda, partilhável. O portal Lisboa Aberta — plataforma de dados abertos da própria Câmara Municipal de Lisboa — diz outra coisa.

Segundo os dados municipais, no mandato Moedas foram construídos 13,9 km de ciclovias. Dos quais 8,3 km são permanentes. Os restantes 5,6 km são provisórios. A diferença entre o reivindicado e o documentado é de 74,1 km. Uma discrepância de 84%.

Como se chegou a 88 km

A explicação para a diferença está na metodologia de contagem. O número de 88 km inclui infraestrutura herdada do mandato anterior, vias temporárias não convertidas em permanentes e quilómetros de projetos aprovados mas ainda não executados. É um número de pipeline — não de obra entregue.

A investigação do 24Horas, publicada em março de 2026, revelou que os 8 km anunciados para 2026 correspondem integralmente a obras aprovadas no mandato de Medina. E que €5,5M dos €6,3M do novo contrato EMEL são reembolsos de obras não executadas do contrato anterior.

Por outras palavras: parte do dinheiro do contrato novo paga obras que deviam ter sido feitas no contrato velho. E as obras do contrato velho foram aprovadas pelo presidente anterior.

O que herdou, o que construiu, o que anunciou

A rede ciclável de Lisboa tem raízes na gestão Medina. Os seis eixos estruturantes da rede foram definidos entre 2016 e 2019. O contrato de mandato com a EMEL para a rede ciclável foi assinado nesse período. A GIRA — o sistema de bicicletas partilhadas — foi lançada por Medina; Moedas expandiu a frota.

O que Moedas genuinamente fez: em 2022, suspendeu novas ciclovias até concluir uma auditoria à rede existente. A auditoria foi feita — e depois, segundo o PS, escondida durante meses. Em 2024, apresentou um “plano de acção” com base nessa auditoria. Os críticos descreveram o resultado como “a montanha pariu um rato”.

Em quatro anos de mandato, a cidade que se quer verde e sustentável construiu 8,3 km de ciclovias permanentes. É menos de dois quilómetros por ano.

O ciclista que esperou

Há um detalhe que os números não capturam. Rafael tem 34 anos e trabalha no Marquês de Pombal. Desde 2019 espera pela ciclovia que devia ligar Benfica ao centro da cidade — um dos seis eixos estruturantes aprovados por Medina. Em 2025, continuava à espera. O percurso de bicicleta implica partilhar faixas com autocarros ou subir passeios.

“Ouço falar de Lisboa como cidade sustentável há dez anos”, diz. “Mas ainda não há uma ligação ciclável decente entre o meu bairro e o trabalho.”

O Rafael é um número nas estatísticas de mobilidade activa. Os 88 km de Instagram não chegam à sua porta.

A questão da régua

Quando Carlos Moedas diz “expandimos a rede em 88 km”, está a usar uma régua. Essa régua inclui herança, temporário e anúncios futuros. Quando o portal Lisboa Aberta diz 13,9 km, está a usar outra régua: obras efectivamente construídas durante o mandato.

Nenhuma das duas está errada do ponto de vista técnico. Mas apenas uma responde à pergunta que os cidadãos fazem: o que foi construído no seu mandato, com o seu dinheiro, durante os seus quatro anos?

A diferença entre as duas réguas é de 74 quilómetros.

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