Covid-19 e habitação: o “fique em casa” mudou o mercado para sempre? - Sociedade Civil
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Resumo

  • entre 2022 e 2023, a maioria dos municípios recuperou o ritmo de subida, frequentemente com taxas anuais acima de 10%.
  • Num T3 com varanda, uma criança fazia aulas online com o computador em cima da mesa da cozinha e a mãe fechava a porta do quarto para uma reunião.
  • E, em bairros precários e dependentes de transportes públicos sobrelotados, o risco de infeção foi desproporcionado — uma “geografia da morte”, dizem os autores, retomando literatura anterior.

A pandemia não inventou a crise da habitação. Mas expõs a anatomia da desigualdade como uma radiografia cruel: quem tinha casa grande, varanda e espaço para teletrabalho viveu um confinamento; quem vivia em sobrelotação viveu um teste de resistência. O relatório dedica um capítulo inteiro ao tema e começa pelo símbolo que ficou colado à memória coletiva: “fique em casa”.

Durante meses, a casa deixou de ser apenas casa. Passou a ser escola, escritório, ginásio, refúgio e prisão.

A pandemia travou — mas não quebrou — a valorização

Os autores colocam a pergunta central: como respondeu o mercado imobiliário português à crise pandémica, num país já em forte valorização na segunda metade da década de 2010?

A resposta é menos dramática do que muitos temiam. Na compra de habitação, os dados apontam para um abrandamento generalizado dos preços durante 2020, com um segundo momento de desaceleração entre 2020 e 2021 (mais bem definido).

No arrendamento, houve também abrandamentos em todas as regiões. Mais: um conjunto de municípios registou diminuição efetiva das rendas — incluindo Lisboa, Cascais, Oeiras, Porto e Funchal, entre outros. Em Lisboa e Oeiras, essa descida prolongou-se por dois anos.

No caso específico de Lisboa, o relatório nota que as rendas baixaram em praticamente todas as freguesias, com exceções pontuais. E identifica descidas mais marcadas em freguesias como Carnide, Estrela, Campo de Ourique, Avenidas Novas, Misericórdia, Marvila e Lumiar.

Depois veio o ressalto: entre 2022 e 2023, a maioria dos municípios recuperou o ritmo de subida, frequentemente com taxas anuais acima de 10%.

Micro-história: duas casas, duas pandemias

Num T3 com varanda, uma criança fazia aulas online com o computador em cima da mesa da cozinha e a mãe fechava a porta do quarto para uma reunião. Noutra casa, um T1 com três pessoas, a aula online era interrompida por uma panela ao lume e um telefonema do patrão em alta-voz. O vírus era o mesmo. A experiência não.

O relatório é explícito: a desigualdade habitacional traduziu-se em divergências de bem-estar e saúde mental; e, em bairros precários e dependentes de transportes públicos sobrelotados, o risco de infeção foi desproporcionado — uma “geografia da morte”, dizem os autores, retomando literatura anterior.

O que ficou — e o que não ficou

Poderiam argumentar que a pandemia foi um parêntesis e que o mercado “voltou ao normal”. Em parte, sim: as descidas nas rendas foram amplamente recuperadas nos anos seguintes.

Mas há algo que não regressou ao ponto inicial: a consciência. O relatório mostra que a habitação não é pano de fundo; é determinante na forma como diferentes grupos enfrentam crises, do teletrabalho ao ensino à distância, da privacidade ao risco sanitário.

A pandemia não mudou a casa: mudou o que a casa revela sobre nós.

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