Resumo
- Num universo em que os conteúdos desinformativos somaram mais de 8,39 milhões de visualizações, a concentração não é um pormenor estatístico — é um sinal de domínio de agenda por via do ruído.
- O dado é forte, mas o leitor merece saber que “82,4%” é uma conclusão do universo monitorizado pelo estudo, não uma radiografia absoluta de “tudo o que aconteceu” em toda a Internet.
- a tipologia dominante em 2026 é o ataque a jornalistas e media (41,2%), precisamente a tática que tenta anular o contraditório e transformar qualquer correção num “ataque do sistema”.
Pensei durante alguns segundos
A primeira volta das presidenciais de 2026 deixou um dado que, por si, muda a conversa: o estudo do LabCom/UBI (ODEPOL) identifica que André Ventura concentrou 82,4% dos episódios de desinformção registados na pré-campanha e na campanha. Num universo em que os conteúdos desinformativos somaram mais de 8,39 milhões de visualizações, a concentração não é um pormenor estatístico — é um sinal de domínio de agenda por via do ruído.
O que está em causa não é uma acusação automática de “orquestração” (isso exige prova própria). Está em causa um padrão: a maior fatia da desinformção monitorizada gravita num só polo, com interações suficientes para empurrar alcance orgânico e manter o tema “a ferver”.
O que é um “caso” — e por que a palavra importa
No relatório, “caso” é tratado como episódio de desinformção identificado pela monitorização académica. Isto é decisivo, porque evita uma confusão frequente: não estamos a falar de “opiniões” duras nem de polémicas legítimas. Estamos a falar de episódios classificados como desinformativos no âmbito do estudo, com métricas associadas (visualizações, reações, comentários, partilhas) e com uma tipologia interna.
Há, ainda assim, uma zona cinzenta que convém admitir: classificações dependem de critérios e do recorte do que foi observado. A honestidade aqui não enfraquece a peça — fortalece-a. O dado é forte, mas o leitor merece saber que “82,4%” é uma conclusão do universo monitorizado pelo estudo, não uma radiografia absoluta de “tudo o que aconteceu” em toda a Internet.
Uma micro-história de repetição
Na Rua Morais Soares, um senhor mostrou-me no telemóvel um vídeo curto com letras grandes: “PROVA”. A seguir veio outro, quase igual, com outra legenda e o mesmo gesto de acusação. “Isto é todos os dias”, disse ele. Era verdade no sentido mais literal: a repetição cria a sensação de permanência, e a permanência vira normalidade.
Daquela promessa, restou apenas o eco.
A chave está na mecânica: interação como motor, não como efeito
O relatório liga a eficácia desta presença à capacidade de gerar interação elevada — 347.228 reações, 64.151 comentários e 27.178 partilhas — e descreve uma rede de apoiantes como “militantes digitais”, capaz de validar e amplificar conteúdos dentro de bolhas informativas. Não é um detalhe técnico: é a forma como o algoritmo interpreta “importância”.
E há outra peça do puzzle: a tipologia dominante em 2026 é o ataque a jornalistas e media (41,2%), precisamente a tática que tenta anular o contraditório e transformar qualquer correção num “ataque do sistema”.
Invertida fica a ordem: primeiro desacredita-se quem verifica, depois circula-se sem travão.
“Mas isso não prova que seja intencional”
Poderiam argumentar que concentração pode refletir simplesmente maior presença digital, maior base mobilizada ou maior cobertura mediática — e não intenção deliberada. A objeção faz sentido. A concessão honesta é esta: o número, sozinho, não prova intenção.
Mas também é verdade que a concentração, quando se combina com um padrão de ataques ao ecossistema de verificação e com uma dinâmica de ampliação, cria um efeito político palpável: torna-se mais fácil impor temas, enquadrar adversários e manter a esfera pública num estado de irritação contínua.
A frase de impacto fecha sem ornamentos: quando 82,4% do ruído tem o mesmo centro, o debate deixa de ser plural — passa a ser arrastado.