Resumo
- a divulgação de nomes de crianças por André Ventura e Rita Matias, em contexto político e digital, para alegar um suposto favorecimento de imigrantes nas escolas públicas.
- “Se a mensagem que recebem é que o seu nome, a sua cor de pele ou a língua que falam em casa são problemas, então aprendem a ter vergonha de quem são.
- Várias associações — como a SOS Racismo, a Crescer e a APAV — alertaram para o aumento de pedidos de apoio por parte de famílias imigrantes nos últimos 30 dias.
Depois do Parlamento, o recreio. O discurso político violento atravessa os ecrãs, chega às escolas e deixa marcas. Insultos, exclusão, medo. Que acontece às crianças quando se tornam alvos de uma narrativa de ódio?
Lisboa, 1 de Agosto de 2025 — A mãe soube do que se passava quando o filho, de cinco anos, lhe perguntou: “Mãe, eu sou português ou sou o que dizem na televisão?” O nome do menino — com ascendência magrebina — tinha sido lido em voz alta no Parlamento por um deputado do Chega. Não fora acusado de nada. Mas fora exibido. Tornado símbolo. Tornado alvo.
Desde então, recusa-se a ir ao jardim-de-infância. Tem medo. 09 de 00. E os colegas, no recreio, repetem frases que ouviram em casa ou nas redes: “Tu não és dos nossos.” “Tu é que tiraste o lugar.” “Vai-te embora.”
Esta é apenas uma das histórias recolhidas em agrupamentos escolares de Lisboa e da margem sul desde o episódio que chocou o país: a divulgação de nomes de crianças por André Ventura e Rita Matias, em contexto político e digital, para alegar um suposto favorecimento de imigrantes nas escolas públicas. Não houve crime formal, dizem alguns. Mas houve dano. Real. Invisível. Profundo.
Quando a política magoa
“O que aconteceu foi uma forma de violência simbólica contra crianças”, afirma a psicóloga educacional Joana Lemos. “Trata-se de uma exposição não consentida, com carga acusatória implícita, em que os nomes funcionam como marcadores de exclusão.”
A linha que separa o discurso político da realidade escolar é cada vez mais tênue. A retórica inflamada, disseminada por redes sociais e notícias virais, entra na escola através da linguagem das crianças, das conversas dos pais e do comportamento dos professores. A xenofobia já não é teórica — é prática.
Na última semana de Julho, três directores escolares da Área Metropolitana de Lisboa confirmaram ao nosso jornal que houve relatos de:
- Comentários discriminatórios entre alunos do pré-escolar e 1.º ciclo;
- Isolamento de crianças racializadas nos recreios;
- Recusa de alguns pais em manter os filhos em turmas com maior diversidade étnica.
“O discurso que ouvimos no Parlamento legitima o preconceito que já existia de forma latente”, diz Sofia Ribeiro, directora de um agrupamento em Loures. “Agora aparece à superfície, com linguagem que as crianças reproduzem sem compreender.”
Feridas silenciosas
A exposição pública precoce, sem compreensão do contexto, tem consequências psicológicas duradouras. Os sinais mais comuns, segundo especialistas, incluem:
- Regressão de comportamentos (xixi na cama, medo de separação);
- Dificuldades de concentração;
- Baixa autoestima e autoimagem deteriorada;
- Ansiedade antecipatória e perturbações do sono.
“Estamos a falar de crianças em idade de desenvolvimento emocional e identitário”, explica a pedopsiquiatra Helena Ramalho. “Se a mensagem que recebem é que o seu nome, a sua cor de pele ou a língua que falam em casa são problemas, então aprendem a ter vergonha de quem são.”
Várias associações — como a SOS Racismo, a Crescer e a APAV — alertaram para o aumento de pedidos de apoio por parte de famílias imigrantes nos últimos 30 dias. Muitos pais temem represálias. Outros já ponderam mudar de escola ou até de concelho. O sentimento de insegurança é transversal.
Falta de resposta institucional
O Ministério da Educação ainda não emitiu qualquer directiva específica sobre o caso. Também não anunciou planos de reforço da educação para a cidadania, apesar de pressões da sociedade civil.
“O silêncio institucional contribui para o trauma”, afirma André Carvalho, psicólogo escolar em Almada. “As crianças precisam de ouvir dos adultos que são protegidas. Que aquilo que ouviram é errado. Que a escola é um lugar seguro.”
Por enquanto, essa mensagem não chegou. A ausência de sinal político e pedagógico deixa o campo livre para a normalização da exclusão.
A escola como campo de resistência
Apesar do silêncio do Estado, muitas escolas estão a reagir por iniciativa própria. Oficinas de cidadania, actividades de literacia emocional, rodas de conversa sobre diversidade — tudo tem sido posto em prática por professores que recusam ver os seus alunos tratados como ameaças.
Numa escola primária da Amadora, uma professora levou para a sala um livro infantil chamado Todos Somos de Algum Lado. Sentou os alunos em círculo e leu devagar, pausando nas palavras: “Há nomes diferentes, mas todos têm histórias. Há caras diferentes, mas todos têm olhos que choram e riem.”
No final, uma menina levantou a mão e disse: “Então o meu nome não está errado?” Não. O teu nome é teu. E ninguém, nem mesmo um deputado, tem o direito de o usar contra ti.