Resumo
- A 23 de Julho, o deputado Gabriel Mithá Ribeiro leu, no plenário da Assembleia da República, parte da lista que circulava online.
- A intervenção foi transmitida em directo pela ARtv e amplamente divulgada nas redes do partido, onde o vídeo foi recortado e legendado com a expressão.
- O Chega justificou a divulgação da lista com a ideia de que os alunos estrangeiros “entram primeiro nas escolas” e os portugueses “são deixados para trás”.
Lisboa, 1 de Agosto de 2025 — Tudo começou com um vídeo. Publicado na rede TikTok por um dirigente distrital do Chega, o clipe mostrava, em plano fechado, uma folha com nomes próprios e apelidos. Todos associados a crianças com origens migrantes. A legenda — “vejam quem tem prioridade nas escolas” — insinuava uma preferência discriminatória atribuída aos filhos de estrangeiros no acesso ao ensino público.
Durante dias, o vídeo circulou sem contestação institucional. Os nomes — claramente identificáveis — foram replicados em grupos de Telegram próximos da extrema-direita, adornados com acusações de “inversão étnica” e “racismo contra portugueses”. Era a preparação de terreno para o que viria a seguir.
Da internet ao plenário
A 23 de Julho, o deputado Gabriel Mithá Ribeiro leu, no plenário da Assembleia da República, parte da lista que circulava online. Fê-lo com dramatismo e indignçaão calculada. Repetiu os nomes. Sublinhou as sonoridades estrangeiras. E lançou a acusação: “As nossas crianças ficam para trás porque o sistema prefere os filhos de imigrantes”.
A intervenção foi transmitida em directo pela ARtv e amplamente divulgada nas redes do partido, onde o vídeo foi recortado e legendado com a expressão: “Portugueses discriminados na sua própria terra”.
Nenhum dos deputados presentes interrompeu. A presidente da sessão não advertiu. O momento passou sem reacção visível da Mesa da Assembleia da República. Nem mesmo os partidos da maioria levantaram a questão de imediato.
Silêncio institucional
Nos dias seguintes, o silêncio das instituições foi ensurdecedor. A Comissão Nacional de Proteção de Dados (CNPD) confirmou ter recebido várias queixas, mas remeteu explicações para “análise do enquadramento jurídico”. O Ministério da Educação não comentou. A Procuradoria-Geral da República recusou confirmar se tinha aberto qualquer investigação.
“A passividade é tão grave quanto a infração”, afirma o advogado Tiago Rodrigues Bastos, especialista em direitos fundamentais. “Temos aqui uma potencial violação do artigo 35.º da Constituição, do RGPD e da Lei 58/2019. A exposição deliberada de crianças, com associação à sua origem étnica ou nacional, é um acto de discriminação punível.”
O despacho que desmente a narrativa
O Chega justificou a divulgação da lista com a ideia de que os alunos estrangeiros “entram primeiro nas escolas” e os portugueses “são deixados para trás”. Mas esta tese é desmontada pelo Despacho Normativo n.º 10-B/2021, que regula as matrículas escolares. O critério da residência e da idade prevalece; não há qualquer vantagem para crianças migrantes.
“Trata-se de uma manipulação grosseira”, resume Maria João Valente Rosa, demógrafa. “Não há qualquer sistema preferencial para alunos estrangeiros. Pelo contrário, são frequentemente penalizados por barreiras linguísticas ou precariedade habitacional”.
A linha vermelha: crianças como alvo
A utilização de menores como instrumento de discurso político deveria ser uma linha vermelha intransponível numa democracia liberal. Mas este episódio revelou como o Parlamento português pode falhar no essencial: proteger os mais vulneráveis.
“As instituições toleraram, por omissão, um acto de exposição de menores sem precedentes em Portugal democrático”, nota Ana Carvalho, investigadora em direitos da infância. “É o tipo de precedente que legitima práticas futuras ainda mais perigosas.”
Os pais das crianças visadas — na sua maioria residentes em bairros periféricos de Lisboa — não foram notificados, não foram ouvidos, não foram protegidos. Algumas associações de imigrantes denunciaram o caso à ONU, que já pediu esclarecimentos ao Governo português.
E o que fizeram os partidos?
A Iniciativa Liberal e o Bloco de Esquerda apresentaram perguntas ao Governo. O Livre e o PAN exigiram acções da CNPD. O PS e a AD manifestaram “preocupação”, mas sem qualquer iniciativa parlamentar concreta. André Ventura, por sua vez, redobrou o ataque: “A verdade incomoda. E vamos continuar a dizê-la”.
Perante esta resposta, a pergunta impõe-se: onde traçamos o limite? Se nomes de crianças são lidos em plenário para alimentar agendas de ódio e nenhuma consequência resulta disso, que outros limites estarão por cair?
Cronologia do caso
- 18 de Julho – Publicação do vídeo com a lista de nomes no TikTok.
- 20 de Julho – Vídeo replicado em redes e canais extremistas.
- 23 de Julho – Leitura da lista por deputado do Chega no Parlamento.
- 24‑28 de Julho – Ausência de reação institucional; partidos dividem-se entre silêncio e comunicados isolados.
- 30 de Julho – Queixas chegam à CNPD; Ministério Público não comenta.
- 1 de Agosto – Parlamento continua sem medidas disciplinares. Chega anuncia que “vai divulgar mais listas”.
A linha vermelha foi cruzada. O que resta à democracia? Guardar silêncio ou afirmar que, quando se trata de crianças, nada justifica o oportunismo político.