Resumo
- Com a passagem dos meses e o intensificar do bloqueio, a fome deixou de ser um efeito colateral para se tornar uma arma estratégica.
- O que está a acontecer em Gaza é o uso deliberado da fome como instrumento de guerra — por ambos os lados do conflito.
- listas de bens proibidos que mudam diariamente, exigências absurdas e um nível de vigilância digital que força as ONGs a partilharem dados dos beneficiários com as autoridades israelitas.
Em Gaza, a comida é mais do que uma necessidade: é uma alavanca de poder. Com a passagem dos meses e o intensificar do bloqueio, a fome deixou de ser um efeito colateral para se tornar uma arma estratégica. Nesta reportagem, revelamos como a ajuda alimentar é usada por Israel para sufocar um território sitiado — e por actores locais para controlar e fidelizar uma população à beira do colapso.
RAFAH, Faixa de Gaza — Os camiões estão ali. Parados, cobertos de pó e com os pneus deformados pelo sol de Julho. A poucos metros da fronteira com o Egipto, dezenas de viaturas com alimentos, medicamentos e água potável aguardam autorização para atravessar. Esperam há dias. Alguns há semanas.
Do outro lado da linha de arame, em Gaza, espera-se também. Mas espera-se com o estômago vazio.
“Sabemos que há farinha ali mesmo, mas não conseguimos tocá-la”, diz Umm Rami, mãe de três crianças, a viver num abrigo improvisado em Khan Younis. “A ajuda chega a quem tem contactos. Aos outros, resta esperar… ou desfalecer.”
Esta não é apenas mais uma crise humanitária. O que está a acontecer em Gaza é o uso deliberado da fome como instrumento de guerra — por ambos os lados do conflito.
Cálculos calóricos e bloqueios cirúrgicos
O bloqueio israelita sobre Gaza já leva mais de 17 anos, mas desde Outubro de 2023 tornou-se quase absoluto. Israel justifica a interdição de bens como medida de segurança para impedir que alimentos, combustível ou peças eletrónicas caiam nas mãos do Hamas. Mas documentos tornados públicos pela ONG Gisha revelam algo mais preocupante.
Em 2008, o Ministério da Defesa israelita elaborou um estudo interno para calcular o número mínimo de calorias necessárias por pessoa — cerca de 2.279 por dia — a fim de evitar “desnutrição crónica” mas manter pressão sobre a população. A ideia era permitir apenas a entrada de alimentos suficientes para “não causar crise humanitária formal”.
“A fome é uma arma limpa: não deixa crateras, mas mata silenciosamente”, afirma ao nosso jornal Michael Lynk, ex-relator da ONU para os Territórios Palestinianos.
Segundo dados da ONU (OCHA), mais de 85% da população de Gaza enfrenta níveis extremos de insegurança alimentar. A escassez não é acidental. É política.
Ajuda humanitária sob fogo — literal e figurado
A entrada de ajuda continua dependente da autorização israelita. A maioria dos camiões é inspecionada em pontos como Kerem Shalom e Nitzana, onde são barrados produtos como garrafas de água com rótulos “suspeitos” ou kits de purificação. Em Maio, um comboio da World Central Kitchen foi alvo de um ataque aéreo israelita, matando sete trabalhadores humanitários.
“Os corredores humanitários são uma ficção operacional. O sistema está feito para falhar”, denuncia Samer Abdelnour, académico e especialista em ajuda internacional.
Fontes no terreno descrevem um sistema kafkiano: listas de bens proibidos que mudam diariamente, exigências absurdas e um nível de vigilância digital que força as ONGs a partilharem dados dos beneficiários com as autoridades israelitas.
Dentro de Gaza: comida com preço político
Mas a pressão não vem só de fora. Dentro de Gaza, a distribuição da ajuda é frequentemente usada como ferramenta de controlo social por actores armados. O Hamas, tal como clãs familiares ou redes clientelares, canaliza alimentos para apoiantes ou utiliza-os como recompensa em troca de lealdade.
“A ajuda não é neutral. Se não estás na lista certa, não comes”, confessa sob anonimato um trabalhador da UNRWA, agência da ONU para os refugiados palestinianos.
Nas ruas de Deir al-Balah ou Jabalia, famílias relatam trocas de bens essenciais por promessas de adesão a milícias ou favores políticos. Os cartões de distribuição — que deviam garantir equidade — tornaram-se mais uma moeda de exclusão.
Fome como campo de batalha
O que se desenha em Gaza é uma guerra prolongada não apenas com bombas e drones, mas com fome como tática de desgaste. A comida, aqui, é poder: quem a controla, controla a esperança.
Israel afirma que permite entrada de centenas de camiões por semana, mas dados do WFP (Programa Alimentar Mundial) mostram que isso cobre menos de 30% das necessidades básicas. Ao mesmo tempo, ONGs como Médicos Sem Fronteiras alertam para subnutrição grave entre crianças e colapso dos sistemas de saúde.
Quem lucra com a escassez?
Num cenário devastado, surgem também oportunidades. Contratos milionários para segurança nos corredores de ajuda, empresas privadas que gerem checkpoints ou até empreiteiras envolvidas na reconstrução (como a israelita Shikun & Binui) lucram com a perpetuação do estado de sítio.
“Enquanto uns contam calorias, outros contam lucros”, acusa Haggai Matar, jornalista e activista israelita.
E agora? A fome é inevitável?
Organizações como o ICRC e a Save the Children propõem soluções concretas: corredores humanitários verificados internacionalmente, gestão independente da ajuda e suspensão do uso da fome como instrumento político. Mas, sem vontade política, a realidade permanece: comer, em Gaza, é um acto profundamente político.