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Resumo

  • A história portuguesa e europeia está repleta de exemplos em que o voto de protesto abriu a porta a regimes que destruíram liberdades em poucos anos — e em alguns casos, em poucos meses.
  • Acreditar que um partido que acolhe ex-assessores envolvidos em grupos neonazis, que repete slogans racistas e que propõe políticas discriminatórias poderá governar com equilíbrio e respeito pelos direitos humanos é ignorar a sua própria prática política e o rasto de exclusão que deixa.
  • Num país com a memória viva de uma ditadura e com um 25 de Abril conquistado à custa de coragem e sacrifício, não há desculpa para se abdicar da liberdade em troca de promessas fáceis feitas por quem despreza a própria essência dessa liberdade.

Há decisões políticas que não são apenas uma escolha eleitoral. São um diagnóstico. Quem entrega o seu voto a um partido como o Chega — com histórico de discursos racistas, xenófobos, autoritários e permeável a elementos neonazis — não está apenas a expressar descontentamento: está a validar, consciente ou inconscientemente, um projeto que mina as bases da convivência democrática.

O problema é duplo: moral e cognitivo. Moral, porque ignora a dignidade humana e relativiza o impacto real do ódio sobre comunidades vulneráveis. Cognitivo, porque acredita que uma força política que alimenta a divisão e despreza factos verificados terá soluções melhores do que os partidos que já hoje, com todos os defeitos e limitações, governam um Estado plural e complexo.


O equívoco de “dar uma oportunidade”

A narrativa do “nunca experimentámos” é, além de ingénua, perigosa. A história portuguesa e europeia está repleta de exemplos em que o voto de protesto abriu a porta a regimes que destruíram liberdades em poucos anos — e em alguns casos, em poucos meses. Não é necessário recuar muito: basta olhar para a década de 1930 para perceber que o fascismo não chegou com tanques na rua, mas com votos nas urnas.

Acreditar que um partido que acolhe ex-assessores envolvidos em grupos neonazis, que repete slogans racistas e que propõe políticas discriminatórias poderá governar com equilíbrio e respeito pelos direitos humanos é ignorar a sua própria prática política e o rasto de exclusão que deixa.


O défice psicológico e a ilusão da força

O voto na extrema-direita também revela, muitas vezes, uma necessidade psicológica de encontrar culpados claros para problemas complexos. É mais fácil culpar imigrantes pela crise da habitação do que enfrentar a especulação imobiliária; é mais cómodo acusar minorias pela insegurança do que exigir políticas sérias de combate à pobreza e à desigualdade.

Este atalho emocional alimenta-se de frustração e ressentimento, mas não resolve nada. Pelo contrário: degrada o debate público, legitima insultos e normaliza a violência verbal e simbólica — preparando terreno para a violência física.


Portugal merece mais

A sociedade portuguesa, que já lida com um Parlamento onde a mediocridade não é monopólio de um só partido, não vai encontrar soluções melhores numa força que transforma o ódio em método político. Democracia não é apenas o direito de escolher: é também o dever de escolher com responsabilidade, conhecimento e consciência das consequências.

Num país com a memória viva de uma ditadura e com um 25 de Abril conquistado à custa de coragem e sacrifício, não há desculpa para se abdicar da liberdade em troca de promessas fáceis feitas por quem despreza a própria essência dessa liberdade.

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