Resumo
- Nos sermões dominicais, exaltava-se a obediência, a autoridade e o temor de Deus – valores que serviam o discurso do regime.
- Na Alemanha nazi, o regime cultivou o apoio de parte da hierarquia protestante através da criação dos chamados “Cristãos Alemães”, um movimento que fundia nacionalismo e teologia, promovendo uma leitura ariana dos Evangelhos e eliminando referências judaicas da Bíblia.
- Uma das grandes ausências nos períodos de aliança entre religião e autoritarismo é a voz profética – aquela que denuncia o abuso, defende os oprimidos e recusa a subjugação do sagrado ao Estado.
Dos altares à propaganda, quando a fé se curva ao poder.
“Deus acima de tudo”, “Pátria cristã”, “tradição e fé”. Estas fórmulas, hoje recicladas pela extrema-direita em Portugal e noutros países, não são novas. São ecos de uma história longa e ambígua: a aliança, tantas vezes trágica, entre religiões e regimes autoritários.
Num momento em que símbolos religiosos voltam a ser empunhados em comícios e discursos políticos – com destaque para o partido Chega – importa recuar, comparar e reflectir: o que nos ensina o passado sobre esta proximidade entre púlpito e poder? E que riscos corremos ao permitir que a fé seja convertida em ferramenta de exclusão e controlo social?
A história repete-se, com novas máscaras
A Europa do século XX oferece exemplos paradigmáticos de como a religião, longe de ser sempre um escudo contra a opressão, foi por vezes cúmplice de regimes autoritários. O caso português é ilustrativo: a Igreja Católica, durante o Estado Novo, desempenhou um papel central na legitimação ideológica do regime de Salazar.
“Salazar não era clerical no sentido tradicional, mas percebeu desde cedo o valor político da aliança com a Igreja”, recorda o historiador João Miguel de Almeida, autor de Cristianismo e Salazarismo: Uma Aliança de Conveniência. “A Concordata de 1940 selou essa parceria, garantindo privilégios à Igreja em troca de apoio à ordem estabelecida.”
Nos sermões dominicais, exaltava-se a obediência, a autoridade e o temor de Deus – valores que serviam o discurso do regime. Nas escolas, a moral católica era ensinada como verdade oficial. E os padres que ousavam discordar pagavam caro.
Não foi só em Portugal
Este padrão não foi exclusivo da experiência portuguesa. Na Alemanha nazi, o regime cultivou o apoio de parte da hierarquia protestante através da criação dos chamados “Cristãos Alemães”, um movimento que fundia nacionalismo e teologia, promovendo uma leitura ariana dos Evangelhos e eliminando referências judaicas da Bíblia.
Na Itália fascista, Mussolini assinou com o Vaticano os Pactos de Latrão (1929), reconhecendo a soberania da Santa Sé em troca de neutralidade política e apoio institucional. E na Espanha franquista, a Igreja Católica desempenhou um papel fundamental na legitimação da “Cruzada Nacional” contra a República.
“O que todos estes casos revelam”, sublinha a historiadora espanhola Carmen Aguilar, “é que a aliança entre religião e autoritarismo nasce, quase sempre, do medo mútuo: o poder receia a crítica moral da fé; a fé receia perder influência numa sociedade em mudança.”
O presente ecoa o passado
Hoje, em Portugal, não há Concordata salazarista nem censura institucional. Mas cresce, nos discursos políticos da extrema-direita, a tentativa de invocar a religião como âncora identitária, símbolo de “portugalidade” e critério de pertença.
Para André Ventura, a “cultura cristã” é usada como baluarte contra o multiculturalismo, a imigração e os “ataques à família”. Mas como denunciam diversos analistas, este cristianismo é muitas vezes esvaziado de conteúdo ético. Trata-se menos de seguir os Evangelhos do que de usá-los como marca identitária – uma cruz que separa, em vez de unir.
“É um fenómeno perigosamente semelhante ao que se viu noutros tempos”, alerta o padre Manuel Amado, estudioso da História da Igreja em Portugal. “A instrumentalização da fé para fins políticos nunca termina bem. Acaba por corromper a política e silenciar a profecia.”
Onde está a voz profética?
Uma das grandes ausências nos períodos de aliança entre religião e autoritarismo é a voz profética – aquela que denuncia o abuso, defende os oprimidos e recusa a subjugação do sagrado ao Estado. Vozes como a de Dietrich Bonhoeffer, pastor luterano executado pelos nazis, ou Óscar Romero, arcebispo assassinado em El Salvador, são a excepção e não a regra.
Hoje, essa voz também parece escassa.
“Temos líderes religiosos que preferem o conforto da neutralidade à inquietação do profetismo”, lamenta a teóloga Inês Mendonça. “Mas a história mostra que, quando a fé abdica da crítica moral em nome da estabilidade, torna-se cúmplice do poder – e perde a sua alma.”
Lições para o futuro
A história não se repete em fotocópia, mas rima. E os sinais que hoje se multiplicam – o uso instrumental da religião, a evocação da “cristandade” contra o pluralismo, a retórica da “decadência moral” como justificação para políticas punitivas – exigem vigilância.
A fé pode ser uma força de resistência democrática, como foi nas lutas contra o apartheid, nas comunidades de base da América Latina ou nas frentes ecuménicas da Europa de Leste. Mas para isso precisa de liberdade, discernimento e coragem.
Porque, como recorda a escritora e activista norte-americana Dorothy Day: “Quando o altar se aproxima demasiado do trono, o incenso acaba por cheirar a sangue.”