Resumo
- O RASI de 2025 refere atividade persistente de extremistas de direita, com propaganda e desinformção online e uma agenda anti‑islâmica e de “deportação em massa”, segundo a síntese noticiosa feita a partir do relatório.
- A 20 de janeiro de 2026, a PJ lançou uma megaoperação contra o grupo 1143, com dezenas de detidos, num processo associado a crimes de ódio e atividade organizada em torno de propaganda e mobilização.
- Se os relatórios do Estado registam crescimento de crimes de ódio e se a polícia apreende armas e explosivos em investigações a grupos extremistas, o silêncio não é prudência.
A extrema‑direita portuguesa deixou há muito de ser um folclore de margem. Em 2025 e 2026, o Estado teve de lhe tocar com luvas de procedimento criminal — e com mandados de busca. O RASI de 2025 refere atividade persistente de extremistas de direita, com propaganda e desinformção online e uma agenda anti‑islâmica e de “deportação em massa”, segundo a síntese noticiosa feita a partir do relatório. Não é detalhe: é estratégia.
Dois casos ajudam a perceber a evolução: a operação “Desarme 3D”, em junho de 2025, e a operação “Irmandade”, em janeiro de 2026, contra o grupo neonazi 1143.
“Desarme 3D”: armas, explosivos e uma fronteira que mudou
A Polícia Judiciária anunciou, a 17 de junho de 2025, a detenção de seis membros do Movimento Armilar Lusitano, com apreensão de armas de fogo (incluindo algumas produzidas com tecnologia 3D), impressoras 3D, material explosivo e munições. A nota oficial é clara e basta: a ameaça não era discursiva. Era material.
Aqui, a tentação é cair no filme — descrever, especular, dramatizar. Não vale a pena. O que interessa é o sinal: grupos com ideologia violenta testam meios, treinam pertença e procuram impacto simbólico. Daquela novidade, restou o aviso: a democracia não se perde só com votos; perde‑se quando a violência encontra logística.
Operação “Irmandade” e o 1143: redes, rua e normalização
A 20 de janeiro de 2026, a PJ lançou uma megaoperação contra o grupo 1143, com dezenas de detidos, num processo associado a crimes de ódio e atividade organizada em torno de propaganda e mobilização. A Euronews descreveu a operação como dirigida a grupos de extrema‑direita por crimes de ódio e conteúdos disseminados online que desembocavam em ações de rua.
O ponto sensível é este: a radicalização já não vive só no panfleto. Vive no feed, no chat, na claque, na “brincadeira” que vira ritual. O DN, num trabalho recente, fala de um mosaico de vários grupos no radar das autoridades e do modo como se adaptam e recrutam, sobretudo online.
A objeção necessária: “não estão a exagerar?”
Poderiam argumentar que este tipo de cobertura dá palco ao que procura palco. É uma objeção séria. A concessão honesta: há sempre risco de ampliação. Por isso a regra deve ser simples — factos, contexto, sem espetáculo, sem manual involuntário.
Mas esconder também tem custo. Se os relatórios do Estado registam crescimento de crimes de ódio e se a polícia apreende armas e explosivos em investigações a grupos extremistas, o silêncio não é prudência; é cegueira.
Uma frase curta para fechar: quando o ódio se arma, a neutralidade vira cumplicidade.