Resumo
- O recente episódio protagonizado pelo partido Chega, em que deputados divulgaram nomes e apelidos de crianças migrantes para sustentar uma narrativa de “discriminação dos portugueses” nas escolas públicas, não é um caso isolado.
- E tem sistematicamente utilizado a infância como alavanca de discurso de ódio — sob a forma de escândalos sexuais, alarmismo cultural ou alegado favorecimento no acesso a bens públicos.
- Na Alemanha, a AfD (Alternativa para a Alemanha) produziu uma campanha com imagens de meninas loiras e a frase.
Lisboa, 1 de Agosto de 2025 — A política populista tem um rosto, uma voz e agora também uma vítima preferencial: a criança. Durante décadas, a infância foi território sagrado no espaço público — símbolo de inocência, de futuro, de consenso civilizacional. Mas algo mudou. A extrema-direita aprendeu a inverter o símbolo. A criança tornou-se palco de guerra. E instrumento de uma máquina de conflito permanente.
O recente episódio protagonizado pelo partido Chega, em que deputados divulgaram nomes e apelidos de crianças migrantes para sustentar uma narrativa de “discriminação dos portugueses” nas escolas públicas, não é um caso isolado. É parte de uma estratégia política bem delineada: fabricar pânicos morais em torno da infância para alimentar uma agenda de exclusão, ressentimento e polarização.
A lógica do pânico moral
O conceito é antigo na sociologia dos media: pânico moral designa uma reação desproporcionada da sociedade em torno de um acontecimento percebido como ameaça aos seus valores fundamentais. A criança é o combustível ideal para este tipo de reação. Nenhuma figura é mais emocionalmente mobilizadora, mais vulnerável ou mais consensual como símbolo.
“Usar a criança permite, desde logo, blindar o discurso”, afirma o politólogo Hugo Azancot. “Quem invoca a defesa das crianças escuda-se na moral, desarma o contraditório e gera indignação rápida. É uma arma narrativa poderosa.”
O Chega percebeu isso há muito. E tem sistematicamente utilizado a infância como alavanca de discurso de ódio — sob a forma de escândalos sexuais, alarmismo cultural ou alegado favorecimento no acesso a bens públicos.
Portugal, Alemanha, França: um padrão
No caso português, o Chega recorreu à divulgação de nomes de menores para sustentar a ideia de que “os portugueses são discriminados nas escolas”. O objectivo não era provar um desequilíbrio real — não existe tal prova — mas desencadear reações emocionais e instintivas em segmentos já sensíveis ao discurso anti-imigração.
Na Alemanha, a AfD (Alternativa para a Alemanha) produziu uma campanha com imagens de meninas loiras e a frase: “Para que a Alemanha continue a ser nossa.” Em França, a Frente Nacional acusou o Governo de “substituição cultural nas creches” com base na presença de filhos de imigrantes. O padrão é claro: proteger as crianças de algo — dos imigrantes, da ideologia de género, da escola pública — e, no processo, impor uma visão monocultural, conservadora e excludente.
Crianças como metonímia política
A criança torna-se, assim, metonímia de toda uma narrativa identitária: é o “nós” ameaçado por “eles”; é o futuro que precisa de ser limpo, protegido, restaurado. Mas essa suposta protecção é, na verdade, um uso político. E é sempre selectivo.
“Não há qualquer preocupação genuína com os direitos da criança. Se houvesse, não veríamos crianças expostas publicamente, nem o silêncio perante a pobreza infantil real”, aponta a activista Ana Barradas. “Estas forças usam as crianças quando servem os seus argumentos. Ignoram-nas quando não servem.”
Fabricar crises para fabricar poder
A manipulação da infância está ao serviço de um fim: a criação artificial de crises. Crises que servem para justificar medidas de excepção, criminalizar grupos vulneráveis, forçar uma resposta musculada e inflamar as redes sociais.
“É uma fábrica constante de antagonismo. Quando não há crise real, inventa-se. E a criança é um pretexto perfeito”, explica Miguel Poiares Maduro. “Tudo o que se opõe pode ser acusado de ‘não querer proteger os miúdos’. É uma chantagem moral insidiosa.”
E a democracia?
O impacto não se mede apenas em votos. Mede-se na erosão lenta da confiança nas instituições. No medo instalado nas famílias. Na deslegitimação da escola pública. E, sobretudo, na normalização da exposição de crianças a conflitos políticos que não compreendem nem escolheram.
A democracia começa por proteger os mais frágeis. Quando aceita que estes sejam instrumentalizados, perde a sua razão de ser. E abre caminho a uma ordem política onde a verdade conta menos do que a indignação. Onde a criança já não é uma promessa — mas um pretexto.