“Deus, Pátria e Exclusão?”: A Fé em Rutura com a Extrema-Direita - Sociedade Civil
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Resumo

  • Mas por trás deste slogan, recuperado e reciclado pela extrema-direita, esconde-se uma tensão profunda entre doutrinas religiosas milenares e propostas partidárias que privilegiam o fechamento, a exclusão e a retórica do inimigo interno.
  • A Doutrina Social da Igreja Católica, compilada desde os finais do século XIX, defende expressamente a solidariedade com os mais pobres, o acolhimento do estrangeiro e a construção de uma sociedade justa e inclusiva.
  • O rabino Elisha Salas, da comunidade judaica sefardita em Lisboa, sublinha que “os ensinamentos do Judaísmo são claros quanto à responsabilidade moral perante o outro – o convertido, o órfão, a viúva, o migrante”.

Valores religiosos e discurso político colidem no coração da democracia portuguesa.


À primeira vista, a aliança entre fé e política conservadora parece natural. Deus, pátria, família – um tripé que ecoa nas praças, nos púlpitos e nos comícios. Mas por trás deste slogan, recuperado e reciclado pela extrema-direita, esconde-se uma tensão profunda entre doutrinas religiosas milenares e propostas partidárias que privilegiam o fechamento, a exclusão e a retórica do inimigo interno.

A crescente identificação entre símbolos religiosos e discursos de extrema-direita – sobretudo na narrativa do partido Chega – levanta uma questão incontornável: são compatíveis os valores centrais do Cristianismo, do Islão e do Judaísmo com os projectos políticos da nova direita radical?

A resposta, segundo líderes religiosos e especialistas ouvidos pelo nosso jornal, é clara: não.


A doutrina que não cabe no palanque

“O mandamento ‘amarás o teu próximo como a ti mesmo’ não tem asteriscos nem notas de rodapé”, afirma o padre João Lourenço, teólogo e professor jubilado da Universidade Católica Portuguesa. “Não há excepções por nacionalidade, cor de pele ou estatuto legal. Toda a doutrina social da Igreja aponta para a dignidade universal da pessoa humana.”

A Doutrina Social da Igreja Católica, compilada desde os finais do século XIX, defende expressamente a solidariedade com os mais pobres, o acolhimento do estrangeiro e a construção de uma sociedade justa e inclusiva. O mesmo se pode dizer da tradição islâmica e judaica, cuja ética do cuidado ao estrangeiro e ao vulnerável é estruturante.

O rabino Elisha Salas, da comunidade judaica sefardita em Lisboa, sublinha que “os ensinamentos do Judaísmo são claros quanto à responsabilidade moral perante o outro – o convertido, o órfão, a viúva, o migrante”. E acrescenta: “Um discurso político que estigmatiza, exclui ou inferioriza determinados grupos é eticamente incompatível com os valores religiosos fundamentais.”

No Islão, o princípio da umma (comunidade solidária) e a ênfase no zakat (doação obrigatória aos necessitados) reforçam esta leitura. Para o imã Ahmed Khatib, da Mesquita Central de Lisboa, “a fé não pode ser usada como arma política para dividir. Isso é, na verdade, uma forma de idolatria: colocar o poder acima da verdade de Deus”.


Um Deus feito à imagem do partido?

Apesar da clareza dos textos sagrados e das doutrinas oficiais, cresce em Portugal e noutros países europeus o fenómeno do nacionalismo cristão – uma reinterpretação da fé subordinada à lógica identitária e à retórica securitária. Deus torna-se o garante de uma identidade cultural fechada, definida contra o “outro”.

O Chega, partido que ascendeu à terceira força política nacional, tem sido particularmente hábil em mobilizar símbolos religiosos como sinal de pertença. André Ventura fala de “valores cristãos”, cita passagens bíblicas em debates parlamentares e apela à “tradição católica” portuguesa como base moral do seu programa.

No entanto, esses mesmos valores parecem ausentar-se quando se trata de defender os direitos de ciganos, imigrantes ou pessoas LGBTQ+. Em vez de misericórdia, há condenação. Em vez de hospitalidade, expulsão. Em vez de compaixão, desconfiança. Pode um partido assim reclamar o monopólio da moral cristã?


A reacção das confissões religiosas

Até agora, a reacção das instituições religiosas tem sido, em grande parte, tímida. A Conferência Episcopal Portuguesa, por exemplo, tem evitado confrontos directos com actores políticos, preferindo apelos genéricos à “caridade” e “tolerância”.

Mas há vozes dissonantes.

Em 2022, o então arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga, declarou: “Não podemos ser cristãos apenas da cintura para cima. A solidariedade é o rosto político do amor ao próximo. Um cristão que pactua com o ódio ou o preconceito trai o Evangelho.”

Entre os muçulmanos, o Conselho Islâmico de Portugal tem mantido uma posição de reserva institucional, mas vários líderes locais expressaram preocupação com a retórica anti-islâmica de alguns sectores políticos. O mesmo se passa na comunidade judaica, historicamente atenta aos sinais de extremismo.


O paradoxo do voto crente

Apesar de tudo, há eleitores crentes que votam Chega. Alguns por desilusão com os partidos tradicionais, outros por medo das mudanças culturais, outros ainda pela promessa de “valores firmes”.

Para o politólogo Pedro Valente, especialista em religião e política, trata-se de um paradoxo ético. “Os crentes são sensíveis ao discurso de ordem, autoridade e valores morais. Mas muitas vezes não se apercebem que esses valores estão a ser instrumentalizados para fins ideológicos que colidem com a sua fé mais profunda.”

O sociólogo francês Olivier Roy já diagnosticava este fenómeno como “descristianização cultural da política”, em que os símbolos são preservados mas o conteúdo evangélico se esvazia.


O desafio ético da cidadania

Este confronto entre fé e ideologia não é apenas teológico. É profundamente político. Num momento em que a democracia é posta à prova por discursos de ódio e polarização, as religiões podem e devem ser forças de resistência moral, chamando os crentes à coerência.

“É tempo de as comunidades religiosas se posicionarem com clareza”, apela a teóloga Maria Almeida, investigadora na Universidade Nova de Lisboa. “Não para defender partidos, mas para reafirmar princípios: hospitalidade, compaixão, justiça social. Isso não é política partidária. É fidelidade ao Evangelho.”

Porque, no fim de contas, a pergunta não é se Deus está à direita ou à esquerda. A pergunta é se os crentes estão dispostos a defender a dignidade de todos — mesmo quando isso os obriga a confrontar quem diz falar em nome de Deus.


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