Resumo
- Mesmo em sectores onde o número de trabalhadoras é superior, os homens continuam a auferir rendimentos médios mais elevados — um desequilíbrio estrutural que perpetua a fragilidade económica das famílias monoparentais lideradas por mulheres, muitas vezes as primeiras a cair na pobreza laboral.
- A narrativa de que quem trabalha não tem motivos para se queixar esbarra, hoje, contra a realidade concreta de milhares de portugueses.
- E quando o trabalho não basta para escapar à pobreza, o problema não está nas pessoas — está no sistema.
Por Redacção
Em Portugal, ter um emprego já não é sinónimo de segurança. Nem de dignidade. Em 2024, quase 10% das pessoas empregadas encontravam-se em risco de pobreza — um paradoxo cruel num país onde se acredita que o trabalho liberta. O “Portugal, Balanço Social 2024” desfaz essa ilusão com números frios e contundentes: trabalhar é, para muitos, viver no fio da navalha.
A expressão “trabalhadores pobres” já faz parte do léxico europeu. Mas, no caso português, ela ganha contornos particularmente sombrios: baixos salários, contratos temporários, horários imprevisíveis e ausência de progressão marcam o quotidiano de centenas de milhares de pessoas. Muitos têm dois empregos — ou mais — e ainda assim não escapam à pobreza.
O rosto da precariedade tem nome e género
A precariedade atinge desproporcionalmente jovens, mulheres e trabalhadores com menor escolaridade. Segundo o relatório, cerca de 21,3% dos trabalhadores com o ensino básico completo estão em risco de pobreza. Entre os que têm contratos temporários, esse número dispara para os 26%. O padrão é claro: quanto menos estabilidade e qualificação, maior o risco de empobrecimento mesmo com um salário ao fim do mês.
Além disso, o fosso salarial entre homens e mulheres continua a evidenciar desigualdades profundas. Mesmo em sectores onde o número de trabalhadoras é superior, os homens continuam a auferir rendimentos médios mais elevados — um desequilíbrio estrutural que perpetua a fragilidade económica das famílias monoparentais lideradas por mulheres, muitas vezes as primeiras a cair na pobreza laboral.
Horas a mais, salário a menos
O relatório traça um retrato preocupante da carga horária: uma em cada três pessoas trabalha mais de 40 horas por semana, enquanto cerca de 15% têm horários parciais não por escolha, mas por falta de alternativas. Em 2024, 16% dos trabalhadores ganhavam o salário mínimo nacional — uma cifra que, apesar dos sucessivos aumentos, continua insuficiente para cobrir as despesas essenciais.
Mais chocante ainda é o dado de que muitos destes trabalhadores não conseguem assegurar alimentação regular, cuidados de saúde ou condições habitacionais condignas. Um quarto dos que vivem em habitação própria ou arrendada declara ter encargos considerados excessivos face ao rendimento mensal. Ou seja: trabalham, pagam, e sobra… quase nada.
“Não é preguiça, é pobreza”
A narrativa de que quem trabalha não tem motivos para se queixar esbarra, hoje, contra a realidade concreta de milhares de portugueses. Um contrato não garante paz. Um recibo de vencimento não equivale a uma vida digna. E um emprego, por si só, já não basta.
“Trabalho seis dias por semana, saio às sete da manhã e chego a casa depois das oito da noite. Tenho dois filhos e, ainda assim, às vezes não consigo pagar tudo. Não sobra para férias, nem para comer carne mais do que duas vezes por semana.” — conta Ana, 39 anos, operária fabril em Setúbal.
Respostas que tardam
O combate à pobreza laboral exige medidas robustas: valorização real dos salários, promoção de contratos permanentes, fiscalidade mais justa, reforço da negociação colectiva e uma nova arquitectura de protecção social.
Trabalhar não pode ser uma sentença. E quando o trabalho não basta para escapar à pobreza, o problema não está nas pessoas — está no sistema.
Porque, num país democrático e desenvolvido, ninguém devia ser pobre… por estar a trabalhar.