Resumo
- O colapso de 1929, o Tratado de Versalhes e as tensões identitárias na Europa do pós-guerra criaram o caldo perfeito para líderes como Mussolini e Hitler prometerem ordem, prosperidade e orgulho nacional.
- Contudo, em Estados onde a reconciliação histórica foi frágil ou incompleta — como a Itália, onde Mussolini nunca foi formalmente condenado pela Constituição, ou a Hungria, onde o regime de Horthy é hoje reabilitado por parte da classe política — a memória do autoritarismo é muitas vezes manipulada ou romantizada.
- A crise da representação e o esvaziamento ideológico dos partidos tradicionais contribuíram para o surgimento de uma política emocional, onde o “nós” e o “eles” voltam a estruturar o discurso público.
Quem são, de onde vêm e por que continuam a crescer? O ressurgimento da extrema-direita no século XXI, longe de ser um fenómeno espontâneo ou marginal, é alimentado por raízes fundas que se entrelaçam com crises cíclicas do capitalismo, traumas mal resolvidos da história europeia e um descontentamento social que as democracias liberais não conseguiram canalizar. Hoje, partidos com discursos radicais ascendem em urnas democráticas por toda a Europa — de Le Pen a Meloni, de Orbán a Abascal — com uma retórica que ecoa, em surdina ou à superfície, o ideário fascista do século passado.
Mas como se explica este regresso? Quais são as continuidades e as rupturas face ao fascismo histórico? E por que razão tantos eleitores, sobretudo jovens e classes médias empobrecidas, se sentem hoje representados por forças que promovem o autoritarismo, a exclusão e a xenofobia?
Crises económicas e fragilidade democrática: o terreno fértil do radicalismo
A história não se repete, mas rima. A ascensão dos fascismos no século XX ocorreu num cenário de instabilidade generalizada: crise económica profunda, fragilidade das instituições democráticas e medos sociais amplificados por desemprego e empobrecimento. O colapso de 1929, o Tratado de Versalhes e as tensões identitárias na Europa do pós-guerra criaram o caldo perfeito para líderes como Mussolini e Hitler prometerem ordem, prosperidade e orgulho nacional.
No século XXI, o padrão repete-se em nova roupagem. A crise financeira de 2008 deixou marcas duradouras: austeridade, precarização do trabalho, cortes nos serviços públicos e perda de confiança nas elites políticas. Nos países do sul da Europa, como Portugal, Espanha e Grécia, a recuperação foi lenta e desigual. A classe média empobreceu, os jovens emigraram e o fosso entre governantes e governados alargou-se.
Neste vácuo de representação, a extrema-direita tem sido particularmente eficaz. Apresenta-se como a voz dos “esquecidos”, dos “abandonados pelo sistema”, denunciando a corrupção, o “globalismo” e a imigração como causas de todos os males. A estratégia é conhecida: oferecer bodes expiatórios e respostas simples para problemas complexos.
Da nostalgia ao ressentimento: a herança autoritária mal resolvida
Ao contrário do que muitos pensam, a extrema-direita europeia não nasceu nos anos 2000. Nunca desapareceu totalmente. Após a Segunda Guerra Mundial, sobreviveu em franjas marginais e em partidos de protesto, adaptando-se ao novo léxico democrático e evitando o revisionismo explícito nos países com memória forte do Holocausto.
Contudo, em Estados onde a reconciliação histórica foi frágil ou incompleta — como a Itália, onde Mussolini nunca foi formalmente condenado pela Constituição, ou a Hungria, onde o regime de Horthy é hoje reabilitado por parte da classe política — a memória do autoritarismo é muitas vezes manipulada ou romantizada. O “revisionismo suave” prospera nos manuais escolares, nos debates televisivos e nas redes sociais.
Por outro lado, a queda do Muro de Berlim e o colapso do bloco soviético retiraram da esquerda radical a aura de utopia que durante décadas ofereceu resistência ao autoritarismo de direita. A perda dessa “alternativa” ideológica abriu caminho para o avanço das ideias nacionalistas como resposta ao liberalismo global.
Nacionalismo e identidade: a promessa de pertença em tempos de desorientação
A crise da representação e o esvaziamento ideológico dos partidos tradicionais contribuíram para o surgimento de uma política emocional, onde o “nós” e o “eles” voltam a estruturar o discurso público. Neste contexto, a extrema-direita apresenta-se como defensora da identidade nacional ameaçada: contra os imigrantes, contra as minorias, contra os “progressistas”, contra Bruxelas.
Este tipo de mobilização tem raízes no fascismo clássico, onde o apelo à pureza étnica e cultural justificava a repressão de tudo o que fugisse à norma. Hoje, embora mais camuflado, o mesmo princípio orienta propostas como a criminalização de ONGs de apoio a migrantes, a expulsão de cidadãos estrangeiros “suspeitos” ou a eliminação de conteúdos pedagógicos sobre diversidade e género.
A identidade, usada como arma, torna-se eficaz quando as pessoas se sentem inseguras. E esse sentimento não nasce apenas de ameaças reais, mas também de discursos que manipulam a percepção da realidade. O medo, como sempre, é um motor poderoso de voto.
Comparações que incomodam: o fascismo de ontem e a extrema-direita de hoje
Há diferenças substantivas entre os fascismos do século XX e os actuais movimentos de extrema-direita. Não há (ainda) partidos-milícia, nem campos de extermínio. Mas há semelhanças estruturais inquietantes: o culto do líder, a deslegitimação da imprensa livre, o ataque às instituições judiciais, a manipulação da verdade através das redes sociais e a proposta de uma ordem social rígida e hierárquica.
Além disso, assistimos ao retorno da linguagem desumanizadora: migrantes são “invasores”, feministas são “ameaças à família”, jornalistas são “traidores”. É assim que se abre o caminho para a violência política, hoje cada vez mais visível em ataques a minorias, partidos democráticos e jornalistas.
E agora? Estamos preparados para resistir?
A história ensina-nos que a ascensão do fascismo não é inevitável, mas é sempre facilitada pelo silêncio e pela complacência. A resposta não pode ser apenas moral ou retórica — deve ser estrutural. Combater o fascismo contemporâneo exige mais do que apelos à tolerância: requer políticas públicas justas, revalorização dos serviços sociais, educação crítica e vigilância cidadã sobre os media e a linguagem do poder.
A democracia precisa de ser defendida não só nas urnas, mas no quotidiano. Na forma como escolhemos informar-nos, nas palavras que deixamos passar impunes, nos silêncios que consentimos. Porque o fascismo nunca começa com tanques — começa com ideias.