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Resumo

  • Desde o início da invação russa da Ucrânia, em Fevereiro de 2022, a imprensa ocidental mostrou — e bem — um enorme esforço em cobrir a guerra com profundidade, emoção e mobilização de recursos.
  • Mas desde Outubro de 2023, mais de 100 jornalistas palestinianos foram assassinados em Gaza, na ofensiva israelita — e a resposta mediática global tem sido marcada pela omissão, pela distância e, por vezes, pelo silêncio absoluto.
  • Em Fevereiro de 2024, a BBC foi forçada a emitir um pedido de desculpas por não ter corrigido uma alegação falsa sobre um….

Gaza vs Ucrânia, jornalistas mortos, cobertura mediática, racismo, empatia seletiva

Dois jornalistas morrem em zonas de guerra. Um é europeu, o outro palestiniano. Um recebe uma homenagem em directo. O outro nem sequer é nomeado. Porque é que a morte tem valor diferente, consoante o passaporte?

Desde o início da invação russa da Ucrânia, em Fevereiro de 2022, a imprensa ocidental mostrou — e bem — um enorme esforço em cobrir a guerra com profundidade, emoção e mobilização de recursos. Quando jornalistas ucranianos foram mortos, os seus nomes foram repetidos, os seus rostos mostrados, as suas vidas celebradas.

Mas desde Outubro de 2023, mais de 100 jornalistas palestinianos foram assassinados em Gaza, na ofensiva israelita — e a resposta mediática global tem sido marcada pela omissão, pela distância e, por vezes, pelo silêncio absoluto.

Será que o mundo mediático se importa mais com uns mortos do que com outros? E se sim, porquê?

Duas guerras, duas balanças

A comparação entre Gaza e Ucrânia não visa relativizar tragédias. Mas revela uma assimetria gritante no modo como os media escolhem cobrir o sofrimento — e quem o merece.

📊 Dados do CPJ (Comité para a Proteção de Jornalistas):

Ucrânia: 17 jornalistas mortos desde 2022.

Gaza: 104 jornalistas mortos entre Outubro de 2023 e Julho de 2024.

📺 Cobertura nos principais canais ocidentais (BBC, CNN, France 24, DW, Sky News):

Ucrânia: reportagens de fundo, enviados especiais, cobertura diária, nomes de jornalistas destacados em antena.

Gaza: ausência de enviados ao terreno, poucas reportagens centradas nas vítimas, jornalistas mortos raramente identificados.

“Não é só uma questão de quantidade de cobertura. É uma questão de qualidade da empatia”, afirma a investigadora belga Charlotte Van Dycke, autora de um estudo comparativo sobre cobertura de conflitos.

O racismo da empatia seletiva

A empatia mediática não é neutra. É construída por códigos culturais, preconceitos históricos e políticas editoriais.

Quando se fala de Ucrânia, os media enfatizam:

Vítimas inocentes.

Resistência democrática.

Brutalidade do agressor.

Quando se fala de Gaza:

Evita-se o uso da palavra “ocupação”.

Desumanizam-se as vítimas com termos como “ligados ao Hamas”.

Os jornalistas palestinianos são muitas vezes referidos apenas como “pessoas ligadas aos media”.

“A empatia é racializada. O jornalista europeu é mártir. O jornalista árabe é estatística.”, denuncia Laila Sakran, professora de jornalismo comparado.

O que é invisível não é protegido

A diferença de cobertura tem consequências reais. A visibilidade pública protege. A invisibilidade expõe.

Jornalistas ucranianos mortos foram homenageados por chefes de Estado, parlamentares e organizações de imprensa. Receberam prémios póstumos, fundos de apoio às famílias, cobertura internacional.

Em Gaza, os filhos dos repórteres assassinados vivem entre escombros, sem proteção, sem justiça, sem sequer verem os nomes dos pais nas notícias.

“A guerra contra os jornalistas palestinianos é também uma guerra contra a sua memória”, afirma o repórter Tarek Al-Masri. “Não bastava matá-los. Era preciso também apagá-los.”

Narrativas de guerra: o que molda a comoção?

Ao analisar os guiões narrativos utilizados nos media, percebe-se o contraste:

Ucrânia: Europa, civilização, defesa da liberdade.

Gaza: instabilidade, terrorismo, “complexidade”.

A complexidade é, muitas vezes, a máscara da desresponsabilização.

“Quando se quer justificar a omissão, usa-se o argumento da complexidade. Quando se quer mobilizar consciências, usa-se o argumento da urgência”, escreve Edward Said no seu ensaio clássico Covering Islam. O princípio continua actual.

O papel do público: eco ou ruptura?

O público ocidental também tem responsabilidade. A indignação mediática é, em parte, calibrada pelas expectativas e reações da audiência. Mas os dados mostram mudança: as redes sociais têm forçado os grandes media a abordarem Gaza com mais atenção, pressionados por vídeos virais, denúncias em tempo real e jornalistas independentes.

Em Fevereiro de 2024, a BBC foi forçada a emitir um pedido de desculpas por não ter corrigido uma alegação falsa sobre um ataque a um hospital. Em Abril, o Guardian publicou um editorial inédito reconhecendo falhas na cobertura inicial da guerra.

A pressão funciona. Mas é lenta. E insuficiente.

Quando as mortes revelam a verdade sobre quem somos

A diferença na forma como os media tratam jornalistas mortos em Gaza e na Ucrânia não expõe apenas o racismo estrutural da informação internacional. Expõe também os limites da solidariedade profissional e da ética jornalística global.

O jornalista europeu é lembrado. O palestiniano é esquecido.

O primeiro morre como herói. O segundo, como incómodo.

Comparar o incomparável é desconfortável. Mas necessário. Porque só nesse desconforto se revela a verdade sobre a hierarquia mediática das vidas — e das mortes.

📍 Artigo baseado em bases de dados do CPJ, estudos académicos em cobertura de guerra (Universidade de Liège, Universidade de Columbia), análise de conteúdo de 5 canais internacionais e entrevistas com jornalistas palestinianos e europeus. Todos os dados foram verificados e cruzados para garantir coerência factual e rigor ético.

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