Resumo
- Fora do alcance dos algoritmos, do escrutínio jornalístico e das ferramentas tradicionais de fact-checking, o chamado dark social tornou-se o subsolo fértil da desinformação local e emocional.
- Uma fotografia de um autocarro “cheio de refugiados”, um áudio de uma “enfermeira desesperada” ou um vídeo fora de contexto bastam para incendiar o medo.
- Porque se a desinformação mudou de lugar, a resposta também tem de mudar de estratégia.
Lide:
Enquanto a atenção pública se concentra nas redes sociais abertas, é nos canais encriptados — como WhatsApp, Telegram ou Signal — que muitos dos boatos mais virais ganham força. Fora do alcance dos algoritmos, do escrutínio jornalístico e das ferramentas tradicionais de fact-checking, o chamado dark social tornou-se o subsolo fértil da desinformação local e emocional.
Corpo:
É num grupo de bairro, numa corrente familiar ou num canal de Telegram sem nome que se partilha “a verdade que a imprensa esconde”. A mensagem vem de alguém de confiança. O tom é íntimo, alarmista, por vezes supostamente solidário. “Avisa toda a gente antes que apaguem.” E a dúvida instala-se.
Estas redes privadas — invisíveis aos motores de busca e aos olhos dos moderadores — funcionam como estufas de rumores. Alimentam-se da proximidade emocional e da ausência de contraditório. E quando a desinformação atinge este circuito fechado, raramente volta à superfície — já causou impacto antes de ser desmentida.
“Estamos perante um fenómeno difícil de mapear. Não sabemos o que circula, nem quando. E quando damos por isso, já é tarde”, afirma Carla Sequeira, especialista em comunicação digital e segurança informacional.
A expressão dark social, cunhada originalmente para designar tráfego invisível entre utilizadores, ganhou contornos mais sombrios com o avanço da encriptação ponto-a-ponto. Plataformas como o WhatsApp, ao protegerem a privacidade dos seus utilizadores (uma conquista legítima), criaram também zonas impenetráveis à acção preventiva contra conteúdos falsos ou perigosos.
Este tipo de desinformação tem características muito próprias. É hiperlocal — fala de escolas concretas, bairros específicos, políticos “apanhados” em conversas privadas. Tem verniz de testemunho. E recorre a imagens e áudios difíceis de verificar, mas fáceis de partilhar. Uma fotografia de um autocarro “cheio de refugiados”, um áudio de uma “enfermeira desesperada” ou um vídeo fora de contexto bastam para incendiar o medo.
Ao contrário das fake news clássicas, o dark social não precisa de viralidade em massa. Basta circular dentro de uma comunidade para ter efeito. E muitas vezes, esses rumores nunca chegam à imprensa — ou chegam tarde, quando já causaram danos reputacionais, sociais ou até sanitários.
Como combater este fenómeno sem violar a privacidade?
A resposta passa por reforçar a literacia informacional e comunitária. Criar confiança em fontes fiáveis. Capacitar lideranças locais — professores, médicos, figuras de referência — a desmentir com empatia. E sobretudo, entender que a verdade, para ser eficaz, tem de ser distribuída onde a mentira se esconde: nas redes de confiança.
Porque se a desinformação mudou de lugar, a resposta também tem de mudar de estratégia. E isso exige mais do que tecnologia. Exige proximidade. E persistência.