Palantir em Portugal: NATO entrou, integradores estão no SNS - Sociedade Civil
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Resumo

  • Em 25 de março de 2025, a Agência de Comunicações e Informação da NATO assinou com a Palantir a aquisição do Maven Smart System NATO, plataforma de fusão de dados e apoio à decisão militar.
  • No projeto C01-i06 do Plano de Recuperação e Resiliência — Transição Digital na Saúde — o portal Mais Transparência identifica 300 milhões de euros de investimento, a SPMS como beneficiária e fornecedores como Capgemini Portugal entre os maiores contratados.
  • A investigação não estabelece, nesta fase, que a Palantir tenha software a operar no Serviço Nacional de Saúde, na AIMA, na Polícia de Segurança Pública ou em qualquer outro organismo civil do Estado português.

A NATO usa software da Palantir desde 2025; Portugal é membro fundador. Capgemini, Accenture e Deloitte, parceiras globais declaradas da empresa, têm contratos com o Estado português. O Governo continua sem explicar publicamente onde passa a fronteira.

A pergunta sobre a Palantir em Portugal já não se responde apenas com uma pesquisa pelo nome da empresa no Portal BASE. Pesquisa direta ao Portal BASE não devolve, à data desta verificação, contrato em que a Palantir surja como adjudicatária de entidade portuguesa. Esse facto é central. Também é insuficiente.

A porta NATO

Em 25 de março de 2025, a Agência de Comunicações e Informação da NATO assinou com a Palantir a aquisição do Maven Smart System NATO, plataforma de fusão de dados e apoio à decisão militar. A própria NATO anunciou que o sistema seria usado pelo Allied Command Operations no prazo de 30 dias. Em agosto de 2025, o Joint Warfare Centre começou a treinar pessoal aliado no uso operacional do software.

Portugal é membro da NATO e participa nas estruturas da Aliança. Isso não prova que militares portugueses específicos operem diretamente o sistema. Prova, sim, que uma infraestrutura adquirida pela NATO à Palantir entrou no ecossistema operacional de uma aliança da qual Portugal faz parte. Não há, até agora, comunicação pública detalhada do Ministério da Defesa Nacional ou do EMGFA sobre implicações portuguesas desse uso.

A porta dos integradores

Em dezembro de 2025, a Accenture foi nomeada parceira global preferencial da Palantir para transformação empresarial. A Deloitte apresentou em 2025 uma colaboração estratégica com a Palantir baseada em Foundry e AIP. A Capgemini surge ligada ao programa de certificação Palantir Foundry desde 2022.

As três empresas trabalham com administrações públicas europeias e têm presença em Portugal. A questão, portanto, não é apenas se a Palantir ganha contratos diretos. É se entra por consórcios, subcontratação, componentes ou metodologias integradas por parceiros.

O caso PRR-Saúde

No projeto C01-i06 do Plano de Recuperação e Resiliência — Transição Digital na Saúde — o portal Mais Transparência identifica 300 milhões de euros de investimento, a SPMS como beneficiária e fornecedores como Capgemini Portugal entre os maiores contratados. O objetivo oficial inclui interoperabilidade, atualização de sistemas, digitalização de registos e melhoria do acesso aos dados.

Não está documentado, na informação publicamente acessível, que algum destes contratos use tecnologia Palantir. Também não está excluído apenas pela ausência do nome Palantir no adjudicatário. Para saber mais, é preciso ler cadernos de encargos, anexos técnicos, subcontratações e contratos-quadro.

O léxico que repete

Há um terceiro indício, mais subtil. Concursos públicos de transformação digital no Estado português recorrem frequentemente a expressões como integração com múltiplas fontes, governação de dados, camadas de permissões e auditoria. São expressões normais no setor. Também são o léxico comercial da Palantir. Não provam nada. Sinalizam família tecnológica.

O que falta saber

A investigação não estabelece, nesta fase, que a Palantir tenha software a operar no Serviço Nacional de Saúde, na AIMA, na Polícia de Segurança Pública ou em qualquer outro organismo civil do Estado português. Estabelece que três condições estão satisfeitas: parcerias globais com integradores instalados em Portugal, contratos públicos em curso compatíveis com fusão de dados, ausência de comunicação institucional clara sobre o tema.

Estão por apurar: cadernos de encargos dos maiores contratos da SPMS no PRR-Saúde; resposta formal do EMGFA sobre implicações portuguesas do Maven Smart System NATO; resposta da AIMA, da SPMS e do Ministério da Administração Interna; documentação técnica de plataformas recentes de imigração e saúde.

A pergunta óbvia, para um cidadão que paga impostos para que o seu Estado integre os seus dados, é simples. Quem é que olha?

O Estado moderno raramente grita. Configura-se.

Fontes

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