Resumo
- a escola, a saúde, a habitação, o trabalho, a esperança de vida, a mortalidade infantil e o lugar das mulheres na sociedade.
- A expansão da escola pública, o alargamento da escolaridade obrigatória, a formação de professores, a abertura do ensino superior e a valorização social da educação transformaram o país.
- A melhoria das condições de vida, a vacinação, o acompanhamento da gravidez, os cuidados materno-infantis, a expansão da rede hospitalar e a criação do Serviço Nacional de Saúde foram decisivos.
O 25 de Abril de 1974 não mudou Portugal apenas nas urnas, nos partidos ou nos jornais sem censura. Mudou também a vida concreta: a escola, a saúde, a habitação, o trabalho, a esperança de vida, a mortalidade infantil e o lugar das mulheres na sociedade. A democracia não foi só uma ideia política. Foi uma transformação material.
Antes de Abril, Portugal era um dos países mais pobres da Europa Ocidental. Tinha elevados níveis de analfabetismo, mortalidade infantil muito alta, casas sem água canalizada, sem saneamento e sem banho. Centenas de milhares de portugueses emigravam. A Guerra Colonial consumia recursos, homens e futuro. Depois de Abril, o país entrou num ciclo de democratização, descolonização, alargamento da escola, criação do Estado social e integração europeia.
Nem tudo melhorou por causa exclusiva da revolução. A modernização económica, a entrada na CEE, as mudanças tecnológicas e as políticas públicas posteriores também contam. Mas sem o 25 de Abril não teria existido o quadro democrático que permitiu acelerar grande parte dessa mudança.
Analfabetismo: de país sem escola para escola de massas
Em 1970, cerca de um quarto da população portuguesa era analfabeta. O valor era ainda mais pesado entre as mulheres. O país que o Estado Novo apresentava como ordeiro era, na prática, um país onde demasiadas pessoas não sabiam ler nem escrever.
A democracia mudou esta realidade de forma profunda. A expansão da escola pública, o alargamento da escolaridade obrigatória, a formação de professores, a abertura do ensino superior e a valorização social da educação transformaram o país. Em poucas décadas, Portugal passou de uma sociedade com forte exclusão escolar para uma sociedade em que a frequência do ensino básico e secundário se tornou norma.
A escola democrática não resolveu todas as desigualdades. Persistem diferenças de origem social, território, rendimento e acesso ao ensino superior. Mas a escala da mudança é incontornável: antes de Abril, estudar era para muitos um privilégio; depois de Abril, passou a ser um direito.
Mortalidade infantil: a queda mais impressionante
Poucos indicadores mostram tão bem a transformação portuguesa como a mortalidade infantil. Em 1970, Portugal registava mais de 50 mortes por mil nados-vivos. Era um valor muito elevado para a Europa Ocidental. O país pobre, rural e sem acesso universal a cuidados de saúde deixava morrer demasiadas crianças no primeiro ano de vida.
Nas décadas seguintes, a mortalidade infantil caiu de forma extraordinária. A melhoria das condições de vida, a vacinação, o acompanhamento da gravidez, os cuidados materno-infantis, a expansão da rede hospitalar e a criação do Serviço Nacional de Saúde foram decisivos.
Este número conta uma história simples e brutal: a democracia também se mede em crianças que sobrevivem.
Poderiam argumentar que a mortalidade infantil caiu em muitos países por razões médicas e tecnológicas, não apenas políticas. É verdade. Mas a tecnologia só salva quando chega às pessoas. O que mudou em Portugal foi precisamente a capacidade de levar cuidados de saúde, prevenção e acompanhamento a camadas muito mais vastas da população.
Casas sem água, banho ou saneamento
O Portugal anterior a Abril tinha uma modernidade muito desigual. Havia crescimento económico em alguns sectores, investimento estrangeiro e emigração que enviava remessas. Mas milhões de pessoas viviam em condições habitacionais precárias.
Em 1970, mais de metade das casas não tinha água canalizada. Muitas não tinham instalações sanitárias, banho ou duche. O retrato é essencial para perceber o atraso social do país: a ditadura falava de império, mas muitas famílias portuguesas não tinham casa com condições básicas.
Depois de Abril, a habitação, o saneamento, a electrificação, o acesso à água e os equipamentos públicos melhoraram de forma significativa. Autarquias democráticas, investimento público, fundos europeus e pressão social contribuíram para mudar aldeias, vilas, bairros e periferias.
Ainda assim, a crise da habitação contemporânea mostra que progresso não significa problema resolvido. Portugal deixou para trás a falta generalizada de infraestruturas básicas, mas enfrenta hoje renda cara, dificuldade de acesso à compra, pressão turística e desigualdade urbana. A democracia não acabou com a questão da habitação; mudou-lhe a natureza.
Saúde: do acesso desigual ao Serviço Nacional de Saúde
Antes de Abril, o acesso à saúde dependia muito da condição social, da profissão, da região e da capacidade de pagar. Havia assistência, caixas de previdência e hospitais, mas não existia um sistema universal como o que viria a ser criado depois.
O Serviço Nacional de Saúde nasceu em 1979, já em democracia. A sua criação reflectiu uma ideia constitucional forte: a saúde deve ser um direito, não um privilégio.
O impacto foi profundo. Vacinação, medicina familiar, cuidados hospitalares, saúde materna, urgência, prevenção e acompanhamento passaram a integrar uma rede mais ampla. O SNS tornou-se uma das instituições centrais da democracia portuguesa.
Hoje enfrenta problemas sérios: listas de espera, falta de médicos de família, pressão nas urgências, envelhecimento da população e dificuldades de financiamento. Mas a sua existência continua a marcar uma fronteira histórica. Antes, a saúde estava mais dependente da sorte social. Depois, passou a ser uma responsabilidade pública.
Esperança de vida: viver mais e melhor
A esperança de vida aumentou muito em Portugal nas últimas cinco décadas. Este indicador resulta de múltiplos factores: saúde pública, alimentação, habitação, saneamento, educação, vacinação, segurança social, redução da mortalidade infantil e melhores cuidados médicos.
Viver mais anos não é apenas uma estatística. É avós que conhecem netos. É trabalhadores que chegam à reforma. É mulheres que sobrevivem ao parto. É doença tratada a tempo. É pobreza extrema menos tolerada como destino natural.
Mas o envelhecimento também trouxe novos desafios: pensões, solidão, cuidados continuados, dependência, pressão sobre o SNS e despovoamento do interior. A democracia prolongou a vida. Agora tem de responder à pergunta seguinte: como garantir dignidade numa sociedade envelhecida?
Mulheres: igualdade legal e mudanças sociais
Antes de Abril, as mulheres viviam sob forte desigualdade jurídica e social. A família era organizada em torno da autoridade masculina. A mulher casada tinha direitos limitados e a moral pública condicionava trabalho, sexualidade, maternidade e participação política.
Depois da revolução, a Constituição de 1976 consagrou a igualdade. Mudaram leis sobre casamento, divórcio, trabalho, direitos políticos e participação cívica. As mulheres entraram massivamente no ensino superior, no mercado de trabalho, na administração pública, nas profissões qualificadas e na vida política.
A mudança foi enorme, mas não completa. Persistem desigualdades salariais, violência doméstica, sobrecarga de trabalho não pago, dificuldades de conciliação familiar e sub-representação em alguns lugares de poder. Abril abriu a porta. As décadas seguintes mostraram que igualdade legal não chega sem transformação social.
Emigração: da fuga à pobreza à mobilidade europeia
Antes de 1974, a emigração era uma das grandes válvulas de escape do país. Muitos portugueses partiram para França, Alemanha, Luxemburgo ou Suíça. Alguns saíram clandestinamente, “a salto”, fugindo à pobreza, à falta de oportunidades ou à Guerra Colonial.
Depois de Abril, a emigração não desapareceu. Mudou de perfil. A integração europeia, a liberdade de circulação, a escolarização e a globalização criaram novas formas de mobilidade. Muitos continuaram a sair por necessidade económica, sobretudo em momentos de crise, mas já num contexto político diferente.
A diferença é essencial: antes, sair podia significar escapar a um país fechado; depois, passou muitas vezes a significar procurar oportunidades num espaço europeu aberto. A dor da partida continuou. O regime que a explicava mudou.
Voto, partidos e participação
Talvez o número mais político seja o da participação eleitoral. Em 1975, nas eleições para a Assembleia Constituinte, a participação foi massiva. Depois de décadas sem eleições livres, votar era quase um acto de celebração colectiva.
Com o tempo, a abstenção cresceu. Este contraste deve incomodar. A geração que conquistou o voto correu para as urnas; as gerações que nasceram com ele tendem, por vezes, a tratá-lo como dado adquirido.
Isto não significa que o país esteja condenado ao desinteresse. Significa que a democracia precisa de ser explicada, renovada e sentida como útil. Direitos herdados sem memória tornam-se frágeis.
O que os números não dizem
Os números mostram progresso, mas não contam tudo. Não contam a solidão de quem emigrou. Não contam o medo de falar antes de Abril. Não contam o trauma de ex-combatentes. Não contam a dor dos retornados. Não contam a pobreza escondida, a violência doméstica, as desigualdades regionais ou o desencanto de quem sente que a democracia prometeu mais do que cumpriu.
Também não devem ser usados como propaganda simplista. Portugal melhorou muito desde 1974, mas não porque todos os governos tenham acertado sempre ou porque todos os problemas tenham desaparecido. Melhorou porque passou a haver liberdade para escolher, contestar, corrigir, reivindicar e substituir o poder.
Essa é a diferença decisiva.
Porque estes dados importam hoje
Comparar Portugal antes e depois do 25 de Abril não serve para dizer que o presente é perfeito. Serve para impedir que o passado seja romantizado. A ditadura não foi apenas falta de partidos. Foi também atraso social, censura, guerra, desigualdade, medo e pobreza material.
Os números da democracia são imperfeitos, mas contam uma transformação histórica: menos analfabetismo, menos mortalidade infantil, mais esperança de vida, mais escola, mais saúde, mais direitos e mais capacidade de exigir.
Abril não resolveu Portugal. Deu aos portugueses instrumentos para o resolverem em liberdade.