Misoginia nas redes: onde falha o debate público sobre crimes sexuais - Sociedade Civil
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Resumo

  • Pediu “políticas concretas” contra o ódio, incluindo o discurso misógino que normaliza humilhação e intimidação — e que, por vezes, reaparece em “crónicas criminais” onde a vítima acaba julgada como se estivesse no banco dos réus.
  • em 2025, os crimes de ódio aumentaram e os crimes de violação sexual subiram cerca de 6%, segundo notícia da RTP baseada no relatório.
  • O seu retrato público aponta a violência doméstica como o principal motivo de apoio e assinala crescimento de crimes e outras formas de violência reportadas.

Em São Bento, na audição de 21 de abril, Isabel Moreira ligou duas coisas que o país insiste em separar: misoginia nas redes e violência no mundo real. Pediu “políticas concretas” contra o ódio, incluindo o discurso misógino que normaliza humilhação e intimidação — e que, por vezes, reaparece em “crónicas criminais” onde a vítima acaba julgada como se estivesse no banco dos réus. O ministro Luís Neves respondeu que há temas “que não têm momentos”. É uma boa frase. Mas a realidade exige mais do que frases.

O próprio Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) voltou a colocar no papel uma tendência inquietante: em 2025, os crimes de ódio aumentaram e os crimes de violação sexual subiram cerca de 6%, segundo notícia da RTP baseada no relatório. O relatório está disponível online e é, por si, um espelho do que vai ficando fora do debate televisivo.

A cultura do “ela provocou” é mais antiga do que a internet

Poderiam argumentar que a internet só amplifica o que sempre existiu. É verdade — e é a concessão necessária. O problema é o ritmo e a escala. Uma ideia misógina que antes se dizia num grupo fechado, hoje é algoritmo, “meme”, vídeo curto, comentário em cadeia. E quando essa cadeia encontra uma notícia sobre agressão sexual, o padrão repete-se: “Porque saiu?”, “Porque bebeu?”, “Porque estava ali?”. Daquela pergunta, fica a inversão sintática: à vítima, pede-se sempre explicação; ao agressor, pede-se tantas vezes silêncio.

Não é um debate teórico. A APAV registou, em 2025, 18.549 vítimas apoiadas e 111.854 atendimentos; o seu retrato público aponta a violência doméstica como o principal motivo de apoio e assinala crescimento de crimes e outras formas de violência reportadas. Não serve para provar causalidades, mas mostra dimensão e persistência.

Quando o ódio vira “entretenimento”, a prevenção perde

Há uma dúvida legítima do leitor: “Isto não é censura disfarçada?” Não. Ou, pelo menos, não tem de ser. Uma parte do que circula como misoginia nas redes é repugnante mas não é crime. Outra parte pode ser incitamento ao ódio, perseguição, ameaça, divulgação não consentida de imagens íntimas, assédio reiterado — e aí já não estamos na moral, estamos no direito e na proteção.

O que falha, demasiadas vezes, é a ponte entre denúncia e consequência: recolha de prova digital, resposta rápida, apoio às vítimas sem labirintos burocráticos. E falha também a literacia mediática dentro das redações: há formas de contar crimes sexuais que alimentam a culpabilização, mesmo sem intenção. Uma frase curta, para não fugir ao essencial: uma notícia pode ferir duas vezes.

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