Resumo
- Em 2014, visitou a Cisjordânia como parte de uma missão da ONU e testemunhou a demolição de uma escola em Hebron.
- Durante três anos, produziu relatórios rigorosos sobre o bloqueio a Gaza, os colonatos ilegais na Cisjordânia, o sistema legal de dois níveis imposto aos palestinianos e o papel das empresas internacionais na perpetuação da ocupação.
- O relatório de Março de 2025, intitulado “Anatomia de um Genocídio”, apresenta mais de 150 fontes, cruzando testemunhos de sobreviventes, imagens de satélite, relatórios forenses, bases de dados militares e actas parlamentares de Israel.
Retrato de uma jurista que desafia impérios, denuncia genocídios e põe em xeque a arquitectura dos direitos humanos internacionais
Quando Francesca Albanese entrou na sala do Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, a 25 de Março de 2025, trazia consigo mais do que um dossiê jurídico: trazia a acusação mais grave que um funcionário das Nações Unidas alguma vez fez a um Estado membro activo e apoiado por potências ocidentais.
“Estamos perante um genocídio em curso”, declarou, referindo-se à campanha militar israelita em Gaza. “E há empresas, governos e estruturas institucionais a facilitar esse crime.” As palavras fizeram eco, cortaram o ar — e acenderam uma tempestade diplomática sem precedentes.
Desde então, Francesca Albanese tornou-se alvo de uma campanha global de descredibilização, silenciamento e, mais recentemente, sanções pessoais impostas pelos Estados Unidos. Mas quem é, afinal, esta mulher que desafia as potências com a serenidade de quem sabe exactamente o que está a fazer?
De Roma a Genebra: o percurso que moldou uma relatora
Francesca Albanese nasceu em Roma, filha de um professor de filosofia e de uma tradutora. Estudou Direito na Universidade La Sapienza e especializou-se em direitos humanos e direito internacional humanitário em Harvard. Trabalhou com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) e foi conselheira jurídica para o Médio Oriente durante quase uma década.
A sua ligação à causa palestiniana não nasceu de militância, mas de observação empírica. Em 2014, visitou a Cisjordânia como parte de uma missão da ONU e testemunhou a demolição de uma escola em Hebron. O que viu mudou-a para sempre.
“Não se pode voltar ao tecnicismo depois de ver a lógica da ocupação ao vivo. O Direito não serve para manter o equilíbrio — serve para corrigir a injustiça”, diria mais tarde.
Uma nomeação com peso político
Foi eleita Relatora Especial da ONU para os Territórios Palestinianos Ocupados em Maio de 2022. A nomeação não foi pacífica: Israel contestou-a desde o início, alegando “parcialidade histórica”. Albanese recusou encontros bilaterais com embaixadores que exigissem alterações ao seu vocabulário jurídico.
Durante três anos, produziu relatórios rigorosos sobre o bloqueio a Gaza, os colonatos ilegais na Cisjordânia, o sistema legal de dois níveis imposto aos palestinianos e o papel das empresas internacionais na perpetuação da ocupação.
“Não sou activista. Sou jurista. E não me compete agradar a Estados — compete-me defender o Direito”, afirmou em entrevista à Al Jazeera.
O relatório que rompeu consensos
O relatório de Março de 2025, intitulado “Anatomia de um Genocídio”, apresenta mais de 150 fontes, cruzando testemunhos de sobreviventes, imagens de satélite, relatórios forenses, bases de dados militares e actas parlamentares de Israel. É um documento denso, metódico e juridicamente blindado.
Ali, Francesca Albanese não apenas denuncia a escala do massacre em Gaza — acusa Israel de cometer genocídio com intenção demonstrável, e identifica 38 empresas ocidentais que, directa ou indirectamente, facilitam ou beneficiam da ofensiva militar.
O efeito foi imediato: Israel exigiu a sua demissão; os EUA impuseram sanções económicas e restrições de mobilidade; e uma parte significativa da imprensa ocidental passou a ignorá-la.
A coragem de nomear — e as consequências de ousar
Albanese sabia ao que vinha. Em declarações recentes, afirma:
“O que me fizeram não é um erro — é uma estratégia. Visa silenciar futuros relatores. Visa destruir a autoridade do Direito Internacional.”
Foi acusada de antissemitismo, de simpatia por grupos armados, de parcialidade crónica. Mas os ataques raramente se concentram no conteúdo técnico dos seus relatórios. Apontam-lhe o tom, o estilo, as amizades, os tweets antigos.
É a táctica da difamação estrutural: quem não pode ser contestado nos factos, deve ser destruído na reputação.
Os apoios discretos — e o silêncio ruidoso
Apesar da campanha contra si, Albanese continua a receber apoio de organizações como Human Rights Watch, Amnistia Internacional, Centro Palestiniano para os Direitos Humanos, e de dezenas de académicos de renome em direito internacional.
Mas no seio da ONU, o isolamento é evidente. O secretário-geral, António Guterres, não comentou as sanções dos EUA. A maioria dos Estados europeus mantém-se em silêncio. Apenas África do Sul, Bolívia e Irlanda expressaram solidariedade explícita.
A máquina do multilateralismo, que deveria proteger os seus peritos independentes, parece impotente — ou cúmplice.
Francesca Albanese: a última relatora?
Com o mandato a terminar em 2025, tudo indica que Francesca Albanese não será reconduzida. A campanha para a sua substituição já começou — e, segundo fontes diplomáticas, há pressões para que o próximo relator “modere a linguagem” e “evite o termo genocídio”.
Se isso acontecer, o sistema de relatores especiais da ONU ficará profundamente descredibilizado — e os futuros peritos pensarão duas vezes antes de dizer a verdade com todas as letras.
A mulher que olhou o poder nos olhos
Francesca Albanese não é perfeita. É firme, intransigente, até incómoda. Mas a sua relevância ultrapassa o seu cargo: representa uma última linha de integridade num sistema internacional cercado por lobbies, chantagens e pactos de silêncio.
O que está em causa não é apenas o destino da Palestina. É o destino da ONU, dos direitos humanos e da própria ideia de justiça universal.