Operação Irmandade: 37 detidos numa rede neonazi com raízes no Chega - Sociedade Civil
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Resumo

  • A maior operação contra a extrema-direita violenta em Portugal desvendou ligações a um partido com assento parlamentar — e levanta perguntas que o Chega não quer responder.
  • A 20 de janeiro de 2026, a Polícia Judiciária deteve 37 pessoas em simultâneo, em todo o país, numa operação que desmantelou o Grupo 1143 — a organização neonazi mais activa em Portugal.
  • Em fevereiro de 2026, Tirso Faria, coordenador do núcleo do Grupo 1143 em Santo Tirso, afirmou que o deputado do Chega Rui Afonso inscreveu dezenas de membros do 1143 no partido, pagou as suas quotas e entregou entre 3.

A maior operação contra a extrema-direita violenta em Portugal desvendou ligações a um partido com assento parlamentar — e levanta perguntas que o Chega não quer responder

A 20 de janeiro de 2026, a Polícia Judiciária deteve 37 pessoas em simultâneo, em todo o país, numa operação que desmantelou o Grupo 1143 — a organização neonazi mais activa em Portugal. Entre os detidos: um agente da PSP que era militante do Chega e delegado eleito à convenção nacional do partido. Um sargento da Força Aérea. Três militantes ou ex-militantes do mesmo partido com representação na Assembleia da República.

Chamaram-lhe Operação Irmandade. Os 37 detidos têm idades entre 30 e 54 anos. Foram constituídos 15 arguidos. Foram realizadas 65 buscas com cerca de 300 inspectores. Apreendidas armas proibidas e vasto material de propaganda neonazi. O director da PJ declarou no próprio dia que os crimes de ódio em Portugal aumentaram sete vezes nos últimos anos.

Não havia nada de espontâneo nisto.

O grupo que se preparava para a guerra

O Grupo 1143 não é uma curiosidade marginal da internet. É uma organização estruturada, com núcleos locais, canais de Telegram activos e um líder histórico — Mário Machado — que continuava a dar instruções à rede mesmo depois de ser preso, em junho de 2025, por discriminação e incitamento ao ódio. Em janeiro de 2026, a sua pena foi aumentada para quatro anos.

O Ministério Público descreve o grupo como uma associação criminosa de inspiração nacional-socialista, racista e xenófoba. Os crimes imputados incluem discriminação, incitamento ao ódio e à violência, ameaça e coerção agravadas, ofensas à integridade física qualificadas e posse de armas proibidas. Segundo o MP, o 1143 preparava-se para ter natureza paramilitar e planeava, para 2026, acções ofensivas contra a comunidade muçulmana em Portugal.

Machado tem 51 anos e um currículo que percorre décadas do skinhead português. Fundou o Blood and Honour Portugal. Foi condenado por crimes de ódio em vários processos. Esteve preso. Voltou. No início de 2026, dirigia o 1143 a partir da prisão de Alcoentre. É um homem que o Estado português conhece há trinta anos.

As ligações que o Chega não explica

O detalhe que nenhuma cobertura jornalística inicial conseguiu ignorar: o agente da PSP detido era militante do Chega. Não um militante qualquer. Era delegado eleito à sexta convenção nacional do partido — o órgão máximo de deliberação interna.

O partido soube? Como é que um militante com ligações a uma organização neonazi chegou a delegado numa convenção nacional? Que mecanismos de triagem existem?

André Ventura não respondeu a estas perguntas. Na Renascença, a 22 de janeiro, declarou: “Qualquer pessoa pode ser militante do Chega.” Na CNN Portugal, quatro dias depois, recusou comentar a ligação do deputado Rui Afonso ao grupo neonazi e acusou os jornalistas de “quererem proteger os criminosos.”

João tem 34 anos, trabalha numa empresa de logística perto de Setúbal e votou no Chega nas últimas duas legislativas. “Não sou neonazi, não conheço neonazis”, disse quando contactado. “Mas começa a ser difícil explicar isto aos meus colegas.”

A concessão honesta: filiação num partido não é cumplicidade do partido. O Chega tem dezenas de milhares de militantes. Que três deles tenham ligações ao 1143 não prova que o partido como instituição promova essas ligações. O que está em causa é uma pergunta sobre os seus mecanismos de controlo. E essa pergunta, o Chega não respondeu.

O deputado, o neonazi e os 3.800 euros

Em fevereiro de 2026, Tirso Faria, coordenador do núcleo do Grupo 1143 em Santo Tirso, afirmou que o deputado do Chega Rui Afonso inscreveu dezenas de membros do 1143 no partido, pagou as suas quotas e entregou entre 3.500 e 3.800 euros para que fossem votar nas eleições internas.

Rui Afonso negou tudo. Reconheceu conhecer Tirso Faria como militante do Chega, mas garantiu que não há “qualquer ligação” entre si e elementos do 1143.

Tirso Faria é um arguido com interesse óbvio em construir narrativas. A sua declaração é uma alegação — relevante, mas não verificada. Não existe confirmação documental pública. Rui Afonso não foi constituído arguido neste processo. A pergunta mantém-se em aberto.

O mosaico da extrema-direita violenta

A lista dos 37 detidos é um mapa da extrema-direita violenta em Portugal. Além dos militantes do Chega, foram detidos membros do Ergue-te — extinto em junho de 2025 —, do extinto PNR, e um elemento da claque Super Dragões. O Diário de Notícias identificou 14 grupos no radar das autoridades portuguesas.

Os crimes de ódio aumentaram mais de 200% em cinco anos. Em 2024, foram registados 421 casos. A Operação Irmandade é a maior resposta operacional a esta tendência. É também a prova de que a tendência existe.

O que ainda falta saber

O processo está em curso. O que falta saber: se o MP vai investigar as alegações contra Rui Afonso; se o Chega vai instaurar processo disciplinar; quantos dos 52 visados têm ligações formais a partidos; o que acontece ao agente da PSP no plano disciplinar.

A Operação Irmandade respondeu a uma parte das perguntas. A outra parte ainda não tem resposta.

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