Resumo
- Não é um fenómeno abstrato – é o que aparece no grupo de família, no X, no Instagram, no TikTok, no canal de WhatsApp do candidato da moda.
- O site ou página é de um órgão de comunicação identificado ou de um “portal” que nunca tinhas ouvido falar.
- A conta que publicou o conteúdo existe há anos ou foi criada ontem, com meia dúzia de posts e uma bandeira agressiva no perfil.
Nas últimas eleições, a desinformação política entrou em força pelos telemóveis portugueses dentro: vídeos fora de contexto, frases “bombásticas”, gráficos sem fonte. Não é um fenómeno abstrato – é o que aparece no grupo de família, no X, no Instagram, no TikTok, no canal de WhatsApp do candidato da moda. A boa notícia: não precisas de ser perito em cibersegurança para te defender. Com cinco passos simples, consegues travar grande parte da manipulação antes que chegue ao teu voto.
Organizações internacionais e reguladores europeus identificam sempre os mesmos padrões: jogar com emoções fortes, explorar divisões políticas, manipular contexto e atacar quem faz perguntas. (Parlamento Europeu) Este guia reduz tudo isso a um gesto prático: parar alguns segundos antes de acreditar e partilhar.
1. Para, respira e repara na emoção
Quase toda a desinformação política começa no mesmo sítio: o estômago. Raiva, medo, nojo, humilhação – quanto mais intensa for a emoção, maior a probabilidade de estarmos perante manipulação. O Parlamento Europeu coloca “jogar com as emoções” no topo da lista de táticas de desinformação: textos e vídeos feitos para indignar primeiro e só depois informar (se é que informam). (Parlamento Europeu)
Primeiro passo, então, é quase físico:
se um conteúdo te deixa imediatamente furioso ou apavorado, não carregues logo em “partilhar”. Pergunta-te:
“Este texto quer informar-me ou quer usar-me como megafone?”
Numa conversa em casa, em Aveiro, uma mãe recebe um vídeo que “prova” que certo partido quer acabar com o 13.º mês. O coração dispara, os insultos começam a formar-se na cabeça. Ela quase partilha para o grupo da família, mas trava um segundo, repara na forma como o vídeo fala – tudo em maiúsculas, insultos, zero números. Só este pequeno travão já é metade da defesa.
2. Pergunta: quem está por trás?
Desinformação política não cai do céu. Tem sempre alguém com interesse por trás – um partido, um influenciador, uma página anónima, às vezes até uma potência estrangeira. Guias de literacia mediática insistem sempre neste ponto: vai à fonte antes de confiar. (unicef.org)
Checklist rápido:
- O site ou página é de um órgão de comunicação identificado ou de um “portal” que nunca tinhas ouvido falar?
- Consegues encontrar secção “sobre”, morada, nomes reais?
- A conta que publicou o conteúdo existe há anos ou foi criada ontem, com meia dúzia de posts e uma bandeira agressiva no perfil?
Sindicatos, bibliotecas e centros de cibersegurança têm todos o mesmo conselho: se não consegues perceber quem fala contigo, não lhes entregues a tua confiança política. (utopia.ut.edu)
3. Confirma noutros sítios (e não apenas na “tua” bolha)
Um dos truques mais eficazes contra a desinformação política é também dos mais simples: ver se mais alguém confiável está a dizer o mesmo. A UNICEF, por exemplo, recomenda que verifiques se outras fontes credíveis tratam o mesmo tema; se não houver eco em lado nenhum, a probabilidade de ser falso dispara. (unicef.org)
Na prática:
- Escreve no motor de busca a frase principal da notícia + “fact check” ou “verificação”.
- Vê se pelo menos dois meios diferentes (idealmente com linhas editoriais distintas) confirmam a história.
- Se a “bomba” só existe em páginas que se citam umas às outras, sem documentos, sem links oficiais, sem contraditório… desconfia.
Talvez este seja o ponto onde ouves a tua própria objeção: “Mas eu não tenho tempo para investigar tudo.” É verdade, ninguém tem. A ideia não é transformar cada scroll num trabalho académico; é escolher bem as batalhas: verificar aquilo que parece demasiado grave para ser engolido sem mastigar.
4. Desconfia de imagens e vídeos perfeitos demais
Na política, uma imagem vale, às vezes, mil manipulações. Hoje é relativamente fácil cortar, editar, reciclar ou até gerar imagens e vídeos com IA. Por isso, serviços de segurança e ciberagências recomendam duas perguntas básicas sempre que vês um conteúdo visual chocante: (Canadian Centre for Cyber Security)
- Pode estar fora de contexto?
Mesmo uma foto verdadeira pode ser usada como mentira: uma manifestação antiga apresentada como sendo de ontem, um incêndio noutro país vendido como se fosse em Portugal, uma imagem de Ano Novo descrita como “ataque a cerimónia religiosa”. - Posso verificar a origem?
Ferramentas de pesquisa inversa de imagens (Google Lens, TinEye e outras) permitem perceber onde apareceu aquela foto antes. Em segundos descobres se é antiga, manipulada ou tirada noutro sítio qualquer.
No vídeo, vale a mesma lógica: cortes bruscos, legendas histéricas, ausência total de fonte ou data são bandeiras vermelhas. Não precisas de saber editar vídeo para perceber quando te estão a servir um prato demasiado bem temperado.
5. Lê para lá do título – e procura o interesse escondido
Guias de literacia recomendam sempre a mesma pergunta-chave: “Isto serve para informar, vender, entreter ou manipular?” (Princeton Public Library) Na desinformação política, a resposta costuma ser fácil: manipular – o teu voto, o teu medo, o teu ódio.
Antes de partilhar:
- Lê o texto todo, não só o título.
- Vê se há dados concretos (números, datas, documentos) ou apenas adjectivos e insultos.
- Pergunta: “Quem ganha se eu acreditar nisto?” – um candidato, um partido, uma potência estrangeira, uma página que lucra com cliques? (Parlamento Europeu)
Numa esplanada em Lisboa, dois amigos discutem política. Um mostra um meme onde um candidato é apresentado como “traidor”, com uma frase fora de contexto. O outro não responde com um link, responde com uma pergunta: “Quem fez isto? O que é que eles ganham se tu o partilhares?” Às vezes, a melhor ferramenta contra a desinformação política é uma curiosidade saudável e insistente.
No fim, não precisas de ser detective – só não podes ser figurante
Há uma concessão honesta a fazer: estes cinco passos não são infalíveis. Nenhum guia, nenhum fact-check, nenhuma lei vai eliminar a desinformação política. Haverá sempre conteúdos que nos passam entre os dedos, momentos de cansaço em que clicamos sem pensar, falhas de julgamento.
Mas entre ser enganado todos os dias e, de vez em quando, falhar apesar de ter tentado, vai uma diferença gigantesca.
A democracia não pede que sejas perfeito; pede só que não entregues o teu poder de olhos fechados.
No fim, o gesto é simples e profundamente político:
antes de deixares que um post te mude o voto ou te roube a esperança, pára um segundo, faz este mini-checklist e lembra-te de que informado, votas tu – desinformado, votam por ti.