Resumo
- Entre 2019 e a atual legislatura, a extrema-direita em Portugal passou de um deputado isolado a uma bancada de 60 representantes, com mais de 22% dos votos nacionais.
- O problema é um ecossistema cognitivo onde a dúvida é tratada como fraqueza, a complexidade como insulto e a informação como munição identitária, não como matéria-prima para pensar.
- Eurobarómetros e relatórios internacionais mostram que, em Portugal, a televisão continua a ser a principal fonte de informação, mas redes como Instagram e WhatsApp já são o canal dominante para muitos jovens e adultos.
Entre 2019 e a atual legislatura, a extrema-direita em Portugal passou de um deputado isolado a uma bancada de 60 representantes, com mais de 22% dos votos nacionais.(Wikipédia) O salto é histórico, mas não é mágico. E não se explica apenas com salários baixos, frustração com a política ou ressentimento social. Explica-se também com algo menos visível: um défice de pensamento crítico e de curiosidade intelectual que atravessa gerações, geografias e classes.
O problema não são “eleitores burros” – essa caricatura é tão falsa quanto confortável. O problema é um ecossistema cognitivo onde a dúvida é tratada como fraqueza, a complexidade como insulto e a informação como munição identitária, não como matéria-prima para pensar.
O mito da inteligência e o verdadeiro problema
Confundimos muitas vezes inteligência com pensamento crítico. Uma pessoa pode gerir um negócio, tirar um curso superior, falar três línguas – e, ainda assim, pensar politicamente de forma rígida, binária, impermeável a factos. Inteligência é capacidade; pensamento crítico é prática.
É nessa brecha que a extrema-direita em Portugal se instala. Não precisa de convencer os eleitores de que são mais inteligentes; basta oferecer-lhes um guião simples para um mundo angustiante: “há os bons e os maus”, “nós e eles”, “o sistema e o povo”. O impulso de reduzir tudo a duas cores não é exclusivo de quem vota Chega – é humano. A diferença é quem o alimenta e com que responsabilidade.
Numa sociedade com baixa literacia mediática e digital, essa rigidez cognitiva encontra combustível permanente em mensagens que chegam sem contexto, sem contraditório e sem pausas. Estudos recentes sublinham precisamente a ligação entre iliteracia digital e maior vulnerabilidade à propaganda da extrema-direita em Portugal.(parc.ipp.pt)
Quando falta pensamento crítico, ganha o discurso simples
O pensamento crítico é a capacidade de avaliar fontes, pesar evidências, mudar de ideias perante factos novos. Não é um talento raro reservado a académicos; é uma competência cívica que se treina na escola, nos media, na conversa de café.
Onde essa competência falha, o espaço público enche-se de opiniões tratadas como factos, de desconfiança automática em relação à imprensa e de desprezo pela especialização. A extrema-direita em Portugal aprendeu depressa a explorar este terreno: transforma jornalistas em inimigos, académicos em “vendidos ao sistema”, estatísticas em “mentiras da elite”.(Repositório do Iscte)
Pode o leitor perguntar: “Mas votar Chega não é também um grito de protesto legítimo?” Claro que é – em muitos casos é mesmo isso. Seria desonesto ignorar a raiva perante a corrupção, a sensação de abandono em freguesias onde o Estado só aparece para cobrar impostos ou cortar serviços. O ponto é outro: esse protesto torna-se perigoso quando se cola a soluções mágicas, frases feitas e promessas que nunca são testadas contra a realidade.
Mais do que falta de inteligência, é falta de exercício crítico o que aqui está em causa.
Facebook, WhatsApp e uma curiosidade em colapso
Imagine-se a cena, que podia ser em Santarém, Setúbal ou na emigração na Suíça. Um homem de meia-idade, turno de noite num armazém, chega a casa e abre o WhatsApp: vídeos “explosivos”, recortes fora de contexto, frases com CAPS LOCK e três pontos de exclamação. Nenhum link para fontes fiáveis, nenhum convite a confirmar. Só a promessa de que “a TV esconde isto de ti”.
Ao fim de meses neste circuito fechado, qualquer notícia que contrarie essa narrativa passa a ser vista como traição. Bloqueiam-se amigos que discordam, silenciam-se familiares, começam a circular expressões antes impensáveis à mesa de domingo. Não “porque viu algo no Facebook” – isso seria simplista demais –, mas porque deixou de ver mais nada para além do Facebook.
Eurobarómetros e relatórios internacionais mostram que, em Portugal, a televisão continua a ser a principal fonte de informação, mas redes como Instagram e WhatsApp já são o canal dominante para muitos jovens e adultos.(JPN – JornalismoPortoNet) Quando essa migração para o digital não é acompanhada por literacia mediática, a curiosidade não se expande: encolhe. Em vez de abrir janelas, o feed fecha portas.
A própria Comissão Europeia descreve a manipulação de informação como uma ameaça directa às democracias, justamente porque mina a capacidade dos cidadãos tomarem decisões informadas.(European Commission) Se não ensinamos a ler este ambiente, deixamos o terreno livre a quem o usa para polarizar e radicalizar.
Não é falta de inteligência — é recusa em exercê-la
Convém ser claro: não é justo reduzir o crescimento da extrema-direita em Portugal ao défice de pensamento crítico. Pesam aí salários que não chegam ao fim do mês, serviços públicos degradados, desigualdades territoriais, uma justiça que parece sempre lenta para os poderosos e rápida para os pobres. Pesam também erros de partidos tradicionais que trataram o descontentamento como ruído.(reutersinstitute.politics.ox.ac.uk)
Mas seria igualmente irresponsável fingir que a dimensão cognitiva não conta. Quando a curiosidade é ridicularizada – “estás sempre com dúvidas” –, quando a nuance é tratada como cobardia e a mudança de opinião como incoerência, o que se castiga é precisamente o gesto democrático de pensar. A extrema-direita recompensa o contrário: a fidelidade emocional, a certeza permanente, a frase fácil que dispensa perguntas.
Não de inteligência carece a nossa democracia, mas de pensamento crítico exercido em voz alta.
Curiosidade é um músculo social. Atrofia se não se usa, fortalece-se se o sistema educativo, os media e a própria política a valorizarem. Hoje, em Portugal, continuamos a tratar a educação para os media e para a informação como um “extra” – quando devia ser tão básica como aprender a ler ou a fazer contas.(Repositório ULisboa)
Uma democracia sem curiosidade
O risco é maior do que um ciclo eleitoral. Quando a dúvida se torna suspeita, a curiosidade se torna motivo de chacota e o pensamento binário domina, não é só a extrema-direita em Portugal que cresce – é o espaço público que encolhe. Fica mais pobre, mais ruidoso, menos capaz de resolver conflitos sem violência simbólica ou literal.
O combate à extrema-direita não se ganha apenas em campanhas eleitorais, nem apenas em tribunais ou com fact-checks pontuais. Ganha-se, sobretudo, no terreno lento e pouco glamoroso da cultura cívica: escolas que ensinam a perguntar, jornais que explicam em vez de apenas reagir, conversas em que discordar não significa expulsar o outro da comunidade.
Uma democracia sem curiosidade torna-se, aos poucos, uma democracia sem cidadãos – fica só com torcidas. E o que a extrema-direita em Portugal nos está a lembrar, brutalmente, é que ou levamos a sério o pensamento crítico como infra-estrutura democrática, ou continuaremos a acordar, eleição após eleição, surpreendidos com resultados que, na verdade, fomos nós que deixámos crescer.