Resumo
- À medida que discursos de exclusão ganham força no espaço público português, torna-se urgente recordar que, para a Igreja Católica, a forma como tratamos o estrangeiro não é uma questão secundária — é um teste essencial à autenticidade da fé.
- O partido de André Ventura tem defendido publicamente medidas de expulsão massiva, a suspensão do apoio social a migrantes e o reforço de políticas securitárias nas fronteiras — numa lógica que vê o estrangeiro como ameaça e desordem.
- A acolher o migrante, a Igreja não está a fazer filantropia — está a obedecer a um mandato divino.
O acolhimento ao migrante como imperativo teológico
À medida que discursos de exclusão ganham força no espaço público português, torna-se urgente recordar que, para a Igreja Católica, a forma como tratamos o estrangeiro não é uma questão secundária — é um teste essencial à autenticidade da fé. A Doutrina Social da Igreja (DSI), reforçada pelas palavras e gestos do Papa Francisco, afirma inequivocamente que a xenofobia é incompatível com o Evangelho.
“Era estrangeiro, e acolhestes-me”
A frase, retirada do Evangelho segundo Mateus (25,35), não é uma metáfora. Jesus coloca o estrangeiro entre os mais vulneráveis e afirma que a salvação depende da resposta concreta que lhes damos. Esta leitura tem sido reiterada por sucessivos papas e está no coração da DSI, que reconhece no migrante não uma ameaça, mas um apelo ético à hospitalidade.
Na encíclica Fratelli Tutti, Francisco é contundente: “Os migrantes são nossos irmãos e irmãs em busca de uma vida melhor, longe da pobreza, da fome, das guerras e dos perigos graves.” O acolhimento, prossegue, “é inseparável da fidelidade ao Evangelho”.
A Igreja e o dever de hospitalidade
Ao contrário do que proclama parte da retórica política dominante, a Igreja nunca preconizou a construção de muralhas identitárias. A Obra Católica Portuguesa de Migrações (OCPM) insiste, desde a década de 1960, que os migrantes devem ser vistos como sujeitos de direitos, não como problemas a resolver.
A Cáritas Portuguesa, por seu lado, desenvolve há décadas programas de acolhimento e integração, baseados em três pilares: escuta, proximidade e apoio concreto. “A nossa missão não é filtrar pessoas por origem ou estatuto legal, mas reconhecer a dignidade humana em cada rosto”, explica uma colaboradora da instituição.
Esta postura é alicerçada em documentos como a Constituição Pastoral Gaudium et Spes, que define a pessoa humana como “centro e fim de toda a vida social”. Não há exceções étnicas, geográficas ou culturais. O ser humano, para a Igreja, não se mede pela nacionalidade.
Chega e a política da suspeição
É neste contexto que se torna impossível ignorar a colisão entre o pensamento cristão e a narrativa xenófoba promovida pelo Chega. O partido de André Ventura tem defendido publicamente medidas de expulsão massiva, a suspensão do apoio social a migrantes e o reforço de políticas securitárias nas fronteiras — numa lógica que vê o estrangeiro como ameaça e desordem.
Mais preocupante ainda é a tentativa de conferir a estas propostas uma roupagem moralmente aceitável. Ao falar em “defesa da cultura cristã”, Ventura e os seus seguidores procuram legitimar a exclusão com base numa identidade religiosa que, ironicamente, contraria o próprio ensinamento cristão.
O Papa Francisco alertou para esta contradição num discurso aos movimentos populares: “Nenhum cristão pode justificar a rejeição do outro com base na fé. Se o faz, está a perverter o Evangelho.”
Uma espiritualidade das fronteiras abertas
Vários teólogos católicos têm sublinhado que a fronteira, na espiritualidade bíblica, é sempre um lugar de encontro, não de separação. De Abraão a Moisés, de Maria a Paulo, todos os grandes protagonistas da história da salvação são migrantes. Jesus, ainda bebé, foi refugiado no Egipto. E ao longo do seu ministério, deslocou-se de cidade em cidade, cruzando regiões e acolhendo estrangeiros — como a mulher samaritana ou o centurião romano.
“A fé cristã nasce do deslocamento e da abertura”, escreve o jesuíta espanhol José Ignacio González Faus. “Reduzi-la a um nacionalismo fechado é matá-la na raiz.”
A hospitalidade como profecia
A acolher o migrante, a Igreja não está a fazer filantropia — está a obedecer a um mandato divino. E quando o faz em contextos adversos, assume um papel profético. “A hospitalidade torna-se resistência quando o mundo escolhe o medo”, afirma uma teóloga portuguesa ligada à Universidade Católica.
É precisamente isso que está em causa: a escolha entre um cristianismo cómodo, cultural e passivo, e uma fé viva que se traduz em gestos concretos de inclusão, mesmo quando estes contrariam o discurso dominante.
Fé que acolhe ou fé que exclui?
O dilema é profundo e interpela cada crente. Ou se opta por um cristianismo de cruzes em cartazes e slogans patrióticos, que instrumentaliza símbolos religiosos para defender muros e deportações; ou se escolhe seguir o Cristo que se identifica com o forasteiro, o excluído, o “outro”.
Num tempo em que o racismo se disfarça de “preocupação identitária” e o nacionalismo se reveste de linguagem religiosa, a doutrina católica é clara: nenhuma fronteira pode legitimar o abandono de um ser humano. E nenhuma fé pode sobreviver onde se nega a dignidade do outro.