Confiança nas instituições em Portugal: quem acreditamos – e quem já não leva crédito - Sociedade Civil
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Resumo

  • Os portugueses confiam mais na polícia do que no Parlamento, mais nos tribunais do que nos partidos e mais “nas pessoas em geral” do que no Governo.
  • o que é que isto nos diz sobre a saúde democrática e a tal “confiança nas instituições Portugal”.
  • Já os tribunais e o sistema judicial recolhem 45% de confiança, números que sobem ligeiramente, mas convivem com a perceção de justiça lenta e desigual – tema que a Comissão Europeia repete nos relatórios sobre o Estado de Direito.

Os portugueses confiam mais na polícia do que no Parlamento, mais nos tribunais do que nos partidos e mais “nas pessoas em geral” do que no Governo. O retrato vem do inquérito da OCDE sobre confiança nas instituições, publicado em 2024, e confirma uma sensação difusa: não é a democracia em si que está em causa, é sobretudo quem a representa. OECD+1

Segundo a OCDE, 65% dos inquiridos em Portugal dizem confiar na polícia, 57% confiam noutras pessoas, 45% confiam nos tribunais e no sistema judicial. Já o Governo e o Parlamento ficam bem abaixo: apenas 31% confiam na Assembleia da República e 18% nos partidos políticos. OECD+2Portugal Resident+2

Não é propriamente surpresa. A pergunta, essa, é outra: o que é que isto nos diz sobre a saúde democrática e a tal “confiança nas instituições Portugal”?


Governo, Parlamento, partidos: o triângulo da desconfiança

Os dados do Eurobarómetro 2024 mostram que mais de 60% dos portugueses “tendem a não confiar” no Parlamento, valor acima da média europeia. A confiança no Governo é um pouco mais alta – cerca de 41%, depois de uma subida recente – mas continua em terreno instável. Portugal Resident+1

Na prática, isto traduz-se em cenas muito concretas.

Micro-história: Ana, 42 anos, funcionária administrativa, lembra-se de três eleições em quatro anos, governos de curta duração, casos mediáticos de corrupção e promessas repetidas sobre saúde e habitação. “Votar, voto. Mas confiar mesmo, só quando vejo as coisas a mudar”, resume. Confia mais na diretora da escola da filha do que em qualquer ministro.

Aqui entra a objeção clássica: “Mas os portugueses sempre desconfiaram da política, isto não é novo.”

Concessão honesta: é verdade que a confiança em partidos e parlamentos é estruturalmente baixa em quase toda a Europa. Mas em Portugal ela cruza-se com outros sinais – abstenção elevada, forte percentagem de indecisos e fragmentação partidária, como sublinham os últimos estudos do ICS/ISCTE e as sondagens pré-eleitorais de 2025. Reuters+1

Quando muitos deixam de acreditar que “alguém” os representa, a democracia continua de pé, mas o chão começa a estalar.


Justiça, polícia e media: confiança moderada, dúvidas persistentes

Na outra ponta da escala, a polícia é a instituição com mais crédito. Dois em cada três portugueses dizem confiar na polícia, um valor alinhado com a média da OCDE. OECD

Já os tribunais e o sistema judicial recolhem 45% de confiança, números que sobem ligeiramente, mas convivem com a perceção de justiça lenta e desigual – tema que a Comissão Europeia repete nos relatórios sobre o Estado de Direito. OECD+2Portal Europeu de Dados+2

Micro-história: Rui, dono de uma pequena empresa, espera há quatro anos por uma decisão num tribunal administrativo. “Confio mais no polícia de bairro do que no sistema que devia resolver o meu caso”, diz. Para ele, a confiança na justiça Portugal existe no papel; na fila do tribunal, evapora.

Os media surgem com cerca de 39% de confiança, segundo a OCDE. OECD É um valor médio, marcado por ambivalência: os portugueses reconhecem a importância do jornalismo, mas desconfiam de interesses económicos, guerras partidárias e desinformação.


Porque confiamos mais em “pessoas” do que em instituições?

Um dado do inquérito da OCDE passa muitas vezes despercebido: 57% dos portugueses dizem confiar em “outras pessoas” – mais do que em quase todas as instituições políticas. OECD

A leitura possível:

  • o país mantém um capital de confiança interpessoal relativamente forte – vizinhos, colegas, redes de apoio;
  • mas esse capital não se transfere automaticamente para quem governa, legisla ou decide políticas públicas.

É quase uma inversão curiosa: de baixo para cima, a confiança existe; de cima para baixo, esbarra numa parede de promessas falhadas.


Abstenção, polarização e cansaço: o que os dados não mostram sozinhos

Estudos recentes sobre polarização Portugal sugerem que o país continua abaixo de casos extremos europeus, mas não totalmente imune a um aumento de hostilidade entre campos políticos, alimentado por redes sociais e retórica populista. ojs.labcom-ifp.ubi.pt+3Iscte+3Repositório Iscte+3

Quando juntamos as peças – baixa confiança em partidos, abstenção alta, mais indecisos do que apoiantes de qualquer partido em algumas sondagens, crescimento de discursos de “todos iguais” – o risco já não é tanto “golpe” ou colapso institucional. É outro: o de uma democracia em que muitos votam sem acreditar, outros desistem e alguns procuram saídas simples em soluções radicais. Reuters+1

Concessão honesta: confiança nas instituições sobe e desce com ciclos económicos, escândalos, mudanças de governo. Não é uma sentença definitiva sobre o país. Mas séries longas mostram que, em Portugal, os baixos níveis de confiança política são crónicos – e isso torna cada crise um pouco mais perigosa. OECD+2OECD+2A frase de impacto talvez tenha de ser esta: quando a confiança nas instituições não acompanha a confiança nas pessoas, a democracia passa a viver de improviso – aguenta-se, mas não descansa nunca.

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