Políticas Trump: o custo real entre 2017 e 2025 - Sociedade Civil
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Resumo

  • O que aconteceu à economia, à saúde pública e à posição externa dos Estados Unidos quando “America First” deixou de ser frase de comício e passou a ser programa de governo.
  • As tarifas comerciais encolheram o PIB em cerca de 0,7%, o corte de impostos de 2017 acrescentou 2,3 biliões de dólares à dívida federal, a mortalidade na pandemia foi 40% superior à média do G7 e os planos de deportação em massa para 2025 ameaçam retirar 133 mil milhões de dólares à Segurança Social ao longo de uma década.
  • Apresentada como motor de crescimento, canalizou a maior fatia dos benefícios para o topo da distribuição de rendimentos e para grandes empresas cotadas, que utilizaram uma parte significativa das poupanças em buybacks — recompras de ações — em vez de investimento produtivo.

O debate sobre Donald Trump costuma resumir-se a slogans, indignação e fidelidades tribais. Mas oito anos depois do início do primeiro mandato e com uma nova agenda detalhada para voltar à Casa Branca, é possível olhar para as políticas Trump com outra lente: a da contabilidade fria. O que aconteceu à economia, à saúde pública e à posição externa dos Estados Unidos quando “America First” deixou de ser frase de comício e passou a ser programa de governo?

Os números são menos barulhentos do que os comícios, mas mais teimosos. As tarifas comerciais encolheram o PIB em cerca de 0,7%, o corte de impostos de 2017 acrescentou 2,3 biliões de dólares à dívida federal, a mortalidade na pandemia foi 40% superior à média do G7 e os planos de deportação em massa para 2025 ameaçam retirar 133 mil milhões de dólares à Segurança Social ao longo de uma década. A fatura das políticas Trump, mostram os dados, foi paga sobretudo dentro de portas.

O mito do nacionalismo económico

Trump prometeu que as tarifas fariam “a América ganhar outra vez” porque seriam, alegadamente, pagas pela China e por outros rivais. A realidade foi bem menos épica. Estudos sobre o período 2018-2020 mostram que os custos das tarifas sobre aço, alumínio e milhares de produtos chineses foram repercutidos quase integralmente em empresas e consumidores norte-americanos, não nos exportadores estrangeiros.

A história de Mike, proprietário de uma lavandaria em Ohio, ilustra essa transferência silenciosa. Em 2016, cada máquina de lavar industrial que comprava custava cerca de 800 dólares. Três anos depois, pagava mais 80 a 100 dólares por unidade. Não mudou de fornecedor, não aumentou salários, não investiu mais — limitou-se a apertar margens e a adiar a substituição de equipamentos. É assim, caso a caso, que uma perda de 0,7% do PIB se instala na economia: em decisões pequenas, espalhadas por milhões de negócios.

As políticas Trump venderam-se como defesa da classe trabalhadora industrial, mas beneficiaram sobretudo sectores protegidos e alguns grandes produtores nacionais, enquanto penalizaram cadeias de abastecimento inteiras. O mesmo padrão repete-se na reforma fiscal de 2017. Apresentada como motor de crescimento, canalizou a maior fatia dos benefícios para o topo da distribuição de rendimentos e para grandes empresas cotadas, que utilizaram uma parte significativa das poupanças em buybacks — recompras de ações — em vez de investimento produtivo. O resultado: dívida pública a subir 2,3 biliões de dólares num ciclo de expansão económica, precisamente quando um país deveria reforçar reservas para a próxima crise.

É verdade que o desemprego se manteve historicamente baixo durante boa parte do mandato Trump. A objeção é legítima: se as políticas Trump eram tão danosas, por que é que a economia parecia “ir bem”? Porque muitos indicadores positivos derivavam de tendências anteriores — a recuperação pós-crise financeira já em curso desde 2010 — e de um contexto global favorável. O que as políticas Trump fizeram não foi colapsar a economia de imediato, foi enfraquecer os amortecedores para o dia em que algo corresse mal.

O preço humano das políticas Trump

Quando a pandemia chegou, em 2020, essa fragilidade ficou exposta. A resposta federal foi errática, conflituosa com os próprios peritos de saúde pública e permeável à polarização partidária. Comparando com países do G7 de rendimento semelhante, os EUA registaram um excesso de mortalidade cerca de 40% superior. Traduzido em vidas, são centenas de milhares de mortes que os modelos consideram evitáveis com outra combinação de liderança política, comunicação de risco e políticas de saúde.

Na casa de Ana, enfermeira no Texas, essa estatística tem nome próprio. O pai, diabético mas estável, adiou durante meses consultas e exames porque o hospital público onde era seguido estava saturado e a mensagem política minimizava o risco. Quando finalmente entrou nas urgências, com falta de ar, não resistiu. A certidão de óbito diz “complicações da covid-19”; a filha lê ali também “demora, confusão e improviso”. Frágil, ficou o país, não forte.

As políticas Trump não se limitam ao passado. Os planos detalhados por assessores e grupos aliados para um segundo mandato incluem uma operação de deportação em massa de milhões de imigrantes irregulares. Para lá da questão moral, a análise económica é clara: retirar, em poucos anos, uma fatia tão grande da força de trabalho provocaria uma quebra de entre 2,6% e 6,2% no PIB, segundo diferentes modelos, e abriria um buraco estimado de 133 mil milhões de dólares na Segurança Social em dez anos.

A ironia é cruel. Em nome de “proteger” os americanos, as políticas Trump arriscam, se forem levadas à prática, reduzir precisamente a capacidade do Estado para pagar pensões e financiar serviços de saúde para os próprios cidadãos mais velhos. Quando se transforma gente em número descartável, o que se torna descartável é também a rede de proteção de todos.

A erosão silenciosa das instituições

Há danos que não aparecem nas contas nacionais de um ano para o outro, mas moldam décadas: são os impactos institucionais das políticas Trump. Um dos exemplos mais reveladores é o plano conhecido como “Schedule F”, desenhado no final do primeiro mandato e retomado na agenda para 2025. A ideia central é reclassificar até 50 mil funcionários públicos de carreira — técnicos, economistas, cientistas, juristas — para os tornar livremente demissíveis e substituíveis por leais políticos.

Na prática, as políticas Trump tratam a administração pública como extensão do partido e não como infraestrutura profissional do Estado. O dano não se mede apenas em despedimentos, mede-se na saída voluntária de quadros qualificados, na quebra de confiança interna, na autocensura de quem fica. Uma agência ambiental que teme represálias por publicar dados incómodos, ou um centro de controlo de doenças pressionado para alinhar com a mensagem política, perde capacidade de antecipar e gerir crises futuras.

O mesmo se passa no plano externo. A saída unilateral do acordo nuclear com o Irão e do Acordo de Paris sobre o clima não resultou em melhores condições negociais para Washington. Deu espaço a outros actores — nomeadamente a China — para se apresentarem como parceiros previsíveis e, em alguns dossiês, mais fiáveis. Os índices internacionais de confiança nos EUA caíram durante o mandato Trump e, embora parte dessa perda tenha sido recuperada depois, o mundo aprendeu uma lição simples: a palavra americana pode mudar radicalmente de eleição para eleição.

Convém admitir onde esta crítica às políticas Trump não chega. A desconfiança de uma parte do eleitorado em relação às elites políticas, mediáticas e técnicas não nasceu com Trump, nem desaparecerá sem ele. Há queixas reais — desigualdade salarial, desindustrialização, sensação de abandono — que foram ignoradas durante demasiado tempo. Mas reconhecer a origem dessa revolta não obriga a aceitar soluções que, em nome da “ruptura”, corroem precisamente as ferramentas que um país precisa para se reconstruir.

Um país mais frágil para a próxima tempestade

No balanço final, as políticas Trump não produziram o colapso imediato que muitos temiam, nem a revitalização duradoura que os seus defensores prometiam. Produziram algo mais insidioso: um país mais endividado, mais dividido, com instituições técnicas menos protegidas e uma reputação externa mais volátil.

A imagem talvez mais justa seja a do edifício em que se adia a manutenção. Para mostrar resultados rápidos, vende-se ferro da estrutura, cancela-se o seguro, pinta-se a fachada. Por fora, tudo parece renovado; por dentro, enfraquecem-se as vigas. Assim funcionaram, na prática, muitas das políticas Trump.

A dúvida essencial já não é se se gosta ou não do estilo de Trump, mas se um país com este nível de dívida, esta taxa de mortalidade evitável e esta erosão institucional terá condições para enfrentar a próxima crise — seja uma nova pandemia, um choque financeiro ou um conflito global. Os números não respondem a questões morais, mas deixam um aviso claro: quando se governa contra a própria capacidade do Estado, a fatura chega sempre, e chega a casa.

No fim, o preço das políticas Trump não se mediu apenas em pontos de PIB ou em gráficos de dívida, mediu-se em cadeiras vazias à mesa do jantar e em Estados menos capazes de proteger quem lá se senta.

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