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Resumo

  • O relatório da ONU denuncia não apenas os fabricantes, mas também intermediários locais e empresas de construção que operam nos colonatos e zonas militarizadas.
  • Em 2022 e 2024, consórcios liderados por firmas israelitas e estrangeiras obtiveram contratos de reconstrução com fundos doadores da União Europeia e do Banco Mundial, levantando sérias questões éticas sobre a neutralidade e coerência destes apoios.
  • Algumas empresas foram retiradas de fundos éticos de pensões – como a JCB no Reino Unido ou a Volvo na Noruega – mas essas decisões têm impacto limitado e não afectam as vendas estatais ou militares.

Não são apenas bombas que caem sobre Gaza. Caem casas, escolas, hospitais, redes de esgotos e sonhos. E com cada estrutura que desaba, alguém factura. O mais recente relatório da ONU, From economy of occupation to economy of genocide, revela o lado mais obscuro – e altamente rentável – do conflito: o negócio da destruição.

Empresas de maquinaria pesada, engenharia e construção têm beneficiado sistematicamente da campanha de demolições levada a cabo pelas forças israelitas nos territórios palestinianos. O fenómeno não é novo. Mas nunca foi tão sistemático, nem tão documentado. Por detrás de cada casa destruída há contratos, vendas, exportações e lucros. A ocupação virou economia. A destruição, mercado.


Demolição em série, lucro em crescendo

De acordo com a ONU, desde outubro de 2023 até julho de 2025, mais de 85 mil estruturas civis foram parcial ou totalmente destruídas em Gaza. Esta devastação de larga escala exigiu não apenas meios militares, mas maquinaria de alta potência: escavadoras, bulldozers, gruas e trituradores industriais.

Empresas como Caterpillar (EUA), Hyundai Heavy Industries (Coreia do Sul), Volvo Construction Equipment (Suécia) e JCB (Reino Unido) são apontadas como fornecedoras recorrentes de equipamentos utilizados em operações de demolição. Em muitos casos, os modelos utilizados mantêm os logótipos visíveis, e são identificáveis através de imagens captadas no terreno por jornalistas e organizações humanitárias.

Segundo o Who Profits, as escavadoras Caterpillar D9 são amplamente utilizadas para demolir casas de civis palestinianos, especialmente em Rafah e Khan Younis. Estas máquinas são modificadas pelas Forças de Defesa de Israel, tornando-se veículos blindados de penetração urbana – verdadeiros tanques com pá mecânica.


A cadeia de destruição: fabricantes, intermediários e construtoras

O relatório da ONU denuncia não apenas os fabricantes, mas também intermediários locais e empresas de construção que operam nos colonatos e zonas militarizadas. A israelita Shapir Engineering and Industry, contratada para obras em colonatos ilegais na Cisjordânia, e a Danya Cebus, responsável por projectos residenciais em territórios ocupados, são dois dos principais beneficiários.

Ambas trabalham com equipamento importado, muitas vezes adquirido com financiamento garantido por bancos e seguradoras internacionais. O ciclo é claro: o fabricante vende a máquina; a construtora obtém financiamento; o Estado israelita adjudica a obra; e o resultado é mais um bairro palestiniano varrido do mapa.

Trata-se de uma cadeia de valor que parte da destruição para culminar na reconstrução controlada – por Israel e por actores corporativos globais.


Destruição planeada, reconstrução controlada

A destruição em Gaza não é aleatória. É planificada, estratégica, metódica. Escolhem-se alvos que enfraqueçam a coesão social e impeçam a sobrevivência digna da população. Quando os edifícios não são destruídos por bombardeamento, são alvo de demolição posterior, com maquinaria pesada, para impedir o retorno da população ou eliminar vestígios de crimes de guerra.

Paradoxalmente, a reconstrução de Gaza após cada ataque é muitas vezes conduzida por empresas com ligações à destruição anterior. Estas empresas ganham tanto com a demolição como com a promessa de reerguer o que foi derrubado. A ONU alerta para o carácter “autoalimentado” desta economia, onde a guerra é pré-condição do lucro.

Em 2022 e 2024, consórcios liderados por firmas israelitas e estrangeiras obtiveram contratos de reconstrução com fundos doadores da União Europeia e do Banco Mundial, levantando sérias questões éticas sobre a neutralidade e coerência destes apoios.


Responsabilidade adiada, impunidade garantida

As empresas envolvidas invocam, quase invariavelmente, desconhecimento ou neutralidade. A Caterpillar afirma que não é responsável pelo uso dado aos seus produtos depois da venda. A Hyundai declara operar dentro dos padrões internacionais. Mas o relatório da ONU é categórico: a repetição, documentação e previsibilidade do uso destes equipamentos em contextos de violação dos direitos humanos tornam inadmissível o argumento da ignorância.

Apesar disso, nenhum fabricante foi até hoje sancionado internacionalmente. Algumas empresas foram retiradas de fundos éticos de pensões – como a JCB no Reino Unido ou a Volvo na Noruega – mas essas decisões têm impacto limitado e não afectam as vendas estatais ou militares.

A ausência de legislação vinculativa permite que a destruição seja contratada, exportada e rentabilizada sem obstáculos.


Conclusão: máquinas que matam em silêncio

Gaza é um cemitério de cimento e cabos eléctricos, onde os escombros não são apenas restos de guerra – são o produto final de um sistema económico bem oleado. As escavadoras e gruas que percorrem os bairros palestinianos não são apenas veículos de engenharia: são armas silenciosas de limpeza étnica.

A destruição tem marca, número de série, transportadora e fatura. E enquanto assim for, o genocídio continuará a ser um negócio de sucesso.


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