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Resumo

  • O que começa como um convite para treinos de sobrevivência ou artes marciais transforma-se, passo a passo, numa doutrinação ideológica que glorifica a violência, o autoritarismo e o ódio étnico.
  • Na Alemanha, o serviço de informações internas (BfV) já alertou para a infiltração de movimentos neonazis em ginásios de boxe e academias de artes marciais, promovendo eventos como o “Kampf der Nibelungen”, festival proibido mas reaparecido sob novos nomes.
  • A inteligência artificial, dizem os investigadores, está já a ser usada para criar vídeos hiper-realistas de propaganda, imitando cenários de guerra civil e conclamando jovens a “prepararem-se”.

Redes sociais, desporto de combate e “acampamentos culturais” disfarçam um projecto de radicalização que ameaça a segurança interna do continente. A nova geração do extremismo europeu já está em marcha.

Berlim, Budapeste, Bratislava, Roma — por toda a Europa, adolescentes e jovens adultos estão a ser aliciados para um universo de disciplina, força e identidade. O que começa como um convite para treinos de sobrevivência ou artes marciais transforma-se, passo a passo, numa doutrinação ideológica que glorifica a violência, o autoritarismo e o ódio étnico.

É a nova face da radicalização juvenil de extrema-direita, conduzida por grupos paramilitares organizados que operam nas franjas da legalidade. Alguns registados como associações culturais, outros camuflados sob desportos de combate ou patrulhas “cívicas”, estes movimentos multiplicam-se na última década, aproveitando brechas legais, redes sociais opacas e um sentimento crescente de desorientação entre jovens europeus.

Da Glorificação ao Alistamento

“O processo é gradual, mas eficaz”, explica Petra Marton, investigadora húngara em segurança e radicalização. “Primeiro vêm os convites inofensivos: caminhadas na floresta, treino físico, jogos de equipa. Depois surgem os manuais ideológicos, as palestras com veteranos, o culto da força e da pureza nacional.”

Marton acompanha de perto as actividades do Légió Hungária, uma das milícias mais ativas na Europa Central. Inspirado por simbologia fascista e por narrativas de reconquista territorial, este grupo utiliza a estética militar para atrair jovens, promovendo acampamentos regulares em zonas rurais e treinando com armas réplicas — às vezes reais.

Não é um caso isolado. Na Alemanha, o serviço de informações internas (BfV) já alertou para a infiltração de movimentos neonazis em ginásios de boxe e academias de artes marciais, promovendo eventos como o “Kampf der Nibelungen”, festival proibido mas reaparecido sob novos nomes. Em Itália, milícias como Lealtà Azione ou CasaPound apostam em eventos de “reconexão espiritual e cultural”, onde se misturam oratória, combate corpo-a-corpo e propaganda ultranacionalista.

Telegram e TikTok: As Novas Fronteiras

A radicalização deixou de ser apenas presencial. Plataformas como Telegram, Discord e TikTok são hoje o coração digital da extrema-direita juvenil. Nestes espaços, criam-se canais fechados onde se partilham memes, vídeos de treino, teorias da conspiração e, cada vez mais, manuais paramilitares traduzidos do russo ou do inglês.

De acordo com o relatório GLOBSEC 2024 sobre ciberextremismo, os conteúdos mais populares entre jovens aliciados pela extrema-direita incluem “narrativas de colapso civilizacional”, “mitos de substituição étnica” e “estética militarizada”. A inteligência artificial, dizem os investigadores, está já a ser usada para criar vídeos hiper-realistas de propaganda, imitando cenários de guerra civil e conclamando jovens a “prepararem-se”.

Vítimas (e Alvos) em Construção

Atraídos por um sentido de pertença, por estruturas hierárquicas claras e por uma promessa de redenção colectiva, milhares de jovens europeus tornam-se instrumentos — e por vezes autores — de violência política.

“A grande tragédia é que muitos destes jovens não são, à partida, racistas nem violentos”, lamenta Clara Gagnon, socióloga francesa especializada em juventude e extremismo. “São órfãos emocionais de uma sociedade fragmentada, que encontram nestes grupos o que não encontram nas suas comunidades ou famílias.”

Organizações como a Save the Children ou a Radicalisation Awareness Network (RAN) têm vindo a alertar para a ausência de políticas eficazes de prevenção da radicalização. Países como Suécia, Alemanha e Países Baixos tentam agora reforçar a vigilância sobre ginásios, clubes juvenis e plataformas digitais — mas o fenómeno ultrapassa fronteiras e linguagens.

E o Futuro?

Será possível desmobilizar este “exército nas sombras”? A resposta passa por mais do que segurança e repressão. Especialistas em desradicalização apelam a uma política integrada que una escolas, psicólogos, redes sociais e comunidades locais — antes que a próxima geração cresça empunhando bandeiras negras e simulando guerras no coração da Europa.

A ameaça é real. Mas também o é a possibilidade de a contrariar.


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