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Resumo

  • Em 2023, vídeos com legendas em português começaram a circular em canais de Telegram, contas de TikTok e páginas de Facebook dedicadas a “verdades ocultas” e “despertar de consciências”.
  • No espaço de meses, a transvestigação de Brigitte Macron estava a ser debatida — e partilhada — por milhares de utilizadores em Portugal e no Brasil, Angola e Cabo Verde.
  • Além disso, a falta de moderação em plataformas como Odysee e Rumble — onde muitos criadores expulsos do YouTube migraram — permitiu o alojamento e partilha dos vídeos originais sem restrições.

A teoria conspirativa transfóbica contra a primeira-dama francesa cruzou fronteiras e ganhou tração em comunidades digitais lusófonas — revelando falhas na resposta à desinformação online.


Um boato francês com sotaque português

Era uma teoria marginal, absurda, nascida nas franjas da extrema-direita francesa: Brigitte Macron teria nascido homem, sob o nome Jean-Michel Trogneux, e encoberto a sua identidade com o apoio das elites políticas e mediáticas. Mas o que parecia restrito ao território francês rapidamente se tornou um fenómeno transnacional. E Portugal não escapou.

Em 2023, vídeos com legendas em português começaram a circular em canais de Telegram, contas de TikTok e páginas de Facebook dedicadas a “verdades ocultas” e “despertar de consciências”. No espaço de meses, a transvestigação de Brigitte Macron estava a ser debatida — e partilhada — por milhares de utilizadores em Portugal e no Brasil, Angola e Cabo Verde.

Um relatório do Observatório da Comunicação (OberCom), em colaboração com a Universidade do Minho, confirma: entre 2023 e 2025, mais de 400 mil visualizações foram registadas em conteúdos em português que propagavam a teoria conspirativa.

A desinformação tem sotaque. E também passaporte.


Grupos portugueses de Telegram espalham teoria

A investigação do OberCom identificou seis grupos de Telegram portugueses — com nomes como “Despertar Global”, “Verdade & Liberdade” ou “Contra a Matrix” — onde vídeos sobre Brigitte Macron foram partilhados intensamente.

As publicações misturam narrativas negacionistas sobre vacinas, críticas à “agenda woke” e ataques a figuras femininas da política. Nomes como Elvira Fortunato, Catarina Martins e até Cristina Ferreira são referidos como “suspeitas” de esconderem a sua identidade de género. O padrão é claro: ataques transfóbicos mascarados de investigação amadora.

Muitos dos vídeos analisados eram dobrados ou legendados em português, com adaptação cultural: referências à maçonaria, ao sistema, à televisão estatal. É a globalização do delírio — com toque nacional.


Algoritmos promovem e traduzem o boato

O fenómeno não é espontâneo. É algorítimo.

Plataformas como YouTube e TikTok promovem vídeos com maior interação — independentemente da sua veracidade. E os conteúdos sensacionalistas, que apelam à desconfiança e ao escândalo, performam melhor do que a informação factual.

“Um vídeo que diz ‘Ela não é quem diz ser’ vai sempre ter mais cliques do que um desmentido oficial”, explica Ana Paiva, investigadora em media literacy na Universidade Católica. “E quando alguém vê um vídeo desses, a plataforma recomenda mais — mesmo que venham de outras línguas.”

Além disso, a falta de moderação em plataformas como Odysee e Rumble — onde muitos criadores expulsos do YouTube migraram — permitiu o alojamento e partilha dos vídeos originais sem restrições. Depois, os links são distribuídos em grupos privados no WhatsApp e Telegram.


O impacto em Portugal: desinformação sem resposta

Ao contrário de França, onde houve ações judiciais e desmentidos oficiais, em Portugal, a resposta institucional foi nula.

O Polígrafo, único órgão de verificação português com cobertura sistemática do tema, publicou uma peça sobre o caso em 2024. Mas não foi suficiente. A desinformação continua a circular, principalmente fora das redes mais visíveis — em canais privados, onde fact-checking não entra.

“O que estamos a ver é uma falência do sistema de literacia digital”, denuncia Rui Pacheco, diretor da associação Media Sábia. “As pessoas não sabem distinguir entre conteúdo credível e manipulação emocional. E o Estado não está a investir em campanhas eficazes.”

O Ministério da Educação lançou, em 2022, o plano “Educar para os Media”, mas a sua implementação é desigual. Nas escolas públicas, apenas 12% dos docentes abordam a desinformação de forma sistemática nas aulas, segundo um inquérito do Conselho Nacional de Educação.


Mulheres públicas em Portugal também são visadas

E o problema não se limita a figuras estrangeiras. Cristina Ferreira, a ministra Elvira Fortunato, a líder do PAN, Inês Sousa Real — todas foram mencionadas, em canais de Telegram ou publicações virais, como alvo de suspeitas transfóbicas.

Em muitos casos, os boatos são apresentados como “piadas” ou “suspeitas”, o que dificulta a responsabilização. Mas o efeito é real: descrédito, exposição, violência simbólica e medo.

Em resposta, algumas figuras públicas optaram por ignorar. Outras, como uma conhecida jornalista da RTP alvo de ataques semelhantes, apresentaram queixa. Mas até agora, nenhum caso foi julgado em tribunal português.


E o jornalismo?

A maioria dos media portugueses ignorou o caso Brigitte Macron, tratando-o como curiosidade internacional ou evitando-o por receio de amplificação. Mas essa omissão tem custos.

“O silêncio institucional e mediático contribui para a banalização do discurso transfóbico”, alerta Inês Ribeiro, jornalista e membro da rede internacional Gendered Disinfo Watch. “Quando o boato circula sem contraditório, parece legítimo. Quando não é desmentido, ganha força.”

A desinformação não precisa de provas. Basta que não encontre resistência.


O que pode ser feito em Portugal?

1. Reforçar a literacia mediática, com formação obrigatória nas escolas e campanhas públicas acessíveis.

2. Financiar redes de verificação e fact-checking, com especial atenção à desinformação de género.

3. Exigir mais transparência às plataformas, incluindo dados sobre conteúdos promovidos algoríticamente.

4. Responsabilizar judicialmente quem propaga boatos com impacto real na vida das pessoas.

5. Criar uma resposta coordenada entre media, academia, sociedade civil e autoridades.

Como afirma Marta Araújo, investigadora do CES: “O caso Brigitte Macron é um aviso para todos os países democráticos. Se não reagirmos, o próximo boato pode nascer cá — e destruir reputações com a mesma facilidade.”


De Paris a Lisboa, a mentira viaja depressa

As redes sociais tornaram-se o novo campo de batalha pela verdade. E em Portugal, como noutros países, as fronteiras da desinformação já foram há muito ultrapassadas.

O caso Macron mostra que ninguém está imune. Nem figuras públicas, nem cidadãs comuns. Num mundo digital onde cada vídeo pode tornar-se viral, o impacto de uma mentira não conhece limites — nem geografias.

Resta saber se Portugal está preparado para lidar com isso.

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