Resumo
- E o que está por trás não é apenas ignorância — é misoginia digital com contornos transfóbicos, que procura desacreditar, desumanizar e silenciar mulheres com poder ou visibilidade.
- No caso de Brigitte Macron, a teoria tomou forma em 2021 e explodiu nos anos seguintes com vídeos virais, tweets e montagens que insinuavam — com linguagem velada ou agressiva — que teria sido registada como “Jean-Michel Trogneux”, o nome do seu irmão.
- que o sistema está corrompido, que as elites mentem, que a verdade foi escondida — e que os seus instintos estão certos.
De Michelle Obama a Brigitte Macron, teorias conspirativas visam mulheres públicas com ataques transfóbicos. Especialistas alertam para nova forma de violência online.
Quando o ódio escolhe o corpo como alvo
Michelle Obama, Joan Baez, Jacinda Ardern, Marina Silva, Greta Thunberg. E agora Brigitte Macron. Todas mulheres públicas, todas alvo da mesma acusação falsa: que “na verdade” são homens. Esta nova forma de teoria da conspiração tem um nome: transvestigação. E o que está por trás não é apenas ignorância — é misoginia digital com contornos transfóbicos, que procura desacreditar, desumanizar e silenciar mulheres com poder ou visibilidade.
Na era das redes sociais e da pós-verdade, o género tornou-se arma de guerra política. Não se trata apenas de ofensa: trata-se de um ataque sistemático que visa fragilizar a imagem pública das mulheres, sobretudo aquelas que desafiam normas conservadoras de género ou ocupam posições de autoridade.
Mas porquê este tipo de boato? E por que razão tem tanto impacto?
“Ela nasceu homem”: a fórmula da suspeição
A acusação é sempre a mesma: a mulher em causa seria, supostamente, um homem que se fez passar por mulher. Para “provar” isso, conspiracionistas apontam alegadas “proporções faciais”, postura corporal ou padrões vocais, recorrendo a pseudo-ciência e análise visual distorcida. Em muitos casos, usam fotografias manipuladas ou imagens retiradas do contexto.
No caso de Brigitte Macron, a teoria tomou forma em 2021 e explodiu nos anos seguintes com vídeos virais, tweets e montagens que insinuavam — com linguagem velada ou agressiva — que teria sido registada como “Jean-Michel Trogneux”, o nome do seu irmão.
“É uma forma de acusação que funciona porque actua sobre os preconceitos enraizados: a ideia de que uma mulher com poder não pode ser ‘verdadeiramente’ mulher”, explica Marta Araújo, investigadora do CES (Centro de Estudos Sociais) da Universidade de Coimbra.
“Estas campanhas não são apenas transfóbicas. São, antes de tudo, misóginas. O objectivo é deslegitimar as mulheres no espaço público.”
Um ataque ao feminino… e à verdade
A transvestigação não é uma crítica ou sátira — é uma arma. O seu alvo são as mulheres que fogem ao ideal conservador: demasiado assertivas, demasiado velhas, demasiado influentes, demasiado visíveis. E o seu método é a humilhação pública com base numa alegação que, mesmo falsa, parece impossível de apagar.
O fenómeno tem ganhado força nos últimos anos através de redes como TikTok, Telegram, YouTube e até WhatsApp. Canais em português já espalharam vídeos a “provar” que Carolina Deslandes, Cristina Ferreira ou até a ministra Elvira Fortunato “não são mulheres verdadeiras”. A alegação é sempre grotesca — e sempre partilhada em tons “informativos” ou “suspeitosos”.
Segundo um relatório do EU DisinfoLab, entre 2023 e 2025, vídeos de teor transvestigador aumentaram 480% em redes sociais, com picos em países como Brasil, Portugal, França e EUA.
“Trata-se de uma nova forma de desinformação com rosto de entretenimento”, nota a jornalista digital Inês Rodrigues. “Os criadores destes conteúdos usam a linguagem dos tutoriais ou das análises ‘neutras’ para mascarar ódio puro.”
A teoria da conspiração como violência simbólica
Mas por que razão estas narrativas têm tanto apelo? Parte da resposta está na sua simplicidade. Num mundo complexo, polarizado e sobrecarregado de informação, estas explicações fáceis oferecem conforto cognitivo: tudo é manipulado, nada é como parece, e o público está a descobrir um segredo escondido. É a velha lógica do “nós contra eles”, agora com o corpo feminino como campo de batalha.
A psicóloga social Teresa Fonseca explica: “A desinformação de género opera numa zona de intersecção entre misoginia, transfobia e populismo. As teorias da transvestigação dizem às pessoas o que querem ouvir: que o sistema está corrompido, que as elites mentem, que a verdade foi escondida — e que os seus instintos estão certos.”
Isto não é apenas ofensivo — é violência. É uma forma de silenciamento simbólico, pois impede a presença plena das mulheres no debate público. Quem vai querer expor-se sabendo que o seu corpo será alvo de análise e escárnio?
De onde vem este ódio? E para onde vai?
Os grupos que promovem estas campanhas são diversos: contas anónimas, influencers de extrema-direita, canais “alternativos”, evangelistas digitais, youtubers a caçar visualizações. Muitos ganham dinheiro com isso: monetizam vídeos, vendem cursos, promovem conteúdos afiliados.
É o que investigadores como João Pedro Martins, da Universidade Nova, chamam de “conspira-entretenimento”: uma indústria paralela de influência que combina ódio com lucro.
E Portugal? Está no mapa. Uma pesquisa do OberCom identificou que vídeos sobre Brigitte Macron em português tiveram mais de 200 mil visualizações entre Telegram e TikTok. Em grupos fechados, circulam conteúdos sobre figuras portuguesas, sempre com insinuações de género.
“Não é um fenómeno importado. Já tem raízes na cultura digital lusófona”, alerta a investigadora Ana Paiva, que coordena um projecto europeu sobre desinformação e género.
Como travar este tipo de ataque?
Há várias formas de combater a transvestigação, mas nenhuma é simples. Algumas passam pela denúncia nas plataformas, outras por regulação de conteúdos, literacia mediática e, sobretudo, solidariedade social. “É preciso normalizar o confronto com a mentira, mas sem amplificar o boato”, defende Paiva.
Do lado jurídico, as soluções são limitadas. “É muito difícil tipificar este tipo de ataque como crime isolado”, diz o advogado Francisco Lobo, especializado em direito digital. “Pode enquadrar-se como difamação, mas a escala e o anonimato dos autores tornam a responsabilização muito difícil.”
O que está a acontecer com Brigitte Macron é, nesse sentido, um teste de fogo. Ao levar o caso a tribunal — e ao expor-se publicamente para o desmentir — a primeira-dama francesa está a arriscar tudo para restaurar os limites da verdade. Mas não o faz apenas por si.
“Está a dizer: basta. Basta usar o corpo das mulheres como arma política.”
A verdade não se mede ao espelho
Numa era de filtros, deepfakes e manipulações, a ideia de “provar” que alguém é homem ou mulher é absurda — e perigosa. Subverte tudo o que a ciência, o feminismo e os direitos humanos têm construído em defesa da autodeterminação e da igualdade.
As mulheres não têm de caber num molde para serem respeitadas.
E se hoje é Brigitte Macron a ser arrastada para o tribunal por causa de uma mentira grotesca, amanhã poderá ser qualquer mulher pública, jornalista, política, artista — ou qualquer cidadã comum que ouse existir com autonomia.
Num mundo onde tudo pode ser distorcido, defender a integridade das mulheres tornou-se um acto radical.
E talvez o primeiro passo seja nomear o problema: transvestigação é violência. Misoginia digital é uma epidemia. E combater estas mentiras é um dever democrático.