Resumo
- Nos corredores da Assembleia da República, nas salas de aula, nas redes sociais e até nas conversas em família, a linguagem do Chega contaminou o espaço público.
- Valores fundamentais — como a igualdade perante a lei, a proteção das minorias ou a dignidade da diferença — passaram a ser tratados como ingenuidade ou fraqueza.
- “O que mais me preocupa não é a violência do discurso — é o silêncio dos outros”, afirma a historiadora Inês Braga, da Universidade de Lisboa.
Lisboa, 28 de Julho de 2025
A ascensão política do Chega não se mede apenas em votos, mandatos parlamentares ou espaço mediático. Mede-se sobretudo no que estamos a perder: empatia, direitos, linguagem comum e fé nas instituições democráticas. O custo real de normalizar um partido de extrema-direita não é político — é moral. E, passo a passo, estamos a pagar esse preço.
Nos corredores da Assembleia da República, nas salas de aula, nas redes sociais e até nas conversas em família, a linguagem do Chega contaminou o espaço público. Expressões outrora inaceitáveis tornaram-se moeda corrente. Valores fundamentais — como a igualdade perante a lei, a proteção das minorias ou a dignidade da diferença — passaram a ser tratados como ingenuidade ou fraqueza.
A pergunta impõe-se com urgência: que democracia sobrevive quando os seus próprios pilares são corroídos a partir de dentro?
A estratégia da corrosão
O Chega não pretende reformar a democracia portuguesa — pretende enfraquecê-la, descredibilizá-la, torná-la irreconhecível. E fá-lo com uma estratégia eficaz: ocupar o centro do debate, forçar os termos da linguagem pública, e transformar direitos fundamentais em questões polémicas.
“O partido é perito em criar o que os analistas chamam clivagem moral artificial”, explica o politólogo Pedro Valente. “Apresenta todas as discussões políticas como uma guerra entre ‘portugueses de bem’ e ‘traidores da pátria’, entre ‘nós’ e ‘eles’. Assim, destrói qualquer possibilidade de compromisso.”
A táctica repete-se: banalizar o ódio, ridicularizar os direitos humanos, acusar os adversários de conivência com o crime, o islamismo ou o “globalismo”. E quando surge a crítica, responde-se com mais vitimização — “a elite não nos deixa falar”.
Este ciclo vicia o espaço público e as instituições caem na armadilha: ou ignoram e são acusadas de conivência, ou confrontam e reforçam o protagonismo do provocador.
Medo, cinismo e conformismo
Nas instituições, cresce o medo: medo de ser acusado de parcialidade, de “politização”, de “cancelamento”. Muitos diretores de escolas evitam tomar posição. Algumas redações normalizam o discurso do Chega para “não alienar leitores”. Nas universidades, temas como colonialismo, privilégio racial ou feminismo enfrentam novas formas de censura informal.
“O que mais me preocupa não é a violência do discurso — é o silêncio dos outros”, afirma a historiadora Inês Braga, da Universidade de Lisboa. “A democracia precisa de guardiões. Se os professores, jornalistas, magistrados e políticos moderados se retraem, o autoritarismo avança com mais força.”
Este silêncio, travestido de neutralidade, é o oxigénio do extremismo. Tal como alertava Hannah Arendt, “o mal não precisa de crentes fervorosos — basta-lhe o conformismo dos indiferentes”.
A armadilha da “normalização democrática”
Vários sectores políticos tentaram “normalizar” o Chega — incluir o partido em debates, ceder-lhe cargos institucionais, tentar encontrar terreno comum. Mas a própria natureza do Chega torna essa aproximação ilusória.
“Não se pode normalizar quem recusa os fundamentos da democracia liberal”, argumenta Rui Tavares, deputado e historiador. “O Chega quer acabar com a neutralidade do Estado, com os direitos iguais para todos, com a separação entre justiça e política. Aceitá-lo como um partido normal é aceitar que o racismo e o autoritarismo passaram a fazer parte do jogo democrático.”
O Parlamento português já sofreu consequências desta “normalização”: agressões verbais a deputados negros, insultos transfóbicos em plenário, pedidos de censura à comunicação social, moções a favor de práticas que violam convenções internacionais.
E no entanto, o partido continua a ganhar protagonismo.
O perigo da despolitização cívica
Num estudo recente do ICS, 58% dos jovens entre os 18 e os 24 anos afirmaram que “nenhum partido representa os seus valores”. A alienação cresce, a confiança nas instituições desce. Muitos consideram que a democracia “funciona apenas para os ricos” e sentem que o voto é inútil.
Este vazio é o terreno fértil onde o Chega prospera. Não conquista apenas pelo discurso — conquista pela ausência de alternativas credíveis, mobilizadoras, ousadas.
“Estamos a viver uma crise de representação e uma crise de coragem”, afirma Teresa Duarte, da associação Democracia Viva. “O Chega oferece respostas simples para problemas complexos. A esquerda e o centro precisam de reaprender a falar com clareza, paixão e valores. Caso contrário, o populismo tomará o lugar que deixaram vazio.”
E depois de amanhã?
A erosão democrática é insidiosa. Não acontece de um dia para o outro. Mas acontece. Primeiro com as palavras, depois com os silêncios, mais tarde com a legislação. Quando damos por isso, os jornalistas estão presos por difamação, os professores vigiados, os juízes desacreditados, os direitos minoritários revogados.
Este é o verdadeiro custo do Chega. Não é apenas um custo político. É o custo de permitirmos que uma ideologia de ódio, ressentimento e exclusão se vista de “alternativa patriótica”.
E a questão que se impõe, com toda a gravidade, é: a democracia portuguesa acordará a tempo?
Palavras-Chave: Chega, democracia, populismo, autoritarismo, direitos humanos, liberdade, discurso político