Resumo
- Segundo a Repórteres Sem Fronteiras (RSF) e o Comité para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), os profissionais da comunicação são alvos cada vez mais frequentes e deliberados.
- A iniciativa de parar redacções por um minuto nasceu de um grupo informal de editores em Beirute, Berlim e Lisboa, e rapidamente ganhou dimensão planetária.
- Em Portugal, aderiram meios como o Público, a TSF, a RTP, a SIC Notícias e plataformas independentes como o Fumaça.
Em 1 de Setembro de 2025, redacções de todo o mundo pararam por um minuto. Foi o silêncio mais ensurdecedor da história recente do jornalismo.
Um minuto de silêncio. Uma vida de luta.
Lisboa, Nova Iorque, Ramallah, Nairobi, Londres, São Paulo, Maputo, Tóquio. Às 12h00 em ponto (GMT), redações inteiras suspenderam o trabalho. Monitores desligaram-se, teclados emudeceram, manchetes congelaram. Foi o protesto simbólico que uniu mais de 3.000 órgãos de comunicação social em todo o mundo contra o que muitos já designam como um massacre deliberado de jornalistas na Faixa de Gaza.
Entre Outubro de 2023 e Agosto de 2025, pelo menos 132 jornalistas e trabalhadores dos media foram mortos no enclave sitiado — quase todos palestinianos. Muitos deles estavam identificados como imprensa. Vários morreram em suas casas, com as famílias. Alguns transmitiam em direto quando foram atingidos. Nenhuma investigação independente foi concluída. Nenhum responsável foi punido.
O protesto global de Setembro marca uma viragem: o mundo deixou, por fim, de ignorar o que se passa. Mas será suficiente?
Gaza: onde o colete de “PRESS” não protege
Ser jornalista em Gaza tornou-se uma sentença de morte. Desde o início da ofensiva militar israelita de 2023, as condições para o exercício da profissão deterioraram-se a um ponto inédito. Segundo a Repórteres Sem Fronteiras (RSF) e o Comité para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), os profissionais da comunicação são alvos cada vez mais frequentes e deliberados.
“O meu irmão foi morto enquanto dormia com os filhos. Era jornalista, mas também era pai, marido, vizinho. Tinham o nome dele, sabiam onde morava. Foi uma execução”, conta, em anonimato, um familiar de Ahmed Abu Hilal, repórter da rádio Al-Quds, morto em Janeiro de 2024.
Imagens de satélite analisadas pelo Forensic Architecture, grupo de investigação independente, mostram que vários ataques ocorreram em locais marcados como redacções ou habitações de jornalistas. Um estudo publicado pela Universidade de Columbia aponta para padrões de bombardeamentos repetidos sobre zonas residenciais onde viviam profissionais da imprensa, sugerindo conhecimento prévio das suas localizações.
Censura como arma de guerra
Israel nega que haja alvos intencionais. Em declarações escritas enviadas a vários órgãos internacionais, as autoridades israelitas afirmam que “combatem o Hamas e não jornalistas”, mas recusam fornecer detalhes sobre investigações internas aos incidentes. O Ministério da Defesa limitou-se a referir que “a informação é parte do campo de batalha”. Não houve resposta à nossa tentativa de pedido de comentário.
“Há uma política de negação sistemática e uma campanha para deslegitimar a imprensa palestiniana, acusando-a de colaboracionismo ou propaganda”, afirma Rami Al-Jabari, investigador da Al-Haq, ONG palestiniana de direitos humanos. “O objectivo é cortar os olhos ao mundo. Matar o mensageiro.”
A entrada de jornalistas estrangeiros em Gaza continua severamente restringida. Desde Outubro de 2023, nenhuma equipa internacional entrou na Faixa sem escolta militar israelita. Quem lá está são quase exclusivamente repórteres palestinianos — com poucos recursos, sob bombardeamento constante e sem qualquer protecção diplomática.
As redações do mundo unem-se: o protesto global de 1 de Setembro
A iniciativa de parar redacções por um minuto nasceu de um grupo informal de editores em Beirute, Berlim e Lisboa, e rapidamente ganhou dimensão planetária. The Guardian, Le Monde, El País, Folha de S. Paulo, Al Jazeera, Der Spiegel, The New York Times e centenas de outras aderiram. Em Portugal, aderiram meios como o Público, a TSF, a RTP, a SIC Notícias e plataformas independentes como o Fumaça.
“Foi o minuto mais longo da minha carreira. Um minuto para lembrar colegas que não conhecemos, mas que partilham a nossa missão: dar voz à verdade”, disse Ana Baptista, editora da secção internacional de um diário português.
A RSF promoveu nesse dia uma leitura colectiva, em frente às Nações Unidas, dos nomes de 102 jornalistas mortos até Julho de 2025. Três semanas depois, a lista já era maior.
A guerra da informação e o preço da verdade
A guerra em Gaza é também uma guerra de narrativas. As redes sociais amplificam campanhas de desinformação e o algoritmo tende a favorecer versões oficialistas, muitas vezes alinhadas com discursos securitários. O jornalismo independente torna-se assim uma ameaça — e os jornalistas, alvos.
Nos bastidores, há interesses poderosos a beneficiar com o silenciamento. A ausência de testemunhos permite narrativas controladas, manipulação de imagens, ausência de escrutínio. A fronteira entre censura e propaganda esbate-se.
“Quando matas um jornalista, matas também uma verdade possível”, afirmou Nasser Hamed, correspondente freelance que sobreviveu a dois ataques e hoje vive escondido no Sul de Gaza. “Mas cada um de nós que sobrevive carrega agora as histórias dos que já não podem contar. E vamos contá-las.”
E agora? A pergunta que ecoa
A mobilização de 1 de Setembro não é um fim — é um começo. Mas o que se segue? O protesto precisa de se traduzir em exigência política, mecanismos de responsabilização e protecção concreta a quem ainda tenta informar em zonas de guerra.
As organizações de defesa da liberdade de imprensa propõem um corredor seguro para jornalistas, a criação de uma missão internacional de observação e a inclusão de ataques contra jornalistas como crimes de guerra na jurisprudência do Tribunal Penal Internacional.
“O mundo começa a despertar. Mas é preciso muito mais do que solidariedade simbólica. É preciso justiça”, defende Maria Ressa, jornalista filipina e Nobel da Paz.
Porque continuamos?
Apesar do medo, da dor, do luto, há jornalistas em Gaza que continuam a transmitir, fotografar, escrever, documentar. Fazem-no com telemóveis sem bateria, com internet instável, sob ameaça de morte.
Fazem-no por dever. Por amor à verdade. E porque sabem que, se a imprensa cair, o mundo cai com ela.
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