Resumo
- Num tempo em que os algoritmos favorecem a reacção, não a rectificação, e onde o confronto é visto como afronta, a figura do “cidadão-correção” está em vias de extinção.
- Quanto mais se desmente, mais se consolida a mentira — se o desmentido não for feito com tacto e contexto”, acrescenta o investigador.
- Segundo a ONG Report for Truth, apenas 6% dos utilizadores expostos a uma fake news verão também o desmentido correspondente — e muitas vezes em contexto separado, dias depois.
Num ambiente hostil e acelerado, cada vez menos internautas tentam corrigir desinformação. Quem são os que resistem — e porquê continuam?
“Não é verdade, e aqui está a fonte.” Esta simples frase, partilhada num comentário do Facebook em 2019, gerava discussões, likes e até agradecimentos. Hoje, é mais provável que leve ao silêncio, ao escárnio ou ao bloqueio.
Nas redes sociais de 2025, corrigir fake news é um acto de resistência solitária. O cidadão que ainda tenta fazê-lo enfrenta desconfiança, hostilidade e, muitas vezes, esgotamento emocional. A maioria já desistiu. Quem continua?
Num tempo em que os algoritmos favorecem a reacção, não a rectificação, e onde o confronto é visto como afronta, a figura do “cidadão-correção” está em vias de extinção.
“Sou chamada de arrogante, elitista, vendida”
Sandra Dias, 42 anos, bibliotecária em Leiria, tornou-se conhecida em grupos de Facebook ligados à educação por ser “a que vai sempre buscar fontes”. O hábito nasceu durante a pandemia, quando falsas alegações sobre vacinas circulavam entre familiares e amigos.
“Achava que estava a ajudar. Mas com o tempo, percebi que as pessoas não queriam ser corrigidas. Queriam ter razão”, conta. Hoje, participa muito menos. “Sou chamada de arrogante, elitista, vendida aos ‘media do sistema’. Cansa.”
Como Sandra, muitos dos que tentaram intervir no espaço digital recuaram. Segundo um estudo do Digital Media Observatory Portugal (2024), apenas 12% dos utilizadores dizem corrigir activamente desinformação online. Em 2020, eram quase 30%.
O custo psicológico do confronto
“Corrigir fake news activa conflitos identitários”, explica o sociólogo digital Eduardo Amado. “As pessoas interpretam a correcção como ataque pessoal ou político. E reagem com hostilidade, não com escuta.”
A isto junta-se o chamado efeito de reforço: quando uma afirmação falsa é desmentida, muitos redobram a crença original. “É um paradoxo. Quanto mais se desmente, mais se consolida a mentira — se o desmentido não for feito com tacto e contexto”, acrescenta o investigador.
Este desgaste leva ao que os académicos chamam de fadiga da correcção. Sintomas: frustração, cinismo, abandono das redes. “Deixei de tentar. Fico calado. É mais saudável para mim”, resume Rui Martins, engenheiro e ex-verificador voluntário num grupo de WhatsApp da família.
Quem continua — e porquê?
Apesar do desânimo generalizado, há quem persista. No Reddit português, há comunidades que se dedicam a desmentir sistematicamente boatos e desinformação. No Mastodon, pequenos grupos coordenam acções educativas com links verificados. E no TikTok, surgiram criadores que desmontam vídeos manipulados, com linguagem acessível e empatia.
Catarina Faria, 27 anos, psicóloga, criou o canal “É Mesmo Assim?” no Instagram para ajudar os seguidores a distinguir entre factos e mitos. Tem 18 mil seguidores e dezenas de mensagens por dia.
“O segredo está no tom. Não se trata de corrigir ‘do alto’, mas de convidar à reflexão. Uso perguntas em vez de certezas”, explica. Catarina acredita que o combate à desinformação exige mais escuta e menos correção.
Plataformas: (ainda) cúmplices
As redes sociais continuam a premiar conteúdos virais, mesmo que sejam falsos. As etiquetas de aviso, quando existem, surgem tarde. Os algoritmos favorecem reacções emocionais, não correcções argumentadas.
Segundo a ONG Report for Truth, apenas 6% dos utilizadores expostos a uma fake news verão também o desmentido correspondente — e muitas vezes em contexto separado, dias depois.
“É uma luta desigual”, afirma o moderador de um fórum de verificação no Discord. “O boato vem em vídeo com música, filtros e legenda apelativa. O desmentido vem num PDF do governo, em letra pequena. Quem vai ganhar?”
Activismo digital ou memória crítica?
Num ambiente onde corrigir é perigoso, algumas vozes defendem uma mudança de estratégia: passar do confronto directo para a construção de redes de literacia digital. Em vez de corrigir cada mentira, criar anticorpos cognitivos: dúvida, método, curiosidade.
Outros apelam à valorização do “cidadão-correção” como figura social. “Estas pessoas são os novos educadores cívicos”, defende a investigadora Carla Moura, da Universidade de Évora. “Precisam de reconhecimento, apoio e espaços protegidos.”
Há projectos-piloto a testar isso mesmo. Um deles, liderado por uma escola secundária em Matosinhos, criou um clube de verificação de factos onde alunos analisam publicações virais e explicam o processo à comunidade escolar. “Não queremos apenas corrigir. Queremos aprender juntos”, diz Leonor, 17 anos, uma das dinamizadoras.
O futuro da verdade passa por todos?
Corrigir desinformação não é só responsabilidade das plataformas, governos ou jornalistas. É um acto social. Mas exige tempo, empatia e coragem.
Se o número de cidadãos dispostos a fazer esse trabalho continua a cair, quem irá defender a verdade no espaço digital?
“Talvez seja altura de passar da lógica da correcção para a da conexão”, propõe Catarina Faria. “Ouvir, compreender, conversar. A verdade sobrevive onde há vínculos humanos.”