Resumo
- evolução recente e retrato atual” (dezembro de 2024), a pressão internacional cresceu de forma marcada na segunda metade da década de 2010 e agravou a concorrência num mercado que não aumentou, ao mesmo ritmo, o número de casas disponíveis para transação.
- O relatório, aliás, enquadra o fenómeno como parte de uma vaga global de financeirização do imobiliário, em que a habitação passa a ser tratada como ativo e mercadoria, com ligações a dinâmicas de turistificação e gentrificação.
- O problema começa quando esse ganho não é equilibrado com oferta e com instrumentos de proteção — e quando a capacidade de compra de fora supera de forma sistemática a de quem cá vive.
Em Portugal, o investimento estrangeiro no imobiliário deixou de ser rodapé de relatório para passar a variável que mexe com o preço da casa do vizinho. Segundo o estudo “Acesso à Habitação em Portugal: evolução recente e retrato atual” (dezembro de 2024), a pressão internacional cresceu de forma marcada na segunda metade da década de 2010 e agravou a concorrência num mercado que não aumentou, ao mesmo ritmo, o número de casas disponíveis para transação.
O retrato tem números concretos e uma geografia nítida. Em 2012, cerca de 7.000 transações foram feitas por compradores com domícilio fiscal fora de Portugal (4,9% do total). Em 2023, no Algarve, esse peso subiu para cerca de 27% das transações. A Madeira aparece igualmente com um peso “significativo”.
E há outro dado que corta a conversa ao meio: no final de 2023, os compradores nacionais pagavam em média 1.574 €/m², enquanto compradores com domícilio fiscal no estrangeiro investiam 2.336 €/m² — uma diferença de cerca de 750 €/m².
Três regimes, um efeito colateral
O relatório identifica estruturas legais criadas nas últimas duas décadas para captar capital e residentes: Regime dos Residentes Não Habituais (2009), Vistos Gold (2012) e regime fiscal para trabalhadores remotos/nómadas digitais (2022). Há ainda um quadro de isenções fiscais para entidades coletivas, como fundos e sociedades de investimento imobiliário.
O objetivo político foi dinamizar a economia, primeiro após a crise financeira, depois durante a Troika e, mais tarde, no pós-pandemia. A questão é a conta final: quando a atração de capital coincide com oferta curta e salários baixos, o mercado não “absorve”; empurra.
Daquela aposta, ficou um mercado mais global. E mais caro.
Lisboa como “rising star” — e a volatilidade do capital
O relatório lembra como Lisboa passou, em poucos anos, de cidade com atratividade fraca para o investimento imobiliário a presença constante nas tendências europeias. A própria literatura do setor citada pelos autores coloca Lisboa no topo em 2019 e, em 2024, na oitava posição do ranking referido (ULI & PwC).
Mas há uma nota que merece ser lida devagar: investidores grandes entram em ciclos de valorização e podem retirar-se com rapidez ao menor sinal de fraqueza, redirecionando capital para novos mercados “emergentes”. Ou seja, a dependência deste dinheiro tem pés de barro.
Micro-história: uma placa “vende-se” e um silêncio na rua
Em Loulé, numa rua estreita onde o cheiro a grelhados se mistura com o pó das obras, uma placa “vende-se” ficou meses na varanda. Depois, num fim de semana, desapareceu. Na semana seguinte, surgiram caixas de mudança com etiquetas em inglês. Não houve festa, não houve conversa de escadas. Só uma porta nova, impecável, e o rumor de que “foi para investimento”.
Daquela normalidade, restou um vazio pequeno, mas persistente.
“Estão a culpar os estrangeiros?” Não é isso.
Poderiam argumentar que esta narrativa vira caça às bruxas, um atalho confortável: “a culpa é de fora”. E têm razão em desconfiar. O relatório, aliás, enquadra o fenómeno como parte de uma vaga global de financeirização do imobiliário, em que a habitação passa a ser tratada como ativo e mercadoria, com ligações a dinâmicas de turistificação e gentrificação.
A concessão honesta é esta: o investimento internacional trouxe reabilitação, liquidez e, em alguns territórios, salvou património abandonado. O problema começa quando esse ganho não é equilibrado com oferta e com instrumentos de proteção — e quando a capacidade de compra de fora supera de forma sistemática a de quem cá vive.
Uma cidade não é uma carteira de ativos. É uma casa onde alguém tem de caber.