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Resumo

  • Seguir o dinheiro revela a anatomia de um mercado opaco mas eficaz, em que cliques se convertem em euros e a verdade é apenas mais uma variável algorítmica.
  • Casos documentados no Brasil, nos Estados Unidos e em países da Europa de Leste mostram como as chamadas fazendas de conteúdo operam a partir de interesses políticos e ideológicos, utilizando bots e perfis falsos para maximizar alcance e criar a ilusão de consenso.
  • O problema agrava-se com os sistemas de recomendação automatizada, que levam os utilizadores a um ciclo de reforço — onde uma visualização de desinformação conduz a outra, e depois a mais uma, ad infinitum.

Publicidade, algoritmos e manipulação política alimentam economia paralela que prospera à custa da verdade.

Lisboa — A desinformação já não é apenas uma ameaça à democracia. É, cada vez mais, um negócio multimilionário. Num sistema em que a viralidade é moeda de troca, as fake news transformaram-se num produto altamente rentável — para plataformas digitais, actores políticos e redes clandestinas de conteúdo.

Seguir o dinheiro revela a anatomia de um mercado opaco mas eficaz, em que cliques se convertem em euros e a verdade é apenas mais uma variável algorítmica. Quem lucra com a mentira?

O lucro está no clique

De acordo com dados de relatórios recentes da Meta e da Alphabet (empresa-mãe da Google), milhares de páginas que propagam desinformação continuam a receber receitas publicitárias, mesmo após denúncias. Estes sites exploram temas polarizadores — vacinas, imigração, eleições — para atrair tráfego e vender espaços publicitários através de sistemas automatizados.

“Há uma linha directa entre a desinformação e a monetização”, explica Mariana Oliveira, economista digital na Universidade do Minho. “O conteúdo enganador gera mais partilhas, mais visualizações, mais exposição. E quem ganha é o intermediário: a plataforma.”

Segundo a Global Disinformation Index (GDI), o mercado da desinformação online pode render mais de mil milhões de euros por ano só em publicidade programática. Um “clickbait” bem posicionado pode gerar entre 10 a 100 vezes mais receita do que uma notícia verificada.

Política: engajamento, votos, poder

Não se trata apenas de dinheiro. Em contextos eleitorais, a mentira digital torna-se arma política. Vários estudos internacionais demonstram como campanhas coordenadas utilizam redes sociais para amplificar boatos, manipular tendências de busca e influenciar directamente o comportamento dos eleitores.

“Estamos a assistir à profissionalização do engano”, alerta o politólogo francês Philippe Marquet. “O objectivo não é apenas convencer, é confundir — criar um nevoeiro informativo que torne impossível distinguir o real do falso.”

Casos documentados no Brasil, nos Estados Unidos e em países da Europa de Leste mostram como as chamadas fazendas de conteúdo operam a partir de interesses políticos e ideológicos, utilizando bots e perfis falsos para maximizar alcance e criar a ilusão de consenso.

Plataformas entre a passividade e o lucro

Apesar de pressões públicas e regulamentações incipientes — como o Digital Services Act da União Europeia — as grandes tecnológicas continuam a beneficiar da circulação de desinformação.

Embora existam programas de verificação de factos (fact-checking) e parcerias com entidades externas, o modelo de negócio das plataformas assenta na maximização do tempo de permanência do utilizador. E o conteúdo enganador, emocional e sensacionalista tem precisamente esse efeito.

“A arquitectura algorítmica é parte do problema”, denuncia Inês Garrido, investigadora em ética digital. “O que aparece no feed não é o mais verdadeiro, é o que gera mais reacções.”

O problema agrava-se com os sistemas de recomendação automatizada, que levam os utilizadores a um ciclo de reforço — onde uma visualização de desinformação conduz a outra, e depois a mais uma, ad infinitum.

Da verificação à resistência activa

Iniciativas como a NewsGuard, a EUvsDisinfo ou o projecto português Media Veritas têm tentado responder com transparência, literacia mediática e rastreamento de fontes. No entanto, a capacidade de resposta é limitada.

O relatório “Desinformação versus correcção” (2024), agora em análise no Parlamento Europeu, confirma que os mecanismos de correcção têm impacto reduzido face à velocidade e escala de disseminação das fake news.

“Desmentir ajuda, mas chega tarde e a poucos”, resume o sociólogo André Figueiredo, especialista em redes. “A verdadeira solução passa por desmonetizar a mentira.”

Regular é possível?

O debate sobre a regulação avança lentamente. Portugal prepara actualmente um plano nacional contra a desinformação, mas falta fiscalização eficaz. Alguns deputados defendem multas às plataformas que hospedem conteúdos falsos sistematicamente monetizados. Outros pedem maior transparência nos algoritmos e acesso a dados para investigadores.

Há quem vá mais longe: propor que o lucro obtido com desinformação seja taxado, revertendo para fundos de apoio ao jornalismo de investigação e à educação mediática.

Será esta a chave para desmontar a máquina da mentira?


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