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Resumo

  • Em vez de ignorar a retórica do ódio, os professores estão a ensiná-la — para que os alunos a reconheçam, a questionem e a rejeitem.
  • Nos Países Baixos, o programa CritThink introduziu jogos pedagógicos baseados em dilemas morais e simulações de debates eleitorais, enquanto em Itália, o projecto Memória Viva combina testemunhos do Holocausto com reflexão sobre o presente.
  • Em resposta, o Conselho da Europa lançou este ano uma plataforma de formação contínua em “Educação para os Direitos Humanos”, com módulos sobre discurso de ódio, diversidade e democracia digital.

Projectos pedagógicos promovem pensamento humanista e desmantelam discursos desumanizantes — “Não se nasce intolerante, aprende-se a sê-lo”, dizem educadores.


O pátio da Escola Secundária Filipa de Vilhena, no Porto, acolhe este ano uma experiência pedagógica invulgar: alunos do 10.º ano discutem discursos populistas, desmontam memes xenófobos e reflectem sobre os limites éticos da liberdade de expressão. A iniciativa, parte do projecto europeu Educar para Resistir, é um dos sinais de uma mudança urgente: combater o avanço da extrema-direita passa também pela sala de aula.

Em toda a Europa, multiplicam-se as escolas que assumem um papel activo na promoção do pensamento crítico e dos valores humanistas. Em vez de ignorar a retórica do ódio, os professores estão a ensiná-la — para que os alunos a reconheçam, a questionem e a rejeitem.


Uma nova gramática da cidadania

“O objectivo não é doutrinar, mas capacitar”, explica Sofia Antunes, coordenadora do projecto no Porto. “Trabalhamos com exemplos reais: discursos políticos, publicações nas redes sociais, vídeos de propaganda. Mostramos como se constroem os estereótipos e que impactos têm no mundo real.”

O programa integra sessões sobre desinformação, direitos humanos, história das ideologias e empatia activa. Os alunos analisam desde falácias argumentativas até notícias falsas difundidas por influencers. “Aprender a duvidar é o primeiro passo para resistir”, sublinha Antunes.

Iniciado em 2023 com financiamento do European Digital Media Observatory (EDMO), o projecto já está presente em 11 países e em mais de 200 escolas. Os primeiros dados são promissores: em turmas participantes, há uma redução de 35 % na aceitação de discursos discriminatórios, segundo o relatório intercalar da Universidade de Amesterdão.


O papel da escola na era digital

Para os especialistas, este tipo de formação é cada vez mais vital num ecossistema mediático saturado de estímulos e manipulações. “Os adolescentes estão expostos diariamente a conteúdos polarizadores, muitos deles com mensagens implícitas de exclusão ou ódio”, afirma Marco Pina, investigador em cidadania digital da Universidade de Évora.

Segundo Pina, a literacia mediática deve ser entendida como uma forma de defesa democrática: “Não basta saber usar um telemóvel — é preciso saber interpretar, desconstruir e, se necessário, resistir.”

Nos Países Baixos, o programa CritThink introduziu jogos pedagógicos baseados em dilemas morais e simulações de debates eleitorais, enquanto em Itália, o projecto Memória Viva combina testemunhos do Holocausto com reflexão sobre o presente.


Formar professores para formar consciências

A revolução pedagógica, porém, exige também um investimento em quem ensina. “Muitos professores sentem-se despreparados para lidar com estes temas, receiam polémicas ou retaliações”, reconhece Antunes.

Em resposta, o Conselho da Europa lançou este ano uma plataforma de formação contínua em “Educação para os Direitos Humanos”, com módulos sobre discurso de ódio, diversidade e democracia digital.

Em Portugal, a Direcção-Geral da Educação está a rever os programas de Cidadania e Desenvolvimento, introduzindo tópicos mais explícitos sobre populismo, autoritarismo e ética pública.


Um novo Iluminismo?

A questão que se coloca é simples: pode a escola, sozinha, conter o avanço do ódio? Talvez não. Mas, como recorda Marco Pina, “a escola é o último reduto onde ainda se pode aprender a pensar livremente, em voz alta e com os outros”. E isso, em tempos de radicalização e desinformação, é uma forma de resistência.


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