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Resumo

  • Lisboa, 13 de Junho de 2025 — Num país onde o catolicismo moldou séculos de cultura e política, a Igreja Católica portuguesa tem-se afirmado, de forma clara e corajosa, como uma das vozes mais lúcidas contra a ascensão da extrema-direita.
  • É o grito sereno de uma Igreja que se recusa a ver o nome de Cristo instrumentalizado por forças políticas que alimentam o medo e o ódio.
  • Nas universidades e nas redes sociais, cresce um movimento juvenil cristão que rejeita o conservadorismo excludente e abraça causas como o acolhimento de refugiados, a justiça climática e a igualdade de género.

Igreja Católica em Portugal confronta discurso da extrema-direita e reafirma valores cristãos de inclusão.

Lisboa, 13 de Junho de 2025 — Num país onde o catolicismo moldou séculos de cultura e política, a Igreja Católica portuguesa tem-se afirmado, de forma clara e corajosa, como uma das vozes mais lúcidas contra a ascensão da extrema-direita. Enquanto o Chega mobiliza uma retórica marcada por exclusão, ressentimento e nacionalismo exacerbado, bispos, padres e organizações eclesiásticas contrapõem-lhe a mensagem evangélica de acolhimento, justiça social e dignidade humana.

“Deus não é de direita, nem de esquerda — é de todos”, afirmou recentemente D. José Ornelas, presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), numa homilia em Fátima. A frase, aparentemente simples, ganhou eco nacional, sendo repetida em paróquias, redes sociais e até em protestos estudantis. É o grito sereno de uma Igreja que se recusa a ver o nome de Cristo instrumentalizado por forças políticas que alimentam o medo e o ódio.

Dissonância ética com o Chega

O crescimento eleitoral do Chega tem trazido para o centro do debate político discursos abertamente xenófobos, anti-ciganos, islamofóbicos e hostis a refugiados. Mas essa retórica esbarra, cada vez mais, com a doutrina social da Igreja. “A dignidade da pessoa humana não pode ser sujeita a cálculos eleitorais”, denuncia D. Januário Torgal Ferreira, bispo emérito das Forças Armadas e voz crítica desde os tempos da guerra colonial.

D. Januário, que não teme usar palavras duras, considera “blasfematória” a apropriação do cristianismo por sectores da extrema-direita. “São falsos profetas que invocam Deus para legitimar muros, expulsões e humilhações. Jesus nasceu migrante, foi refugiado no Egipto, e morreu crucificado pelo poder político e religioso do seu tempo.”

A crítica ética da Igreja não se limita a palavras. Nas últimas semanas, vários párocos recusaram acolher eventos ligados ao Chega em espaços paroquiais, e movimentos católicos organizaram sessões públicas sobre “valores cristãos em tempos de populismo”.

Teologia da inclusão

No terreno, instituições como a Obra Católica Portuguesa de Migrações (OCPM) têm sido fundamentais na acolhida de migrantes e na formação de consciência crítica nas comunidades. A directora da OCPM, Eugénia Quaresma, sublinha que “o Evangelho é uma boa nova para os pobres, os marginalizados, os estrangeiros. Quando a política rejeita estas pessoas, está a rejeitar Cristo”.

A OCPM tem promovido formações para catequistas e agentes pastorais sobre os desafios da mobilidade humana e os riscos do discurso de ódio. “É preciso desmontar preconceitos com factos e fé. Muitos jovens católicos sentem-se perdidos entre a sua identidade nacional e os valores do Reino de Deus. A nossa missão é ajudá-los a ver que ser cristão é, por definição, ser solidário”, defende Eugénia Quaresma.

A teologia da inclusão, presente nos documentos do Papa Francisco — nomeadamente a encíclica Fratelli Tutti — tem sido também uma referência recorrente nos textos pastorais portugueses. “Não podemos normalizar o insulto ou o medo. Quem divide, não está com Cristo”, lê-se numa carta pastoral da Diocese do Porto.

Juventude cristã em resistência

Nas universidades e nas redes sociais, cresce um movimento juvenil cristão que rejeita o conservadorismo excludente e abraça causas como o acolhimento de refugiados, a justiça climática e a igualdade de género. “Ser jovem cristão hoje é estar do lado de quem sofre, e não com quem aponta o dedo”, afirma Mariana Silva, 22 anos, estudante de Teologia na Universidade Católica.

Para Mariana, é inaceitável que líderes políticos que promovem racismo ou homofobia sejam apresentados como defensores da família ou da moral cristã. “A família que Jesus defende inclui publicanos, samaritanos e prostitutas. É uma família sem fronteiras nem preconceitos.”

Entre fé e cidadania

A intervenção pública da Igreja não está isenta de tensões internas. Alguns sectores católicos — embora minoritários — simpatizam com discursos conservadores ou nacionalistas. Mas a hierarquia tem sido inequívoca: a fé não pode ser usada como arma política.

D. José Ornelas resume: “Temos a obrigação de lembrar aos fiéis que os valores cristãos são incompatíveis com a exclusão, o racismo ou a violência. O Evangelho exige-nos mais do que votos — exige-nos consciência.”

Num país em que a identidade católica continua a ser significativa, esta clareza moral da Igreja pode tornar-se um travão decisivo ao avanço do populismo xenófobo. Em nome da fé, da justiça e da dignidade humana.

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